1986
Fonte: RTP

Opinião. ‘1986’ é uma cassete que vale a pena rebobinar

1986 é a nova série de Nuno Markl, estreada há pouco mais de uma semana na RTP1 e na RTP Play. É a história de Tiago (Miguel Moura e Silva), um jovem que se apaixona por Marta (Laura Dutra) e tenta lidar com o problema de os pais de ambos estarem em extremos políticos opostos. 

A série usa o duelo entre Mário Soares Freitas do Amaral, nas presidenciais de 1986, como pano de fundo para esta complicada história de amor (que não é a única). Será, então, esta uma aposta bem-sucedida da estação pública?

1986

Viajar para o passado

O primeiro grande ponto de destaque é a recriação da sociedade portuguesa nos primeiros meses do ano de 1986. Desde os cenários, aos objetos, passando pelas referências culturais e, inevitavelmente, na divisão política entre Esquerda e Direita. Toda a produção faz-nos acreditar que acabamos de sair de uma máquina do tempo, tal é o seu realismo.

Porém, a figura central deste regresso ao passado é a música. Vários sãos os sucessos inesquecíveis dos anos 80 que atacam a nossa nostalgia, ao mesmo tempo que refletem o estado de espírito das personagens.

Uma palavra especial para as canções originais da série. Criada por João Só, a banda sonora de 1986 é uma experiência sonora fantástica, com temas como Eletrificados a prometerem ficar no ouvido durante muito tempo.

Artistas como Miguel Araújo, Ana Bacalhau, Samuel Úria, entre outros, fazem um trabalho notável de adaptar as personalidades das personagens a músicas que seriam, certamente, sucessos na época de 80. O concerto, na Altice Arena, marcado para dia 17 de maio, promete ser um ótimo espetáculo.

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1986
Fonte: RTP

Uma história intemporal

No que toca à história, esta demora alguns episódios a arrancar, muito por ainda estarmos na fase de conhecer as personagens. Porém, lentamente, através da escrita de Markl e da interpretação dos atores, começamos a ser contagiados pelo charme das peripécias que acontecem a cada episódio.

Nem todos os aspetos narrativos funcionam. Ainda se apanha algumas das marcas típicas e chatas da televisão “à portuguesa”. Para além disso, a história tem alguns momentos em que o ritmo se altera de uma forma estranha, apesar de rapidamente voltar à velocidade certa.

Com um criador como Nuno Markl, era de esperar uma panóplia de referências a vários elementos da pop culture, como filmes, músicas e bandas desenhadas, o que acontece. O seu estilo é propício a algum humor mais surreal que pode não agradar a todos, mas não desapontará os fãs.

Alguns episódios têm premissas interessantes e diferentes, que fazem as personagens refletir sobre certos traços da sua personalidade. E é essa profunda exploração das falhas humanas que dá um valor intemporal à história. Aliás, no final existe a sensação que todos os intervenientes têm um propósito na narrativa principal e que estão em lugares diferentes do que aqueles em que começaram.

1986
Fonte: RTP

As interpretações são todas muito boas e todo o elenco tem momentos para brilhar. Das personagens mais jovens destaca-se a atuação de Laura Dutra, nos adultos são Adriano Carvalho e  Gustavo Vargas quem mais brilha. Menção ainda para Tiago Garrinhas, que faz de Tó, facilmente a melhor personagem secundária de toda a série.

Alguns momentos das personagens podem parecer contraditórios e existem certas atitudes que são um pouco exageradas. Apesar disso, nunca é em demasia e não retira valor à história no seu todo.

Depois de se ver os 13 episódios, o sentimento que imerge é a saudade. Saudade dos bons tempos dos anos 80, saudade dos filmes, das músicas, da simplicidade. E saudade das personagens que conhecemos ao longo desta viagem pelo tempo. É, provavelmente, o melhor elogio que se pode fazer a 1986.

Nota: 8/10

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