O palco (inexistente) da Sala Vermelha transforma-se numa praia para receber as palavras de Ruy Belo, misturadas com as da encenadora Marta Dias, pelas vozes de quatro personagens que se pretendem arquétipos do ser humano nas suas diversas fases e formas. De facto, é provável que cada espectador se identifique em algum momento com um, ou vários, deles.

Espalha-Factos conta-te tudo sobre a peça Um Dia Uma Vida, em cena até dia 25 de março no Teatro Aberto, em Lisboa..

“Pões os pés na manhã e tudo são caminhos”

Quando cessa a noite, povoada por estrelas cintilantes, uma luz azulada mostra-nos que estamos perante a alba. Os personagens começam o seu dia – ou será a sua vida? – iniciam o percurso de acompanhamento da passagem do tempo. O longo caminho que terminará, como se percebe depois, novamente na escuridão, símbolo da finitude do tempo.

Pelo meio, assistimos às rotinas dos personagens que se cruzam, num mesmo tempo e no mesmo lugar (uma praia). Alguns encontram-se apenas por breves momentos, outros têm uma vida em comum.

Percebemos, no discurso de cada personagem, várias nuances, desde a ingénua crença nas possibilidades infinitas de um futuro auspicioso à confissão de que, na realidade, a superficialidade é pesada e cansa, e de que bastaria um pouco de autenticidade, de amor genuíno, para que a vida fosse melhor, mesmo a de uma adolescente aspirante a Youtuber.

Ruy Belo

Foto: divulgação

Percebemos a desilusão causada pela necessidade que a sociedade nos impõe de fazer demasiadas coisas ao mesmo tempo – “ficam todas mal feitas” – mas que os outros julgam estar bem apenas por ser essa a sua expectativa em relação a um profissional reputado. Percebemos o cansaço na voz de quem lida diariamente com a vida que esmorece e o tempo que acaba. Percebemos a angústia de quem prevê o fim da sua profissão num futuro próximo e pouco pode fazer para o evitar perante a evolução de uma sociedade que se adapta a novas necessidades e realidades, perante o tempo impiedoso que não permite a sobrevivência do tradicional num mundo tão moderno.

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Aliterações, palavras e algum vazio

Uma tela completa o cenário minimalista e ilustra, ao longo de pouco mais de uma hora, a evolução de um dia – e, talvez, de toda uma vida – com imagens do mar, dos campos, das casas… No fundo, a tela é apenas mais um dos elementos marcados por uma certa ideia de fragmentação que compõem o espetáculo.

O texto fragmentário poderá ser uma representação da fragmentação do próprio tempo, mas nem sempre funciona. Há momentos em que a atenção se perde das palavras e se concentra no cenário, o que, tratando-se de uma peça inspirada na poesia de Ruy Belo, dificilmente poderemos acreditar ser o objectivo inicial da construção do texto.

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Para além da fragmentação por vezes excessiva, joga contra a coesão do espetáculo um certo desequilíbrio entre os atores e, sobretudo, a discrepância entre os fragmentos da poesia de Ruy Belo e os excertos criados originalmente para a peça, cuja linguagem fica por vezes demasiado distante da poética que o espetador, que seja também leitor do poeta, poderia esperar.

 

Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas

perdoa pagares tão alto preço por estar aqui

perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui

prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente

deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias

e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer

sou isto é certo mas sei que tu estás aqui

Tu estás aqui, Ruy Belo

Ainda podes ver

O espetáculo ainda pode ser visto esta sexta-feira e no sábado, às 21h30, e no domingo, às 16h00. Os bilhetes podem ser adquiridos na bilheteira do Teatro Aberto ou nos locais habituais.

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