O episódio mais recente de Riverdale, Primary Colors, volta a dar-nos um retrato de uma América partida, dividida e dilacerada.

Atenção: Os parágrafos que se seguem podem conter spoilers. Avança com precaução.

Entre o nevoeiro, ergue-se a pequena cidade de Riverdale. Um local perdido no meio da América profunda. Aqui o crime grassa, as divisões entre ricos e pobres cavam cada vez mais fundo. Há um lado norte, de população maioritariamente branca, que quer isolar o lado sul, dominado por descendentes de índios. De preferência, o Norte quer transformar o ‘South Side’ numa grande prisão ou num bloco de edifícios residenciais.

Parece familiar, não parece? Quase ouço, ao fundo, em eco, uma voz masculina a gritar “I will build a great wall“.

No episódio disponibilizado esta quinta-feira (22) pela Netflix, continua a consumar-se, passo a passo, a aquisição do South Side pelo magnata, mafioso e ex-presidiário Hiram Lodge (Mark Consuelos). Ele quer fazer sucumbir, peça a peça, todos os traços culturais e simbólicos da comunidade.

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Jughead (Cole Sprouse) decide, em conjunto com os restantes Serpents of South Side, acorrentar-se à antiga escola secundária da zona, que Lodge quer demolir para construir uma grande prisão privada, com fins lucrativos. “Porque a cidade precisa de ser limpa“.

Archie, o idiota útil

Archie (Kj Apa), o protagonista da série e melhor amigo de Jug, parece comprar a ideia de Lodge, pai da namorada Veronica (Camila Mendes). Surge, no meio da manifestação da população, em conjunto com um grupo de rapazes vestidos de igual, com sweat shirts da escola do Lado Norte, para quebrar as correntes e acabar, à força, com o protesto pacífico.

Este grupo de rapazes brancos, uniformizados, remete-nos para uma iconologia sinistra. Não são boas recordações. Archie, ainda traumatizado pelos acontecimentos do homicídio de Jason Blossom e, posteriormente, com os crimes em série do Black Hood, torna-se num idiota útil para as aspirações totalitárias de Hiram. Isto depois de terem celebrado um assustador pacto de sangue. Esta cena em particular pode ser mesmo encarada como a consumação doentia de uma relação que tem oscilado entre lealdade cega, admiração por manifestações de força e violência e umas pitadas de Síndrome de Estocolmo.

O protagonista, a personificação do boy next door, tem sido, de resto, uma personagem que parece estar, há muito tempo, em trauma. À beira da insanidade. A certa altura achou que, para se defender, devia trazer uma arma consigo… e ameaçou outros jovens com ela. Com a cidade sob ameaça, decidiu criar um grupo de vigilantes, uma espécie de milícia. E isto tudo sem advertência ou obstáculo sério colocado por ninguém. Archie concentra em si todas as contradições de uma sociedade em tumulto, a entrar numa espiral de violência crescente. Qual seria a reação da polícia se, em vez do popular jogador de futebol, fosse alguém do South Side a ter estes comportamentos?

A maçã podre

A América idealizada dos Archie Comics em que a série é baseada não existe. É isso que fica a nu, de forma ainda mais exposta, nesta segunda temporada. Em janeiro do ano passado, a Vanity Fair falava da cidade de Riverdale como uma maçã brilhante e suculenta… podre no meio.

É impossível não criar paralelo com o famigerado sloganMake America Great Again‘. Populações, dizimadas pelo desemprego e pela crise, começam a segregar outras populações e a culpá-las pela sua própria miséria. A perseguir um passado idealizado, que não existiu. E  políticos populistas, como Donald Trump, utilizam a política para beneficiar interesses pessoais e focam-se exatamente nas mesmas manobras que o enredo da CW expõe: Populações contra populações, maiorias contra minorias, ricos contra pobres. Em vez de Trump temos Hermione Lodge. Curiosamente… de ascendência latina.

A esperança surge, no entanto, de onde menos se poderia esperar. É Fred Andrews (Luke Perry), o pai de Archie, que quer preservar a tradição de diversidade que deu vida à cidade e, para isso, concorrer a Presidente da Câmara. Volta a fazê-lo agora, como já o tinha feito quando a cidade foi confrontada pelo Black Hood e se tentou virar contra o South Side.

Será que contra um inimigo que não se esconde atrás de uma máscara, Andrews vai conseguir levar a melhor? Ou cederá Riverdale às ‘boas intenções‘ que a trouxeram até aqui?