Ilha dos Cães: Wes Anderson à deriva

Ilha dos Cães conta a história de Atari, um menino de 12 anos sob a tutela de Kobayashi, um corrupto presidente da câmara. Quando, por decreto executivo, todos os animais de estimação caninos da cidade de Megasaki são exilados para uma vasta lixeira chamada Ilha do Lixo, Atari parte sozinho à procura do seu cão de guarda, Spots. Nessa ilha, com a ajuda de uma matilha, começa uma jornada que irá decidir o destino de toda a cidade.

Ilha dos Cães é a segunda aventura de Wes Anderson no mundo da animação e do stop-motion – a primeira foi Fantastic Mr.Fox, filme que, em 2010,  recebeu duas nomeações aos Óscares, incluindo Melhor Filme de Animação. O guião é da autoria do próprio Anderson e Bryan Cranston, Edward Norton, Bill Murray, Frances McDormand ou Greta Gerwig são alguns dos nomes que emprestam a sua voz às personagens principais.

Neste seu mais recente projeto, a “marca de água” ‘anderseniana’ mantém-se presente, mas desta vez algo parece diferente.

Conhecido por um humor repleto de idiossincrasias e tons irónicos, a requintada atmosfera do realizador de Moonrise Kingdom foca desta vez a sua atenção na cultura japonesa. A este universo Anderson acrescenta pouco, mantendo muito da sua iconografia intacta.

O guião segue uma história envolta em exuberâncias, pormenorizada pelas confluências artísticas e textuais a que o realizador tantas vezes recorre. A visão futurista – uma novidade na obra de Anderson – é carregada de notas sérias, tal como a banda-sonora de Alexandre Desplat. A estrutura narrativa é semelhante a obras passadas, mas a história é mais previsível. O romance entre Atari Tracy, por exemplo, não é particularmente desenvolvido e surge quase forçosamente a partir de interesses narrativos.

A animação é o aspecto mais satisfatório da película. As texturas e cores demonstram um cuidadoso trabalho artístico, que encontra o seu ponto alto nas figuras caninas. A cidade é pouco explorada e, recorrendo-se aí muitas vezes a cenários já visitados, somos deixados maioritariamente na ilha com os cães. O cenário é aqui uniforme, metalizado, opondo-se ao espectro retro que prolifera na obra de Wes.

O que falha a Ilha dos Cães é muitas vezes a ausência de humor ingénuo e simples, espelhado em qualquer filme do realizador. As piadas são maioritariamente deixadas a cargo de personagens secundárias ou do narrador. Não existe uma “personagem-forte” que pegue na narrativa. Apesar de conseguirmos identificar o seu centro, parece que o guião acompanha a história sem a orientar.

A personagem de Tilda Swinton (um pug que se passa por oráculo e que apenas vê televisão) é, infelizmente, subaproveitada. Em vez desta, Anderson escolhe prosseguir a sua narrativa com personagens como Tracy Walker (Greta Gerwig). No universo do realizador podemos encontrar este tipo de personagens jovens, inteligentes e revolucionárias, mas Tracy acrescenta pouco à história com a sua participação pouco cativante ou pertinente.

A visão tecnocrata de Anderson é pouco elaborada, semelhante a tantas outras do mundo do cinema. Na cidade de Megasaki não se quer apenas erradicar os cães, mas tem ainda de haver uma preferência por versões robóticas dos caninos. Este tipo de elaboração é mostra-se plana em termos criativos e artísticos.

Ilha dos Cães tem os seus momentos, mas faltam-lhe muitos dos elementos que tornaram Fantastic Mr. Fox um filme de referência na filmografia de Anderson. No entanto, este é certamente uma boa alternativa ao monopólio de animação de grandes produtoras como a Disney e Pixar. Os seus temas são menos “rotulados” e o seu tom de tragicomédia é uma variação positiva daquele do cinema de animação comercial.

A realização de Ilha dos Cães é distinta de qualquer outra no mundo da animação, mas a sua narrativa é pouco iluminada. Anderson monta a Ilha dos Cães através da sua máquina estilística habitual, acabando por tornar o filme desigual. Na sua composição cinematográfica é sempre necessário um certo malabarismo semiótico para combinar elegantemente todos os seus elementos. Infelizmente, Ilha dos Cães perde-se nesse mesmo malabarismo. Ou talvez nem sequer o tente, sendo ele próprio vítima do seu desinvestimento.

Falta aqui o fantástico de Mr.Fox, restando-nos apenas os latidos de uma matilha pouco inspirada.

6/10

Título: A Ilha dos Cães
Realização: Wes Anderson
Argumento: Wes Anderson
Elenco (vozes): Bryan Craston,  Koyu Rankin, Edward Norton, Bill Murray, Greta Gerwing e Frances McDormand
Género: Animação, Aventura, Comédia
Duração: 101 minutos