Por minutos, relembremos a década de 2000, producente de coisas concebíveis apenas nas melhores fantasias (alucinações) de cada um.

Como nota Katherine St. Asaph na Stereogum: Lindsay Lohan ou Paris Hilton ubíquas nos tablóides, a fixação com vestuário largo e questionável, os estilos de vida frívolos e trash TV em sua função. E, claro, a indústria musical, que servia como repositório indiscriminado de tudo isto. Uma porta giratória entre talento magnético e entidades duvidosas, tão convidativa de Kanye West como de Cascada.

A diferenciação absoluta veio em 2008, nem que fosse só pelo advento de Lady Gaga: uma anomalia de nome real Stefani Germanotta e da iconoclastia como primeira natureza. Introduz-se com um cântico de glória às noites de inconsciência, mas antes da saturação e combustão final do híbrido pop-EDM. Ainda com frescura tangencial e revelia sincera, Just Dance completa agora 10 anos. E não é só um oráculo do que haveria de vir; serve de demarcatória entre as duas primeiras fases da pop no novo milénio.

Os primeiros anos foram brilhantes e cuidados, atravessando o amor anódino e o melodrama precoce, a rebeldia afável e a sensualidade preocupante. É também o que convoca mais saudosos, num culto estranhamente insidioso: os rituais em threads saudosistas do Twitter e as escrituras consubstanciadas em playlists de dúbio controlo de qualidade (da JoJo aos Evanescence).

O que encontrar depois este pináculo de histeria juvenil e feminilidade líder? Ah, sim. Sintetizadores em lata, odes proforma à vida noturna, máximas cheias de nuance como ‘mãos no ar’, ‘perder controlo’. E, claro, a imposição da palavra ‘club’—esse versátil, sofisticado vocábulo—como base de qualquer composição.

Gaga foi a única a mediar estas duas eras, de resto incompatíveis, corrigindo impurezas e fazendo adendas necessárias, numa ação imputável apenas ao camaleão indisputável da pop e ao produtor “red wine”, digo, RedOne. Grosso modo, Just Dance foi um breve trâmite na mutação da pop, levando também a casos patológicos (LMFAO, fase III dos Black Eyed PeasFar East Movement). Mas convém isolar o single inicial de The Fame, o début de Gaga, dos clones.

Há toda uma destreza na sua musicalidade hipnótica, no balanço entre contenção e ostentação. O manuseio do sintetizador é grandioso (e preciosamente vulgar) à anos 80. As teclas arrancam em ebulição, relegam-se à penumbra nos versos e fervem na ponte, para explodir no refrão. É dance-pop efervescente e anónimo, mas de carga hipnótica, amplificada pela linha vocal ominosa de Gaga.

E inalcançável no que toca à sua natureza intrigante e marginalmente perturbadora. A que se deve o pedido titular e a repetição de que tudo ficará bem? A incerteza do espaço, a visão trémula, a perda das chaves serão só embriaguez ou nervosos clamores por ajuda? Mais importante ainda, quem raio é o Colby O’Donis?

Quando penso nesta faixa— vencedora de um Grammy para Best Dance Recording, o usual prémio de consolação para as divas da pop — algo no meu sistema não computa, ao catalogá-la como algo dos anos 2000, de longe demasiado eletrónica e lasciva para tal. Mas é isso. Laminada e brilhante como nos primórdios da década, megalómana e simplista como depois seria a norma. Um protótipo eventualmente conspurcado, mas que revolucionou a indústria. Ou não teria vendido 10 milhões de cópias.

Muitas crónicas chegaram esta semana a propósito do décimo aniversário de Just Dance, praticamente expurgadas da análise musical. O que é bom, dada a indescritível mestria visual e performativa de Lady Gaga. Mas esta foi quase exclusivamente dedicada a evidenciar o génio dos 4 minutos em que se apresentou. Se o consegue? Não sei, é difícil resumir titãs em 500 palavras. Talvez seja mais fácil apenas dançar.

Ler também: Dez anos que completam uma década em 2018