Até dia 29 de abril, O Deus da Carnificina estará no palco do Teatro da Trindade. Numa versão de João Lourenço e de Vera Sampayo de Lemos do texto de Yasmina Reza, esta peça foi encenada pelo próprio Diogo Infante, atual diretor artístico do teatro.

Com a cortina já subida, o cenário, mal se atravessa as portas, é composto por caixas de cartão, que formam estantes de uma sala de estar. De algumas das caixas, saem, através de orifícios, luzes ora azuis ora vermelhas. À frente desta estrutura estão sofás e uma mesa com livros.

Quando as luzes do público se apagam, para começar o espetáculo, as luzes que vêm das caixas apagam-se, surge uma música forte e intensa e mal surge a iluminação de palco, em cena encontram-se já os quatro atores, Diogo InfanteJorge MouratoPatrícia Tavares e Rita Salema.

Dois casais, adultos, aparentemente cultos, civilizados e de uma classe social elevada, confrontam-se para resolver um incidente protagonizado pelos seus filhos menores, de 11 anos. Os pais do agressor vão a casa do menino que foi magoado. O que se segue desse sinuoso encontro entre as quatro pessoas, na verdade, fornece uma radiografia detalhada do estado moral da nossa sociedade.

Baile de máscaras

Estas personagens são um retrato da sociedade. Uns claramente mais cultos que outros, uns mais simples que outros – esta é a sociedade. Aquela que se reúne para resolver problemas, porque se sente ofendida e injustiçada.

Quando somos confrontados com uma situação que não controlamos, nós que vivemos numa sociedade onde controlamos tudo – ou assim o julgamos -, algo em nós fervilha e dá de si. E vem das nossas vísceras, das nossas profundezas. Para não falar que tudo isto em O Deus da Carnificina surge por causa de crianças e nada é mais precioso aos pais que os seus filhos. E nada exalta mais os pais que ver os seus filhos serem vítimas nalguma situação.

E ao longo de mais de uma hora de espetáculo, o que é mais sedutor é a metamorfose que se dá nas quatro personagens. Aquilo que parece, a princípio, bastante polido, termina num apocalipse.

Do baile à nossa natureza primorial

Os fatos para o baile, os penteados, tudo está pronto e esticado no início do encontro. Alberto (Diogo Infante) é advogado de uma multinacional farmacêutica, acusada de vender medicamentos para cardíacos que produzem efeitos colaterais. A sua esposa, Bernardete (Rita Salema), é uma mulher com ambições socias e com uma curta tolerância ao álcool. Verónica (Patrícia Tavares) é uma dona de casa, vagamente interessada em arte africana e o seu marido, Miguel (Jorge Mourato) é um vendedor de eletrodomésticos.

Neste baile, vão-se deixando cair muitas máscaras, que numa sociedade se formam devido à pressão sob a qual todos vivemos.

De tão esticado que tudo estava, vão-se soltando cabelos, palavras e olhares raivosos. O ar com que os convidados chegaram vai-se alterando e até negando. Num abrir e fechar de olhos, o público sente-se a rir dele mesmo, de algo que está dentro de nós todos, algo de que procuramos fugir. Do politicamente correto, a peça chega às pessoas – não só às que compõem o público, mas também às pessoas que cada um traz dentro de si mesmo, aquelas que controla por têm coisas que nem sempre queremos que se revelem.

Porque, afinal, de que é capaz um pai para defender o seu filho?

Rir de nós próprios, os frágeis

De tão desconfortável que se torna, o tema desta peça é a hipocrisia, ou talvez a dupla moral, de como perspetivas éticas se mostram flexíveis para defenderem certos interesses.

A forma como tudo isto se torna desconfortável para os espetadores é a mais engenhosa: é que esta dimensão ética e politica é colocada no texto de uma forma cómica. O Deus da Carnificina  é uma comédia, mesmo que os risos que se soltam sejam nervosos ou reflexo de uma dor que sempre sentimos, deparando-nos com a nossa condição frágil. Assim, este é um espetáculo que nos escancara os olhos e nos desnuda a realidade.

Deus da carnificina

Foto: Matilde Alcada / Teatro da Trindade

O Deus da Carnificina

Le Dieu du Carnage é uma peça de Yasmina Reza (1959), atriz, dramaturga e escritora francesa.

Traduzida para inglês, a peça já foi várias vezes produzida em Londres e em Nova Iorque. Roman Polanski (1933) dirigiu a adaptação cinematográfica de 2011, à qual deu o nome de Carnage . O filme foi filmado em Paris, devido à condenação criminal de Polanski nos Estados Unidos , mas o cenário é o de Brooklyn. Os protagonistas são Jodie FosterJohn C. ReillyChristoph Waltz e Kate Winslet.

Deus da carnificina

Foto: divulgação

Quando ver

O Deus da Carnificina está em cena desde 1 de março, no Teatro da Trindade, mas ainda pode ser vista até dia 29 de abril. As sessões são de quarta a sábado às 21h30, e ao domingo são às 18h00. O preço dos bilhetes varia entre 12 e 72 euros.

Mais informações aqui.

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