Chama-se Banda Sonora e os nomes dos criadores são sonantes. O resultado é um produto de uma estética bizarra, ainda que interessante, com a caraterização das personagens a fazer lembrar Chucky ou o personagem It, de Stephen King.

A linguagem é (propositadamente?) simples, por vezes vulgar, fazendo o texto destoar da qualidade da composição musical e do cenário, extremamente bem construído, que nos remete imediatamente para o universo fantástico dos contos infantis.

Estivemos no meio de uma plateia que percebemos ser em grande parte composta por atores, e talvez esse seja um dos fatores que explicam a ovação de pé com que a récita foi presenteada no final.

banda sonora

Foto: Estelle Valente/divulgação

Objetivamente, se analisarmos a peça sem ter em conta o nome de Ricardo Neves-Neves (encenador) e Filipe Raposo (compositor), presença assídua no Teatro São Luiz, e se ignorarmos o facto de em palco estar, para além das seis intérpretes, a Orquestra Metropolitana de Lisboa, fica muito pouco desta Banda Sonora para justificar tal aclamação.

O texto pouco mais é do que um monumento ao nonsense, e fica por perceber se lhe está inerente alguma intenção de crítica ao ser humano e à sociedade, ou se pretende apenas entreter, de forma leve e descomprometida, conseguindo até, em certos momentos, arrancar sonoras gargalhadas a alguns membros da plateia.

Se a intenção era a de oferecer ao público algo com pouco conteúdo, torna-se ainda mais estranha a opção de enveredar pelo caminho do bizarro, quer pela duplicação das personagens – cada uma delas interpretada brilhantemente em simultâneo por duas atrizes –, quer pelas próprias vozes e entoações, quer, sobretudo, pelas histórias que contam e pela forma algo exagerada como interagem.

banda sonora

Foto: Estelle Valente/divulgação

Não sendo, evidentemente, uma história para crianças, embora seja notória a inspiração num universo de fantasia e de contos infantis, é difícil a um espetador, que espera retirar alguma coisa do teatro, manter-se a assistir durante 1h30 sem se questionar se não poderia antes estar a assistir a um outro espetáculo.

Poder-se-ia dizer que “gostos não se discutem” e há certamente quem goste de ir ao teatro para se deixar levar para um qualquer lugar, ainda que bizarro, mesmo que nele se fale com uma ligeireza displicente e despicienda de temas como a morte, a orfandade ou as relações de poder entre indivíduos.

No entanto, para quem procura no teatro um espaço de reflexão profunda que não se encontra noutro lugar, assistir a espetáculos como Banda Sonora deixa pouco mais do que uma sensação de esvaziamento. São espaços dos quais se sai mais vazio do que se entrou, mas não necessariamente mais leve.

banda sonora

Foto: Estelle Valente/divulgação

A estética da caracterização e figurinos, já mencionada, é bizarra e algo assustadora, mas ainda assim estimulante e intrigante, ao contrário dos monólogos, que se tornam longos e monótonos, pelo efeito das vozes sincronizadas e da repetição de ideias.

Já as canções, além de pouco acrescentarem à “narrativa”, primam pelas letras insólitas (quase absurdas) acerca de ideias como morder um braço e dá-lo ao cão para lamber, matar o cão, matar sapos, transformar pessoas em árvores e queimá-las, e por aí fora, sem se conseguir sair dessa limitada esfera de estranheza que não se chega sequer a entranhar.

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