Nenhum álbum lançado no ano passado (ou nos últimos anos, aliás) teve em mim mais impacto que A Crow Looked at Me, assinado por Mount Eerie, projeto musical do norte-americano Phil Elverum. O trabalho é um peso pesado no que toca à arte sobre a morte. Retrata, de forma detalhada, o sofrimento de Elverum após a perda da sua mulher, Geneviève Castrée, para um cancro do pâncreas.

Não conhecia Mount Eerie nem nenhum dos projetos musicais do compositor até ao momento em que me sentei a ouvir esse álbum. Devo sublinhar que fiquei, acima de tudo, assombrado com a abordagem de Elverum à tragédia. É um trabalho onde a tristeza é o sentimento abundante. Nunca tinha escutado nada do género.

A 16 de março surge Now Only. Quase um ano depois de A Crow Looked At Me, Phil Elverum continua a escrever sobre Geneviève. Contudo, desta vez, com um tom de esperança e com uma atitude de quem segue em frente.

Phil Elverum (fotografado por Jeff Miller)

“I sing to you, Geneviève. You don’t exist. I sing to you though” (Tintin in Tibet)

Now Only começa onde A Crow Looked at Me acaba, na medida em que Elverum começa a olhar para além da morte da sua mulher. Em A Crow Looked at Me, Elverum chora de cabeça baixa. Em Now Only, limpa as lágrimas e olha em frente.

A primeira música do álbum chama-se Tintin in Tibet e relata o início da relação do casal. Elverum dá o pontapé de saída, deixando claro que canta para Geneviève, mesmo que ela “não exista”. Pelo caminho, desenha a traço firme algumas das aventuras que viveram juntos. Diz a Pitchfork que “a música de Mount Eerie parece uma conversa”. De facto, o que Elverum faz ao longo do disco é dialogar, simultaneamente, connosco e com Geneviève.

Na segunda faixa do disco, Distortion, o autor canta sobre tudo um pouco. Desde o momento na sua infância em que se apercebeu pela primeira vez da mortalidade do ser humano, passando pelo primeiro corpo morto que viu, até ao susto de quase ter um filho com uma mulher com quem só esteve uma noite. Esta é a canção mais longa do álbum. Por sinal, talvez peque por isso. Acaba com a frase “but in my tears now light gleams”, capaz de resumir o tema do álbum por inteiro: a esperança de que, depois da tragédia, a vida continua.

Nesse seguimento, a música que dá nome ao álbum distancia-se do diálogo com Geneviève e foca-se na experiência pessoal de Elverum. O autor detalha os episódios que sucederam a morte da sua mulher: escrever um álbum, tocar em concertos, falar com personalidades como Weyes Blood e Father John Misty sobre composição musical. Enfatiza que o seu sofrimento não é tão profundo como em A Crow Looked at Me com o verso “these waves hit less frequently” e admite que a morte é uma casualidade da vida.

“I don’t want to live with this feeling any longer than I have to but also I don’t want you to be gone” (Earth)

Segue-se Earth e Geneviève reaparece. Nesta canção e até ao final do álbum, Elverum volta a focar-se na perda da mulher, mas não baixa a cabeça. Em Earth, o autor encontra pedaços dos ossos da mulher no chão onde foram enterradas as suas cinzas. Em Two Paintings by Nikolai Astrup, a faixa seguinte, vê-se inundado com memórias de Geneviève no processo de arrumação da sua casa.

Foxgloves, de Nikolai Astrup, uma das pinturas referenciadas no tema Two Paintings by Nikolai Astrup

Elverum sela o trabalho com Crow, Pt. 2, invocando a música Crow que encerrou A Crow Looked At Me. Distanciam-se, no entanto, os temas de cada álbum. Em Crow, Pt. 2, a presença de Geneviève deixa de ser tão intensa. Geneviève deixa de ser um fantasma de Elverum e torna-se, definitivamente, uma memória.

“If you still hang in the branches
Like burnt wood, I will go out beneath
With arms reached and run my fingers through the air
Where you breathed, touching your last breath
Reaching through to the world of the gone with my hand empty” (Crow, Pt.2)

Now Only é um álbum para ouvir aconchegado e pronto para surtos de pele de galinha e lágrimas, que só não são constantes devido às narrativas densas e exaustivamente detalhadas de Elverum. Não é um disco para ânimos leves nem é fácil de ouvir, mas nem por isso deixa de ser um trabalho impressionante.

Avaliação: 8/10