Kali Uchis não é propriamente uma desconhecida na indústria musical. Colaborou com Snoop Dogg, trabalhou com nomes sonantes como Tyler, The Creator, Vince Staples, BADBADNOTGOOD, Diplo ou KAYTRANADA, fez a abertura de uma tour de Lana Del Rey. Para os menos atentos, emprestou a voz a See You Again, êxito instantâneo de Flower Boy de Tyler, The Creator, lançado no ano passado. Era impreterível o lançamento de um disco seu. Isolation é a perfeita combinação de candura e sangue latino. Kali Uchis veio para se destacar e não para se misturar.

Nascida na Colômbia, Karly-Marina Loaiza cresceu entre o seu país natal e os Estados Unidos da América. A alcunha, que serve hoje como nome artístico, foi-lhe dada pelo pai. Toca piano e saxofone e interessou-se desde muito cedo pela produção musical e edição de vídeo. Com apenas 17 anos, lançou a primeira mixtape, Drunken Babble. Passados três anos, e novamente por sua conta, produziu e lançou Por Vida, o seu primeiro EP. Agora, com 24 anos, e já com uma considerável e dedicada fanbase, lança o seu álbum de estreia, Isolation.

Uchis sabe agradar: quer pelo visual delicioso e interessante, quer pela voz distinta e doce. A personalidade forte reflete-se nas letras, sem receio de mostrar fragilidade. Isolation vem provar-nos que Kali faz as coisas à sua maneira.

Muitas participações, mas Kali é a estrela

O disco abre com Body Language, canção produzida por Thundercat e na qual também toca baixo, guitarra e percussão. O funk não engana e soa-nos familiar (não tivesse Drunk sido para muitos um dos melhores discos do ano passado).

Just a Stranger (com Steve Lacy, membro dos The Internet) e Your Teeth In My Neck fazem-nos voltar atrás várias vezes até conseguirmos cantar os refrões e ter aquele sentimento de missão cumprida. Quando voltarmos não queremos fazer má figura. Certo, siga.

Entre as duas últimas, fazemos uma viagem sem turbulência. Já Flight 22 é uma canção de amor, onde Uchis nos mostra que sabe fazer uma balada com tudo a que tem direito – ritmo lento, voz doce e letra com juras de amor infinito.

O primeiro single do disco, Tyrant, conta com a participação de Jorja Smith, uma das representantes da nova vaga de RnB. A história de Jorja é mais recente mas nem por isso menos relevante. Drake descobiu a londrina no SoundCloud e convidou-a para participar numa das músicas mais sonantes de More Life.

Tyrant não foi escolhida ao acaso para ser o primeiro single de Isolation. Com Sounwave, produtor associado à TDE e que tem trabalhado com Kendrick Lamar, a cargo da produção, a canção parece um hino perfeito para o verão de 2018. É dançável, solarenga e faz jus à candura do disco.

Em Dead to Me, Uchis afirma-se na pop, conseguindo que o maior dos insultos soe fofinho. Nunca a frase “you’re dead to me” foi tão dançável. In My Dreams também bebe do synth pop e tem a marca de Damon Albarn, que também canta na faixa. Produzida pelos Gorillaz esta é, inegavelmente, uma das canções mais orelhudas do disco.

Outra das assinaturas óbvias do álbum é a de Kevin Parker dos Tame Impala que produziu Tomorrow. Por momentos conseguimos visualizar Uchis a substituir o australiano nos arranjos vocais da banda de psych rock. Sentimos mais uma vez que a colombiana sabe como movimentar-se em diferentes estilos sem nunca perder a essência que a distingue.

O segundo single do disco, Nuestro Planeta, é mais uma prova da versatilidade de Uchis e um regresso às suas raízes. A faixa, totalmente cantada em espanhol, é uma afirmação sólida da identidade musical da artista que mostra mais maturidade em relação aos seus trabalhos anteriores, definitivamente mais sonhadores e angelicais.

After de Storm, revelada em janeiro passado, e terceiro single de Isolation, conta com a colaboração de Tyler, The Creator e Bootsy Collins. O membro dos Odd Future empresta alguns versos à faixa que transpira funk. Mesmo com Tyler, Collins, BADBADNOTGOOD a cargo da produção, ou a repetição de um aviso de Kendrick Lamar em Wesley’s Theory (“look both ways before you cross my mind”), Uchis nunca é deixada para segundo plano, assumindo mais uma vez o papel principal no disco.

Em Isolation, Kali Uchis soube rodear-se de talento, o que em muito contribuiu para a consistência do seu álbum de estreia. Mas, não retirando o mérito a todos aqueles que emprestaram o seu talento ao disco, consegue nunca ser ofuscada. Em todas as canções – sem exceção – de Isolation, Uchis impõe a sua personalidade. Conseguiu tornar consistente um disco com sonoridades tão distintas, sobressai em cada uma delas e fá-lo parecer natural.