Esta quinta-feira à noite (29), foi dia de mais um concerto no Campo Pequeno. A noite fria foi aquecida pela voz inigualável de Benjamin Clementine, que veio apresentar I Tell A Fly (2017). O britânico subiu ao palco perto das 22 horas para iniciar um espetáculo que se prolongou quase até à meia-noite.

Entre representações teatrais, uma música no meio do público, aulas de canto e uma homenagem às vítimas do ataque de Orlando, nos EUA, em 2017, o pianista deu voz aos mais estranhos, verdadeiros, desiguais, sendo ele próprio tudo isso. E, foi dessa forma, que arrebatou os nossos corações.

Benjamin Clementine é o Deus que nos tenta salvar da selva

Às 21 horas e 30 minutos, hora prevista de início do concerto, a plateia ainda se estava a compor. Os melhores lugares da bancada estavam ocupados e na frontline já se gritava e aplaudia ritmicamente, suplicando a chegada da figura da noite. Cerca de vinte minutos depois, as luzes começaram a perder a intensidade, dando lugar aos gritos e assobios da audiência que esperava Benjamin Clementine.

Eis que ele entra no palco, na sua humildade e sobriedade, com um xaile que lhe cobria a estrutura. Sem ainda uma palavra dita, as palmas, os uivos e as declarações de amor do público português, fazem-no ajoelhar-se no palco. É com uma vénia ao Campo Pequeno que o londrino começa a sessão.

Senta-se ao piano, enquanto a sua banda de apoio vagueia pelo palco, encontrando-se com os diversos manequins dispostos nele. Mulheres grávidas, crianças, homens todos eles na sua forma mais natural, nus. Farewell Sonata e God Save The Jungle abriram a apresentação do músico. Ambas pertencentes a I Tell A Fly, porém é a segunda que mais se destaca. É uma canção sombria e ao vivo ganhou toda uma dimensão teatral, que contribuiu para o acentuar do seu lado crítico. “É mesmo muito difícil sair dela [a selva]”, disse Benjamin no final deste tema.

O alien cantou e encantou

De seguida, vem o primeiro single deste novo disco, Phantom of Aleppoville e, depois, One Awkward Fish, que gera um dos momentos mais intensos da noite. Benjamin carregou uma das crianças manequins durante a música que remete para o  bullying, que ele próprio sofreu quando era novo. Nela fala-se de um “jovem turco” que era diferente dos outros, mas quem é que se lembra dele?

No fundo, quem se lembra daqueles que são diferentes da massa? Clementine interpela o público português e apresenta a sua irrevogável capacidade vocal, fazendo falsettos com maior tranquilidade do que aqueles que, simplesmente, assistem ao seu concerto. “Uau, isto foi estranho”, exclama quando termina Awkward Fish, “mas não há nada de mal em ser estranho, é bom ser diferente, é bom sermos nós próprios”, acrescenta.

Do novo álbum, o cantor passou ainda pela famosa Jupiter – com uma pequena adaptação para deixar o nosso coração mais derretido. Também por Quintessence, Ave Dreamer e, a agora inesquecível, By The Ports Of Europe, que deu lugar a um dos momentos mais épicos do serão. A inesgotável energia de Benjamin e dos seus três músicos de apoio fez-nos entoar inúmeras vezes o segmento “Porto Bello”.

Do palco às bancadas, das bancadas à plateia que o conduziu de novo ao palco para o grande final desta música. Ficou aqui demonstrada a forma peculiar como Benjamin Clementine se liga à sua audiência, o jeito espontâneo e invulgar com que toca cada um dos presentes.

Orquestra presente para os temas do primogénito

É evidente, que nesta apresentação não faltaram alguns dos sucessos do primeiro álbum de Clementine. De At Least For Now (2014) estiveram presentes na setlist I Wont’t Complain, Winston’s Churchill Boy e London, acompanhados por uma pequena, mas triunfante orquestra de cordas.

Os sucessos Nemesis e Condolence foram dois grandes destaques da noite. Foram episódios de pura harmonia e partilha entre o público e o cantor. Letras na ponta da língua, com alguns arranjos mestrados pelo professor Benjamin em Condolence, à semelhança do que se passou em Coura, no ano passado.

A despedida foi feita com Adios. Era assim que estava programado o fim do encore, o fim da noite. Porém, as coisas tomaram outro rumo e, depois de duas ovações em pé dos presentes na arena do Campo Pequeno, o rei da noite deu licença para uma última música.

 A homenagem às vítimas do ataque de Orlando

Para encerrar um concerto que se aproxima das duas horas de duração, o cantor fez uma investida na guitarra elétrica. “Quando tocamos apenas um instrumento durante o concerto, é normal ficarmos cansados dele”, graceja quando o público se prepara para a despedida. Foi aí que anunciou uma última canção, em homenagem às vítimas do atentado a uma discoteca gay em Orlando, no ano passado.

Inesperado, desconhecido, diferente e agressivo foi assim que soou o adeus definitivo de Benjamin Clementine ao público em Lisboa. Depois de três noites em solos portugueses, despediu-se e agradeceu em português, saindo pela lateral do palco com a bandeira das quinas às costas.

Mais do que um “adeus”, é um “até já”, porque sabemos que vai estar de volta no verão para o festival Super Bock Super Rock. É mais uma oportunidade de assistir ao vivo àquilo que é o clímax da relação artista-público. É uma comunhão de sentimentos, porque com a sua voz e o seu gesto ele transmite-nos aquilo que é a essência do seu ser e faz-nos sentir aquilo que sente. Ver Benjamin Clementine ao vivo, para além de uma experiência auditiva e visível, é emocional.