A 3 de maio, Daniel Oliveira dá mais um passo na transição para o digital. Lança um podcast, chamado Perguntar Não Ofende, onde todas as semanas, à quinta-feira, vai conversar com outras pessoas sobre política… “ou coisas mais interessantes“. 

Para quem possa estar baralhado, uma primeira certeza: “Isto não são entrevistas“. Até porque, “para ser entrevistador há técnicas específicas“, que o anfitrião destas conversas não sabe se domina, por toda a vida ter sido “mais um repórter do que um entrevistador“.

Um diálogo “de confirmação e aprofundamento“, que na opinião do anfitrião do podcast, “é o que interessa“. “Nós vivemos num tempo em que parece que a única coisa que queremos é que o que sabemos hoje seja exatamente o contrário do que o que soubemos ontem, e eu gostava que este espaço também tivesse a função de ficarmos a saber mais hoje do que sabíamos ontem“.

Estes diálogos vão poder ser ouvidos a partir de 3 de maio e, para já, até à rentrée. Com uma pausa em agosto. O programa vai estar disponível no Mixcloud e em todas as plataformas de podcast.

Os fãs que decidam tornar-se patronos e apoiar o programa através da plataforma Patreon vão ter recompensas, como “poder ouvir as entrevistas com uma semana de antecedência” ou ter detalhes de bastidores “em tempo real“.

Tento convidar pessoas que não são aldrabonas

Daniel Oliveira admite ter alguma curiosidade para saber como as pessoas vão reagir a este novo formato de conversa, porque considera que “uma coisa que é difícil perceber-se em Portugal é que é possível haver contraditório sem haver hostilidade“.

O meu objetivo não é entalar as pessoas. O meu objetivo não é vencer, porque isto não é um debate, o meu objetivo é mesmo perder. O meu objetivo é que o diálogo não seja um mero discurso preparado da outra pessoa e, portanto, obrigue a argumentar um pouco mais o seu ponto de vista. O meu objetivo principal não é expor ninguém, não é exibir as fragilidades de ninguém. Pelo contrário, é exibir o melhor da argumentação que a outra pessoa tem“.

Promete fazer “perguntas provocatórias“… por vezes disfarçado de “advogado do diabo“. Não para apanhar ninguém surpreendido, mas para fazer os convidados saírem “da cassete que já têm preparada“.

O jornalista fala em perseguir aquele que aponta como “um objetivo pouco comum” quando se fala com um político. Ou seja, em vez de “mostrar aquilo em que o político nos está a mentir, mostrar aquilo que o político nos quer mesmo dizer, e pensa mesmo“.

O meu objetivo não é o objetivo demagógico de demonstrar que estamos rodeados de aldrabões que não têm nada na cabeça, e por isso mesmo é que tento convidar pessoas que eu acho que não são aldrabonas e têm alguma coisa na cabeça.  Mesmo que sejam pessoas de quem discordo profundamente, em muitos casos“, sublinha.

Por isso, admite, que quando “a conversa for realmente má“, isso talvez queira dizer “que aquele político não tinha nada para nos dizer, mesmo que tenha muito talento oratório“.

Na internet “fica para sempre

Estas são conversas que Daniel Oliveira quer que possam sobreviver “pelo menos três ou quatro meses“. Não “por desprezar as coisas quotidianas“, mas por querer “ter conversas que se distingam das que costumamos ver na comunicação social”.

Até porque o que está na internetfica para sempre“. “Ao contrário do papel, que nós dizíamos que amanhã já estava a enrolar castanhas, o digital não. O digital amanhã não está a enrolar castanhas, está lá sempre“.

Quero ter as conversas que não sejam sobre a espuma dos dias. Não quer dizer que sejam sobre a essência da vida e da existência… mas é isto, mais do que uma entrevista e menos do que um debate, mais do que a circunstância e menos do que um ensaio“.

Basta que me interesse a mim

A três semanas do lançamento de Perguntar Não Ofende, Daniel Oliveira admite ter curiosidade sobre a reação do público ao projeto. Quer saber “se é possível desenvolver projetos independentes de forma minimamente sustentável“.

Põe a exigência no “minimamente sustentável“, porque sabe que o “mesmo sustentável” pode não ser para já. Além disso, acrescenta, este “é um passo novo” e não sabe “como as pessoas vão aderir a uma coisa deste género, se vão compreender o registo destas conversas“.

Sublinhando que os podcasts vão estar sempre acessíveis de forma gratuita e pública, destaca no entanto a importância do apoio dos ouvintes. “É um apoio que as pessoas podem dar, para garantir que a produção disto é feita e existe. As pessoas que achem que isto deve existir enquanto projeto independente. Para não nos queixarmos de todos os projetos que existem e que não são independentes, temos de ajudar os que existem“.

A independência, de acordo com o autor, permite “não ter de perguntar a ninguém se um convidado interessa, se um tema interessa. Basta que me interesse a mim“. O que permitiu, “definir o modelo e, com a ajuda da tecnologia, fazer uma coisa completamente independente“.

Isto é uma coisa exclusivamente pensada por mim, com os critérios que eu quero ter e com os convidados que me apetece ter, sem outra limitação que não seja as pessoas dizerem que não querem falar comigo“. Para já, “não houve tampas“.

Daniel Oliveira está novamente “a tentar matar saudades do jornalismo“. A regressar àquilo que gosta mais de fazer. As conversas, com cerca de uma hora de duração, são gravadas ‘live on tape‘. Ou seja, sem edição, sem cortes, sem pausas. Como se fosse um direto. Por enquanto, os convidados permanecem em mistério. Para sabermos quando lhe apetecer.

 

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