No dia em que lançaram o quinto álbum da carreira, os X-Wife falaram com o Espalha-Factos. Na entrevista, falou-se sobre o novo álbum, X-Wife, o que mudou em 15 anos de atividade e o que esperar num futuro próximo.

Depois uma ausência de sete anos, a banda portuense está de regresso aos discos. O grupo de João Vieira, Rui Maia e Fernando Sousa esteve “adormecido”, mas isso não significa que os músicos estiveram parados.

Para além da criação de projetos parelelos como White Haus ou Mirror People, o período de interregno foi crucial para assentar ideias para os X-Wife. “Esta pausa foi importante para deixar a banda respirar numa certa medida. Fizemo-lo de forma planificada”, garante o vocalista João Vieira.

Desde a edição de Feeding the Machine, em 2004, o processo de composição foi modificando-se. Os ensaios já não são os principais locais para desenvolver novas ideias para músicas. Já não há Myspace, mas existem outras plataformas de divulgação, como o Spotify ou o Youtube.

Um “golpe de sorte” chamado FIFA

O álbum homónimo, que acaba de ser editado, demorou quatro anos para ser concebido, mas houve um “aperitivo” disponbilizado em 2015. “[O tema] Movin Up é a música mais importante da nossa carreira. É a canção mais ouvida no nosso canal de Spotify e é talvez a que tem mais destaque mesmo por ‘não-fãs’ do nosso trabalho”, admite João Vieira.

Para além do airplay que a música teve, outro fator decisivo que levou à populariedade deve-se à inclusão da música na banda sonora do video-jogo Fifa 16. Para além dos portugueses, foram includos nomes como Beck, Foals ou Unknown Mortal Orchestra.

“Foi um processo longo de composição [da Movin Up] mas, na altura, sentimos o potencial. Quando a canção foi disponibilizada na Internet e começou a ter airplay, fomos contactados pelos responsáveis da seleção da banda sonora do videojogo de Espanha e a nossa manager informou-nos dessa possibilidade”, conta Rui Maia.

“São oportunidades de uma vida. É um orgulho e, ao mesmo tempo, espetacular fazer parte de uma lista que inclui Beck mas também reconhecemos que a canção é boa. Pelo menos é o que eu acho”, acrescenta João Vieira.

Os X-Wife, para além dos Buraka Som Sistema, são as únicas bandas portuguesas a constar na banda sonora do famoso videojogo. Rui Maia confessa que não tem interesse em consolas, mas já o vocalista admite que tem um exemplar do jogo por casa mas não tem tempo para dispender neste tipo de atividades. “Desde que o meu filho nasceu, deixei de jogar”, afirma esboçando um sorriso.

“Ter um bom disco é meio caminho andado”

Quando questionados se o disco homónimo representa um revival dos X-Wife, os elementos do grupo portuense são claros.“Nós somos as mesmas pessoas que tocam juntas, mas o que mudou foi o nosso processo de composição. [O disco] representa um fim de um ciclo no que diz respeito à forma de compor, de estar e estilo de vida”, afirma o vocalista.

“Tivemos um maior cuidado na produção deste trabalho. Não é que não tivéssemos no passado, mas 15 anos depois, podemos dizer que adquirimos mais experiência e uma maior vontade de tentar algo novo. Antes, os temas surgiam nos ensaios e agora cada um tem o seu ‘cantinho’ e desenvolvemos ideias sem ser necessário estarmos todos na mesma sala”, complementa Rui Maia.

Um dos pontos que diferenciam este novo disco dos restantes consiste na inclusão de músicos de sessão. “Temos o Fred Ferreira [Orelha Negra] na bateria em algumas faixas e o João Cabrita [The Legendary Tigerman e Cais Sodré Funk Connection] na secção de sopros também. Foram elementos importantes para dar um som diferente a este trabalho. Antes simulávamos sons vindos de sintetizadores”, explica João Vieira

Sobre o panorama atual do mercado musical, o vocalista dos X-Wife refere que ter um “bom disco” é apenas “meio caminho andado”. O mesmo sublinha que “o principal desafio das bandas consiste em manter a lealdade dos fãs (…) Não fazemos música para vender, mas sim da qual nos orgulhamos. Se tivermos pessoas que gostam de nós, isso é cereja no topo do bolo”, salienta.

Quem são os X-Wife em 2018?

“Somos os mesmos gajos que continuam a fazer a arte pela arte”, profere Rui Maia. Fazendo uso da expressão da editora DFA, João Vieira assume-se como “too old to be new too new to be classic” [velho demais para ser novo demasiado novo para ser clássico]. “Temos noção que não somos novos, mas provámos a nossa consistência através da edição regular de álbuns e com concertos ao vivo. Houve quem achasse que nós éramos uma banda da ‘modinha’ mas com o tempo conseguimos contrariar essa ideia”, esclarece o vocalista.

A apresentação ao vivo do novo álbum de estúdio vai ser este mês. Primeiro no Estúdio Time Out, em Lisboa, no dia 21 de abril. Depois, os X-Wife tocam no Hard Club, no dia 28.

“Será um concerto com muitos convidados em palco e sobretudo, com muitos instrumentos diferentes. Por isso estamos com muita expectativa destes espetáculos“, revela Rui Maia.

Confrontados se o regresso deste projeto é definitivo, os X-Wife são claros sobre este assunto: “Enquanto fizer sentido, tudo bem, mas a partir de um momento que alguém não se sinta confortável ou que esteja noutro estado de espírito, damos um tempo. Nós não queremos fazer discos forçados”, conclui João Vieira.