Março chega ao fim e com ele, encerramos o mês da poesia no Espalha-Factos.

Escrevemos sobre poetas, sobre poesia, sobre poemas. Nesta segunda rubrica, os redatores escolhem os seus poemas preferidos e escrevem sobre eles.

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Fechamos com chave de ouro, com um poema musicado do cantautor Sérgio Godinho. 

O Primeiro Dia

A principio é simples, anda-se sozinho
Passa-se nas ruas bem devagarinho
Está-se bem no silêncio e no burburinho
Bebe-se as certezas num copo de vinho
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

[…]

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
Olha-se para dentro e já pouco sobeja
Pede-se o descanso, por curto que seja
Apagam-se dúvidas num mar de cerveja
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
Enfrenta-se a vida de fio a pavio
Navega-se sem mar, sem vela ou navio
Bebe-se a coragem até dum copo vazio
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
E outra maré cheia virá da maré vaza
Nasce um novo dia e no braço outra asa
Brinda-se aos amores com o vinho da casa
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Sérgio Godinho

Sérgio de Barros Godinho é um poeta, compositor, cantor, realizador, ator… um verdadeiro homem dos sete instrumentos, sendo ele próprio o exemplo perfeito da sua música “O Homem dos Sete Instrumentos”. Contando já com 72 anos, Sérgio Godinho continua em permanente atividade, tendo inclusivamente lançado no início do presente ano um novo álbum intitulado “Nação Valente”.

Sérgio Godinho, Super Bock Super Rock

Sérgio Godinho escreveu O Primeiro Dia como letra para uma música, que lançou em 1978 e que rapidamente se tornou um sucesso a par de Com um Brilhozinho nos Olhos ou É terça-feira.

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Desde muito novo que tenho um carinho especial pela música em geral, ouvindo um pouco de tudo. Talvez por influência da minha mãe, comecei a ouvir nomes tais como Fausto (Bordalo Dias), Zeca Afonso, Vitorino, e, obviamente, Sérgio Godinho.

Bastou a primeira vez para imediatamente ficar apaixonado por esta música e por este lindíssimo poema.

Este é um daqueles poemas que nos seus versos consegue retratar vidas inteiras. Lendo-se (e ouvindo-se atentamente), o poema faz todo o sentido, quer se esteja na flor da idade dos 18 anos, na maturidade dos 45 ou na sapiência dos 70.

Consistindo numa orientação de vida, o poema relembra-nos substancialmente, que devemos viver a nossa vida, todos os dias, tal como se cada um fosse o primeiro.

Esta ode manterá perpetuamente toda a sua magia, tal como n’O Primeiro Dia.

Rafael Ascensão

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