A viagem arranca na máquina do tempo do Espalha-Factos e termina em São Paulo, no Brasil, em plena década de 60. Voando para lá do Atlântico, aterramos naquela que era, na altura, apelidada a ‘Nova Iorque canarinha’. Uma cidade cosmopolita, repleta de movimento, de cor, de vida.

Os miúdos jogam à bola nas ruas, tentando imitar os ídolos dos grandes relvados como Garrincha ou o Leônidas da Silva. Descalços e cheios de sonhos para o futuro. As estradas estão congestionadas e as Volkswagen Pão de Forma fazem fila nos acessos ao areal. Ellis Regina torna-se num ícone da pop e as suas músicas ouvem-se nos rádios por toda a cidade.

Nos gigantescos edifícios, que deixavam qualquer visitante de boca aberta, grandes empresários chegados dos quatro cantos do mundo negociavam o futuro, carregando consigo influências estrangeiras.

O cenário colorido de São Paulo contrastava com a repressão, a violência e a censura que se sentia por todo o território brasileiro. Numa década que marcou o início de uma ditadura militar que só se viu derrubada em 1985, as manifestações multiplicavam-se e a contra-cultura crescia. Ecos revolucionários que deram origem à Tropicália ou Movimento Tropicalista.

Tropicália: A manifestação vanguardista que queria mudar o país com arte

Surgindo sob a influência das correntes artísticas vanguardistas e da cultura pop (nacional e internacional), o movimento fundia a tradição com a inovação. A identidade cultural mantinha-se, mas era acrescentada uma frescura e irreverência fruto da influência da corrente hippie, que nascia nos Estados Unidos pela mesma altura.

As inovações estéticas com características radicais manifestavam-se em todas as vertentes artísticas, com especial foco na música. Porém, áreas como o Cinema, o Teatro e a Poesia também tiveram a sua relevância. Por detrás da arte estavam gritos contra o regime. Gritos esses que pretendiam mudar comportamentos e mentalidades.

Os maiores representantes do movimento na música foram Caetano Veloso, Tom Zé, Gilberto Gil, Gal Costa e Os Mutantes. A banda que é principal motivo desta viagem no tempo.

Os Mutantes, do psicadélico à irreverência

Arnaldo Batista, Sérgio Dias e Rita Lee formavam, em 1966, uma banda que dava pelo nome de Os Mutantes. O nome foi dado pelos irmãos (Arnaldo e Sérgio) após terem lido O Império dos Mutantes, livro de Stefan Wul, um livro de 1963 que centrava a narrativa em viagens por planetas paraísos de sistemas longínquos.

Em outubro de 1966, o grupo estreou-se no programa da TV Record O Pequeno Mundo de Ronnie Von. O impacto foi tão positivo e bem recebido pelo público que rapidamente se tornaram elementos fixos do programa televisivo.

Principais personagens do movimento tropicalista, Os Mutantes são a primeira aparição da corrente psicadélica no Brasil. O seu registo musical é nitidamente influenciado por bandas como os Beatles e os Beach Boys. É um registo próprio, pois eles, para além de beberem influências daquilo que se andava a fazer em Inglaterra e nos Estados Unidos, mergulhavam na sua própria cultura local, mostrando a sua veia irreverente e revolucionária.

Em 1968, o trio assinou contrato com a Polydor e conseguiu lançar o seu primeiro disco, o homónimo ‘Os Mutantes’. O álbum celebra no presente ano meio século de existência.

Os Mutantes, 50 anos de um clássico intemporal

O ano de 2018 marca a celebração das bodas de ouro de um dos discos mais importantes da história da música. O homónimo contou com a produção de Rogério Duprat, um dos maestros mais conhecidos da época e uma das figuras da Tropicália.

O álbum tem também a participação de Caetano Veloso, Gilberto Gil, John Phillips e Humberto Teixeira. Estes músicos foram responsáveis pela composição lírica de alguns dos temas que fazem parte do legado da banda.

Ao longo das 11 faixas que formam o disco, são vários os elementos que formam os traços da identidade dos Mutantes. Pode ser encontrado no seu todo experimentalismo, constantes mudanças de estilo, distorções nas guitarras, ruídos e vários objetos não convencionais que simulam sons de instrumentos.

A faixa número oito, Le Premier Bonheur du Jour, um tema cantado em francês na voz de Rita Lee, é um bom exemplo. É usada uma bomba de matar insetos para simular o som de um instrumento de sopro. Uma sonoridade que dá um toque feminino e sensual único ao tema.

A veia experimental está de mãos dadas com o carácter de protesto. São várias as metáforas usadas para atacar o regime de maneira camuflada. Panis Et Circenses, faixa de entrada do disco, tem uma das mensagens mais fortes do primeiro trabalho do grupo.

Eu quis cantar
Minha canção iluminada de sol
Soltei os panos sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e os leões nos quintais
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer

Ainda hoje a expressão ‘pessoas na sala de jantar’ é usada pela comunidade brasileira para nomear a elite preocupada com o status que nada faz para mudar o mundo.

O amor, a introspecção e as viagens por mundos desconhecidos também estão bem presentes nas letras. Conseguem ser cruas e irreverentes bem como animadas com uma sonoridade muito influenciada pelo samba. Ela é minha menina, faixa número dois do disco, é espelho disso mesmo. Uma letra bonita por cima de um ritmo dançável.

Os Mutantes, de 1968, afirmou a banda paulista na cena internacional e foi apenas a porta de entrada para uma carreira que deixou um legado singular. O sucesso comercial não foi o melhor, tendo vendido apenas 10 000 cópias. Felizmente, o tempo trouxe o reconhecimento devido. A melhor homenagem é ouvir:

  1. Panis Et Circensis
  2. A Minha Menina
  3. O Relógio
  4. Adeus Maria Fulô
  5. Baby
  6. Senhor F
  7. Bat Macumba
  8. Le Premier Bonheur Du Jour
  9. Trem Fantasma
  10. Tempo No Tempo
  11. Ave Gengis Khan