A partir desta sexta feira (23), encontra-se à venda o primeiro álbum de João Couto. Depois de quase três anos após a vitória no programa Ídolos da SIC, o artista lança agora Carta Aberta, um trabalho composto por 12 temas originais que representam uma viagem pela sua vida, tanto musical como pessoal.

O Espalha Factos esteve à conversa com o cantor acerca deste projeto numa entrevista que teve como cenário o estúdio onde João Couto gravou as suas canções, em Vila Nova de Gaia.

A experiência no “Ídolos”

Espalha Factos – Falta pouco tempo para que sejam completados três anos desde que os portugueses te puderam escutar pela primeira vez no programa Ídolos. O que é que te levou a inscrever no concurso?

João Couto – Aquilo foi um convite que me fizeram na altura em que eu postava vídeos na internet para partilhar com os meus amigos. O vídeo pelo qual me mandaram mensagem foi um em que estava na varanda da minha casa com um ukulele a cantar a Something dos Beatles. Enviaram-se um email a dizer que precisavam de malta para cantar, interpretes e executantes. Aquilo chamou-se muito a atenção na altura porque eu tinha, semanas antes, lançado um EP na internet com canções originais e estava com dificuldades em arranjar sítios onde tocar. Então, achei que fazer algo na televisão me traria mais visibilidade. No pré-casting nem ensaiei nada, fui lá com a guitarra, foi a primeira cena que me veio à cabeça e felizmente correu bem. Tivemos uma dinâmica fixe no programa, o bónus de termos uma banda ao vivo.

EF – Sentes que essa participação foi o passo de partida para uma carreira no mundo musical?

JC – Sim. Costumo dizer que existem experiências que são como uma porta que se abre para alguma coisa. Neste caso o Ídolos foi um portão. E como vivemos numa fase em que as pessoas já não tomam os talent shows com a seriedade com que tomavam anteriormente, pude levar a experiencia à minha maneira. Todo o processo, até após o Ídolos, foi algo que levei com tranquilidade e dediquei-me a 100% à música. Por isso é que chegámos ao produto final que temos agora.

EF – O estilo de música que cantavas no programa não era o mais usual neste tipo de formatos. Sentiste que esta foi uma maneira de te diferenciares dos outros e conseguires chegar mais longe, ganhar?

JC –  Fui lá com essa música não com o propósito de ser diferente só por ser diferente ou de querer superar os outros porque no final de contas eu estava lá só para me superar a mim próprio. Estava a desenvolver-me como artista, como músico. Sabia exactamente com que tipo de música me identificava, a música que a mim me tocava e inspirava. É essa que eu tenho de ir atrás e, felizmente, durante uma grande fatia do programa, pude ir atrás desses géneros musicais, dessas influências do Sting, da Tracy Chapman, dos Beatles. É chegar ao programa com uma música menos óbvia de se ouvir num programa de prime time mas que, a mim, me tocou muito e, se calhar, também tocaria a outra pessoa.

EF – Exato porque também marcava pela diferença…

JC – Claro que sim.

EF- Na tua audição, a jurada Maria João Bastos perguntou-te porque é que querias ser o próximo ídolo de Portugal. Ao que lhe respondeste: “eu quero partilhar a minha voz”. Sentes que hoje, com o aproximar do lançamento do primeiro disco, esse sonho está cada vez mais perto de se concretizar?

JC – Completamente, porque, quando respondi a essa pergunta, não me referia ao sentido literal de partilhar a minha voz cantada. É partilhar a minha paixão pela música, partilhar as minhas emoções e a música é isso, é comunicação. O álbum demorou o tempo que demorou precisamente por causa disso. O problema das primeiras impressões é que só se dá uma, por isso, sabia que, para fazer o primeiro álbum certo, tinha de ser o álbum certo.

Mais do que fazer uma música que fosse muito segura ou estar a fazer êxitos, que era a ultima coisa em que queria estar a pensar, quis fazer algo com que me identificasse. Temos o paradoxo, que costumo chamar da especificidade, quanto mais especifica a música for sobre a tua experiencia pessoal, maior é a probabilidade de ela dizer algo a outra pessoa. Por exemplo, há uma canção no disco que é o Corolla. Podia fazer uma canção sobre carros, mas falei sobre um corolla porque sei que as pessoas vão pensar não no meu corolla mas no deles.

“A lição mais importante que aprendi com a produção deste albúm é que fazer coisas simples é extremamente complicado”

Nos bastidores de “Carta Aberta”

EF – Em finais de fevereiro lançaste a música Canção Só. Como é que foi recebida pelo público?

JC – Muito bem, a receção está a ser muito boa. É realmente o primeiro tema da minha autoria que esta dentro da sonoridade que eu sempre quis trabalhar e é o primeiro a sair neste nível. O que mais me emociona é quando me dizem “isto és tu” e o facto de estar a ser recebida pelas rádios e outros artistas, que já me deram os parabéns. É fantástico porque é sinal que não precisei de descomprometer a parte pessoal, os meus próprios gostos, que as pessoas acabaram por recebê-la bem de qualquer maneira.

EF – A tua música vai ao encontro desta nova vaga de músicos portugueses como o Miguel Araújo, o António Zambujo, a Luísa Sobral. Tens uma sonoridade própria mas que vai ao encontro desta onda…

JC – Quando entrei na pré adolescência comecei a perder influências no sentido em que não tinha ninguém atual, apenas pessoal de gerações anteriores à minha, para o qual eu poderia ter como referência, modelos a seguir. Então, comecei a ter contacto com a música de artistas como o Miguel Araújo, a Márcia, que estavam a levar a música portuguesa e o ofício de fazer canções em português para outro nível e pensei “é isto que quero fazer para o resto da vida”. Esta geração que está a dominar a música portuguesa é bastante diversa. Também quis que o meu álbum não pecasse pela mesmice nesse sentido, tenho músicas que vão buscar coisas ao blues, ao rock, algumas quase vão ao jazz, ao samba.

EF – Voltando à tua canção. Escreveste no Facebook que gostas de vídeos simples pois guardam o seu melhor nos detalhes. Como surgiu a ideia de fazer um videoclip em pleno oceano?

JC – Essa frase que disse aplica-se a tudo. Na música é a mesma coisa. A lição mais importante que aprendi com a produção deste albúm é que fazer coisas simples é extremamente complicado porque todas as peças são fundamentais e basta uma não estar no ponto que cai tudo ao chão. Então, quis que isso transparecesse na parte visual do disco e sugeri que o realizador do videoclipe fosse o Edgar Ferreira porque ele não tem medo do insólito.

A forma como ele interpretou esta canção era levar a solidão de que a canção fala ao exagero e colocar-me no meio do oceano e dizer-me “mas percebo que esta canção tem uma ironia e queres ir embora, por isso é que disparas a pistola de sinalização no final”. Achei aquilo genial. Temos um vídeo que ou se adora ou se odeia, acho que essa é a função da arte, criar sentimentos fortes.

EF – Escreveste também nas redes sociais que Carta Aberta é composta por “pequenas canções, cada uma delas uma vinheta que representa onde estava musicalmente e pessoalmente estes últimos anos”. Podemos considerar que este projeto representa uma viagem pela tua vida?

JC – Exatamente. Quis que o álbum representasse um pouco de tudo o que andava a ouvir naquele ano, seja country, soul, pop. A nível pessoal, quis transmitir aquilo que estava a sentir quando escrevia as canções tanto antes como depois do programa. As canções surgiram da fome de querer fazer mais.

EF- Tal como disse anteriormente, passaram-se cerca de 3 anos desde a tua participação no Ídolos. Esse foi o tempo necessário para a realização do álbum?

JC – Felizmente, a equipa que está à minha volta colocou o meu conforto e a minha ambição artística em primeiro lugar. Quando o Ídolos acabou, tinha 19 anos e com essa idade achei difícil decidir que passo dar no mundo. Todos perceberam que este trabalho era diferente, onde a música tinha de falar primeiro. O João Martins sempre foi quem eu quis que produzisse o disco e juntos fomos atraindo pessoas para este projeto até percebermos que seria a equipa certa.

“Nunca considerei fazer algo que não estivesse ligado à música”

EF – O tema do amor está presente em alguns dos teus temas. Mais do que Eu Vejo e Inês são exemplos disso mesmo. Ainda é possível ser-se original num tema tão comum e familiar a todos nós?

JC – Claro que sim. O amor por algum motivo é o tópico mais falado nas músicas, porque tem a mania de nos deitar abaixo mas ao mesmo tempo ser a coisa que mais nos faz sorrir todos os dias. E, enquanto esse sentimento continuar forte, nunca deixará de haver inspiração. Todos os dias ouço uma música que para mim é um soco na barriga. Por exemplo, uma das músicas deste Festival da Canção, Anda Estragar-me os Planos, da Joana Barra Vaz, foi para mim um murro no estômago. O meu desafio como letrista é falar sobre o amor de uma forma sincera e, se o fizermos, uma canção é bem sucedida. Um desgosto amoroso nunca deixa de doer e uma boa canção se amor nunca deixa de o ser.

A paixão pela música e os desejos para o futuro

EF – Como é que o João de hoje olha para o João que, com 5 anos, pegou numa guitarra de brincar, subiu para um palco e cantou “se não fosse o rock’n roll o que seria de mim”?

JC – É o mesmo. É incrível como Não há Estrelas no Céu foi de certa maneira uma profecia para a minha vida porque muitas das minhas inseguranças e os meus desejos realizaram-se pela música. Nunca considerei fazer algo que não estivesse ligado à música. Grande parte das minhas amizades vêm da música. Desde miúdo que era muito tímido e cantar dava-me muita coragem, o que não faz sentido nenhum porque implica estares em frente a um público que está imediatamente ali a julgar-te e a criticar-te. Era aquele miúdo que podia não falar com ninguém na escola mas, às vezes, pedia à professora para ir para a frente da turma cantar.

EF – Na tua biografia prometeste fazer parte do futuro da música portuguesa. “Deixar a voz cansar em carta aberta” é o ponto de partida. Até onde pode chegar?

JC – Para mim, a resposta mais democrática seria “vamos ver o que o futuro reserva”. O meu maior sonho seria que, da mesma maneira que artistas como o Rui Veloso ou o Jorge Palma me deram coragem de olhar para a música e pensar que seria um emprego perfeitamente plausível, conseguir fazer o mesmo com outra pessoa seria o culminar do meu trabalho, porque a minha paixão pela música parte disso. Gostava que o ponto de chegada fosse esse, que uma música minha fizesse parte da vida de alguém. Isso para mim é mágico.