Desde que, no início do séc. XX, Meliès revelou ao mundo Voyage dans La Lune, inspirado no imaginário de Jules Verne, que a ficção científica tem trilhado um percurso longo no cinema, continuando a exercer fascínio e a produzir obras de inegável qualidade em todas as décadas.

Mas é no séc. XXI que começamos a vivenciar a ficção científica e a nossa realidade adquire contornos subtis de distopia, algo brilhantemente explorado na série televisiva Black Mirror. No cinema, o género da ficção científica tem estado na crista da onda e gerado algumas das obras mais estimulantes dos últimos anos.

Desde filmes que refletem sobre a inteligência artificial e a condição humana, até à presença de extraterrestres na Terra e o modo como estabelecem ligações com humanos, passando por viagens no tempo e paisagens pós-apocalípticas que oprimem sobreviventes, o conjunto destas obras tem permitido que a ficção cientifica se torne o veículo ideal para expressar as encruzilhadas em que se encontra a Humanidade.

Com a chegada este mês de Aniquilação, de Alex Garland, à Netflix, na Europa, e às salas de cinema, nos Estados Unidos, aproveitámos para selecionar alguns dos filmes de ficção científica mais impactantes dos últimos dez anos em língua inglesa (2008-2018) e que acrescentaram algo de novo ao género graças a alguns dos cineastas mais talentosos da atualidade.

10 — District 9 de Neill Blomkamp (2009)

Em 2009, vieram bons ventos de África do Sul, com uma obra arrojada em todos os sentidos e considerada uma total pedrada no charco. Recorrendo a um estilo documental, Neill Blomkamp retrata a chegada ao planeta de uma raça insetoide de extraterrestres que rapidamente é isolada e enfiada num gueto militarizado que se perpetua ao longo de anos, o Distrito 9.

O protagonista (Sharlto Copley) é um burocrata que é acidentalmente injectado com DNA extraterrestre e forçado a encontrar refúgio no Distrito 9. Ao longo do processo de transformação, o protagonista humaniza-se em vez de se desumanizar, criando empatia com os ETs. Sem sacrificar a sua identidade como filme de ação violento e recheado de adrenalina, District 9 faz óbvias alusões ao regime de apartheid na África do Sul, pondo a nu a segregação racial e social perpetrada por governos. E estranhamente, dez anos depois, o filme é agora mais atual do que nunca, perante as imagens de campos de refugiados em cidades europeias.

9 — Looper de Rian Johnson (2012)

Viagens no tempo continuam a ser dos temas mais complexos da ficção científica e que mais têm despertado fascínio, pelos paradoxos temporais que desafiam a mente. Richard Kelly elevou a fasquia com Donnie Darko, no início do século, e em 2012 foi a vez de Rian Johnson fazer uma sólida contribuição para o sub-género com Looper. A ação decorre em 2074, numa sociedade em que a máfia envia os seus alvos para o passado para serem eliminados por um assassino (Joseph Gordon Levitt).  Quando esse assassino é confrontado com a sua própria versão vinda do futuro (Bruce Willis), apercebe-se então de que a sua vida pode estar em perigo.

Parte thriller, parte ficção científica, o filme não pretende dedicar-se a teorias complexas de viagens no tempo, mas antes explorar o seu impacto a nível emocional nas personagens. Mesmo que o final possa parecer um pouco previsível, o filme introduziu o conceito fascinante de loopers, assassinos a soldo que operam através das viagens no tempo, ao mesmo tempo que permitiu ao enredo focar-se no lado mais psicológico das viagens temporais.

8 — Moon de Duncan Jones (2009)

Se há um realizador que se pode gabar de ter uma relação muito próxima com o género da ficção científica desde sempre é Duncan Jones, filho do músico David Bowie, um artista que soube como nenhum outro expressar-se através da suas várias identidades alienígenas.

A história de um astronauta isolado (Sam Rockwell) numa estação lunar, numa missão solitária com a duração de três anos, engana na sua aparente simplicidade. A pouco tempo de chegar ao final da missão, uma crise existencial apodera-se do protagonista, ao ser confrontado com uma versão mais jovem dele próprio. Tendo como única companhia a voz robótica de Kevin Spacey, o filme embarca numa clara homenagem a muitos clássicos, e não se deixa deter pelo orçamento bastante reduzido. Rockwell é a alma do filme, ao retratar com tanta pungência o drama existencial do astronauta, com todos os seus twists infernais e crueldade.

7 — Blade Runner 2049 de Dennis Villeneuve (2017)

Blade Runner 2049

O filme de culto de 1982, Blade Runner, baseado na obra de Philip K. Dick, tornou-se de tal forma a referência máxima da ficção científica que a notícia de uma sequela pôs muitos a interrogarem-se sobre a capacidade de Dennis Villeneuve em alcançar o patamar do filme original de Ridley Scott. A sequela é uma continuação dos eventos narrados no filme de 82, mas conferindo-lhe características mais perversas e sombrias. Se há defeito a apontar é o facto de depender tanto da fonte original que torna a sequela menos interessante se vista de forma independente.

Trinta anos depois de Deckard (Harrison Ford) ter desaparecido com Rachel (Sean Young), K (Ryan Gosling), um caçador de velhos replicantes, desenterra velhos segredos, que lançam o caos no seu mundo… A natureza da alma e a memória, assim como a relação complexa entre o criador e a sua obra, são temas já abordados no filme de 82 mas agora ainda mais aprofundados e, tal como no filme de 82, a cinematografia desempenha um papel importante; Roger Deakins (finalmente premiado pelos Óscares) supera-se a todos os níveis em Blade Runner 2049, com cenários de absoluta beleza que evocam a distopia urbana em todo o seu esplendor.

6 — Her de Spike Jonze (2013)

Nunca foi tão fácil encontrar o amor hoje em dia, face às inúmeras apps amorosas e tecnologia que permitem conexão global com pessoas que partilham os mesmos interesses. Mas o que acontece se a pessoa com quem mais nos identificamos for ela própria tecnologia e não possuir um rosto humano?

Com Joaquin Phoenix no papel de Theodore, um escritor solitário e inadaptado que se rende à voz sedutora do seu sistema operativo, encontramos uma história com níveis inesperados de profundidade e capaz de nos maravilhar com momentos de humor e ternura. Uma surpreendente história de amor que continha todos os ingredientes para correr mal, mas que conduz Theodore e o espectador numa jornada única e emocional, ao mesmo tempo que explora questões importantes sobre a natureza dos relacionamentos humanos.

5 — Under the Skin de Jonathan Glazer (2013)

Grande parte do sucesso de um filme de ficção científica depende da carga atmosférica que influencia o seu tom e conteúdo. E se há filme que nos inspira com a sua brilhante e surreal conjunção de música, fotografia das paisagens da Escócia e silêncio da misteriosa protagonista é Under the Skin. Scarlett Johansson é uma alienígena que habita entre nós na forma de uma mulher. A sua natureza predadora leva-a a seduzir homens e a atraí-los para uma dimensão paralela onde são devorados.

No entanto, é apanhada desprevenida pelas teias da existência humana, e gradualmente a personagem começa a criar empatia e a trilhar caminhos nunca antes explorados, pondo a nu a sua vulnerabilidade. Under the Skin consegue a proeza de ser uma das contribuições mais belas e singulares desta década no cinema de ficção científica. Uma coisa é certa; a negritude avassaladora que consome os homens seduzidos continuará a perseguir as mentes dos espectadores mais influenciáveis durante muito tempo.

4 — Inception de Christopher Nolan (2010)

inception

Responsável por elevar brutalmente a fasquia dos filmes de super-heróis com a sua trilogia Batman, Nolan tornou-se um dos argumentistas mais originais e requisitados da indústria cinematográfica.

Não desiludiu com Inception, uma história brilhante e complexa sobre um grupo peculiar de ladrões que manipulam sonhos. Entrar nos sonhos e extrair segredos é a especialidade de Cobbs (Leonardo DiCaprio) e a sua equipa, até ao momento em que Cobbs é forçado a uma operação considerada impossível: plantar ideias na mente do sonhador. Penetrando cada vez mais fundo no subconsciente humano, o protagonista e a sua equipa arriscam-se a alcançar um ponto sem retorno.

O filme combina vários subgéneros — thriller, filme noir, policial, ficção científica — mas a interligar tudo existe uma obsessiva história de amor. Além disso, a arquitetura dos sonhos que integra várias camadas oníricas, assim como o elenco fortíssimo e carismático, tornaram Inception um dos contributos mais excecionais para a ficção científica em muitos anos.

3 — Mad Max: Fury Road de George Miller (2015)

Em 1979, o realizador George Miller ofereceu ao mundo Mad Max, que daria a conhecer a sua visão singular de uma Austrália pós-apocalíptica dominada por gangs de motoqueiros que vagueiam pelas cidades e estradas a semear violência e destruição. Cabe a um polícia, Max, deter os criminosos, mas o preço pessoal a pagar é inevitavelmente elevado.

Mais dois filmes foram realizados em 1981 e 1985 até que, três décadas depois, Miller voltou à carga e surpreendeu tudo e todos com um novo capítulo de Mad Max, protagonizado por Tom Hardy. Mas ao contrário dos filmes anteriores, rapidamente nos apercebemos de que Max é apenas um peão na luta entre o líder da Cidadela Immortan Joe e a sua tenente Imperator Furiosa (Charlize Theron), que decide rebelar-se contra a sua tirania e escapar com as suas cinco mulheres (detidas apenas para fins procriativos). A mensagem poderosa de Fury Road, de rebelião contra a subjugação sexual, opressão do patriarcado e discriminação acrescentou uma profundidade inesperada a um filme de ação hiper-estilizado e imparável, tornando-o definitivamente um vencedor.

2 — Ex-Machina de Alex Garland (2016)

A inteligência artificial tem dominado grande parte das principais reflexões da ficção científica e em décadas anteriores não faltaram cenários fatalistas em que a máquina adquire um grau sofisticado de consciência e desafia o seu criador. Alex Garland soube expressar as ambivalências e dilemas morais do tema com mestria, na sua primeira incursão como realizador em Ex-Machina, pondo o homem e a máquina num frente a frente como nunca antes visto.

Caleb (Domnhall Gleeson) é um jovem programador que ganhou uma viagem para conhecer o seu misterioso chefe Nathan (Oscar Isaac), isolado num retiro. Na verdade, é incumbido de avaliar as qualidades humanas da última criação robótica de Nathan, a bela Ava (Alicia Vikander). À medida que os twists do filme se sucedem, somos cativados pelas dinâmicas sexuais entre as personagens e o nível sofisticado de manipulação que torna este filme tão marcante. Garland provou ser um cineasta capaz de competir com os melhores.

1 —  Arrival de Dennis Villeneuve (2017)

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O autor Ted Chiang ganhou notoriedade no meio literário com a extraordinária coletânea de contos Stories of your Life and Others. Desde a sua publicação em 2002, o livro ganhou proeminência e seria um dos melhores contos de Chiang, Story of your Life, a dar origem ao filme Arrival, com realização do franco-canadiano Dennis Villeneuve.

Arrival está longe de ser um mero filme sobre a chegada de extraterrestres ao planeta Terra. Procura refletir sobre o modo como a linguagem pode ser um instrumento para derrubar as limitações do tempo, mas acima de tudo faz-nos questionar sobre as escolhas que tomamos na vida, mesmo quando as consequências são dilacerantes.

O fardo emocional que a personagem de Amy Adams, a linguista, suporta nos últimos minutos tornam Arrival um filme assombroso que nos quebra em pedaços quando ganhamos consciência das implicações da decisão da protagonista. Nas mãos de bons realizadores, a ficção científica abre o caminho para jornadas cinematográficas profundamente existenciais.