Do cineasta Steven Spielberg chega-nos Ready Player One – Jogador 1, baseado no bestseller de Ernest Cline com o mesmo nome.

O filme desenrola-se em 2045, onde encontramos a cidade de Columbus rodeada por escassez de recursos e subdesenvolvimento. Wade Watts (Tye Sheridan) encontra como fuga à realidade o “OASIS”, um imenso mundo virtual que lhe possibilita ir a qualquer lado, fazer qualquer coisa, e ser quem quiser – os limites são a sua própria imaginação.

Quando James Halliday (Mark  Rylance), o brilhante criador do “OASIS” morre, deixa uma imensa fortuna e total controlo da sua empresa à primeira pessoa que encontrar três chaves mágicas, escondidas em diversos recantos do mundo virtual.

Steven Spielberg reúne uma vez mais a equipa criativa de Ponte dos Espiões (2015), preenchendo os bastidores com vencedores de Oscars, e antigos colaboradores. Toda a música original, composta por Alan Silvestri (Forrest Gump (1994)), marca o compasso estilístico “spielbergiano“, acrescentando o romancismo sonoro – característico do cinema do realizador.

Fonte: NOS Audiovisuais

O Gigante Visual de Spielberg

Tye Sheridan e Olivia Cooke lideram o elenco de forma pontual, em papéis que lhes exigem pouco suor. Ben Mendelsohn (Rogue One: Uma História de Star Wars) interpreta o vilão, representando o corporativismo exacerbado, que não mede esforços para esmagar as fantasias juvenis. A sua interpretação é competente, num papel tipicamente frio e burocrático de um antagonista a quem apenas interessa o lucro.

A distópica tecnocracia que Spielberg nos apresenta é um gigante visual, polido do início até ao fim. A história tenta a proeza de concretizar fisicamente um mundo sem fronteiras. Os momentos de ação têm uma montagem plana, fugindo à armadilha do desnorteamento no movimento de que os blockbusters são recorrentemente vítimas.  O mundo online por onde Wade circula é um imenso trabalho de CGI e transplantações de personagens em 3D. O mundo real rege-se por uma estrutura semelhante. As fronteiras são ténues e a realidade parece sempre mais irreal que os gráficos do OASIS.

O próprio ritmo de Ready Player One replica aquele de um videojogo. Cortam-se, no entanto, as partes “aborrecidas” (de desenvolvimento de personagens ou de adensamento do guião). Preenchem-se então todos os momentos de intervalo, entre cenas de ação, com uma degustação de ideias mais ou menos pré-feitas, prontas a aparecer quando necessário. Há tempo ainda tempo para o caso romântico – esse sim atualizado ao tempos de hoje, Spielberg introduz o catfishing.

Fonte: NOS Audiovisuais

A referência à cultura pop e aos videojogos

O mote que alimenta o filme é, no entanto a referência à cultura pop e dos videojogos. A nostalgia do topo das tabelas das rádios dos anos 80 é uma constante.

A ideia não é particularmente nova, Guardiões da Galáxia já visitou esta ideia (nos seus dois volumes). Duran Duran, Talking Heads e Wham! juntam-se ao T-Rex de Jurassic Park, Super Mario e a King Kong, num espectro semi-kitsch. Aqui são chamadas “à baila” personagens fortes do imaginário do entretenimento mundial, incorrendo numa lógica semiótica de “referência de uma referência”.

Ready Player One certifica-se até de explicar à audiência o que se está a passar. As personagens descaem-se com a palavra “pop” uma mão cheia de vezes, apontando para o seu próprio estilo.

O rol de vicissitudes nostálgicas desembocam no tema principal da película: a memória. James Halliday surge dentro do OASIS como uma inteligência artificial que estende post mortem a vida do criativo. O banco de memórias de Halliday é onde Spielberg torna o passado maleável. O culminar da fetichização da memória é, no fim de contas, a possibilidade de entrar fisicamente numa memória.

O expoente máximo desta ideia é o episódio de Shining. Na segunda fase do jogo, as personagens são atiradas para o mundo do filme de Stanley Kubrick. O tenebroso hotel é o cenário de um dos níveis do jogo. A sequência é certamente o ponto alto do filme, a partir daqui nada consegue ultrapassar este referencial máximo – ou mesmo a sua destreza criativa.

Fonte: NOS Audiovisuais

O passado purificado e o futuro inócuo

O filme de Spielberg diz na verdade mais sobre o passado do que diz sobre o futuro. A ideia seria resgatar um passado “purificado”, de dizer “lembras-te disto? dantes é que era bom”. A película, certamente repleta de bons intenções, tenta agitar o pó de relíquias históricas, mas sem lhe acrescentar nada em concreto. O futuro onde a película decorre é um pretexto para este exercício, mas Wade e a sua equipa acrescentam pouco à óbvia crítica, subjacente ao enredo passado fora do OASIS. Esta tecnocracia é uma tecnocracia fácil, que se “resolve” numa simples lição de moral.

Se Ready Player One fosse um carro seria ultra moderno, revestido de todas e mais alguma camada de tecnologia, repleto de bugigangas. No cinema dir-se-ia que é “cinema de última geração, de tecnologia de ponta“. Portanto, o que significa então tudo isto? Na prática, pouco. Torna-se um excesso, de que Spielberg raramente pode ser acusado. A sua máquina é, desta vez, grande demais para se manusear plenamente.

Os efeitos visuais são certamente arrebatadores, a execução inteligente, mas a película assenta numa lógica que se gasta rapidamente. O cinema do realizador de Forrest Gump, habituado a contar grandes histórias (ou pelo menos fazê-las grandes), não encontra aqui excepção. Mas perante qualquer percalço a receita é sempre a mesma, toca-se Duran Duran e joga-se Adventure – vezes e vezes sem conta.

6/10

Título: Ready Player One – Jogador 1
Realização: Steven Spielberg
Argumento: Ernest Cline e Zak Penn
Elenco: Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn, T.J Miller e Mark Rylance
Género: Acção, Aventura e Ficção Científica
Duração: 140 minutos