Hoje é o Dia Mundial da Poesia! O Espalha-Factos dedicou este mês à poesia e aos poetas portugueses, como Almada Negreiros, Matilde Campilho ou António Ramos Rosa. Hoje é também o dia em que se celebram os 90 anos do famoso poema Tabacaria, de Álvaro de Campos, um dos heterónimos de Fernando Pessoa. Por isso, esta rubrica termina focando-se neste grande nome da poesia portuguesa.

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Foto: página oficial Casa Fernando Pessoa no facebook

Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, no dia do país, 13 de junho de 1888.

Poeta, filósofo, ensaísta, tradutor, publicitário e crítico literário, Pessoa é o mais universal dos poetas portugueses – daí que surja a ironia de ter nascido no dia de Portugal.

Educado primeiramente na África do Sul, numa escola católica irlandesa, começou por ter familiaridade com o idioma inglês, tendo escrito os seus primeiros poemas nesse idioma.

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Foto: Flickr

O crítico literário Harold Bloom (1930), professor e crítico literário dos Estados Unidos, chegou mesmo a considerar o poeta o “Whitman renascido“, incluindo-o no seu O Cânone Ocidental (1994), onde estão reunidos os 26 melhores escritores da civilização ocidental.

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As linhas de Pessoa(s)

Das quatro obras que publicou em vida, três são na língua inglesa. Pessoa traduziu várias obras em inglês, entre elas obras de Shakespeare e de Edgar Allan Poe, para o português, e obras portuguesas de António Botto e Almada Negreiros para o inglês.

Enquanto poeta, escreveu linhas suas e linhas de poetas que inventou, os seus heterónimos e personalidades literárias.  Os mais conhecidos de cerca de 200 foram Ricardo ReisÁlvaro de Campos, Bernardo Soares Alberto Caeiro.

Robert Hass (1941), poeta americano, chegou mesmo a dizer que «outros modernistas, como YeatsPoundElliot, inventaram máscaras pelas quais falavam ocasionalmente. Pessoa inventava poetas inteiros».

Em 1915, participou na revista literária Orpheu, que lançou o movimento modernista em Portugal, causando escândalo e muita controvérsia.

Esta revista publicou apenas dois números, sendo no segundo que Pessoa e Mário de Sá-Carneiro assumiram juntos a direção.

Falecido em Lisboa a 30 de novembro de 1935, com 47 anos, Pessoa é lembrado pelas suas pessoas, pelos seus poemas, pela sua vida dedicada à arte.

O poeta mexicano Octavio Paz (1914-1998), laureado com o Nobel de Literatura, chegou mesmo a afirmar que «os poetas não têm biografia. A sua obra é a sua biografia. No caso de Fernando Pessoa, nada na sua vida é surpreendente — nada, excepto os seus poemas».

Na comemoração do centenário do seu nascimento, em 1988, o seu corpo foi trasladado para o Mosteiro dos Jerónimos, confirmando o reconhecimento que não chegou a ter em vida.

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Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(…)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(…)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(…)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos

Depois de me deter longo tempo a olhar para o título e para os primeiros versos repetidamente, depois de me perder pelas infinitas linhas, levanto-me da cadeira e olho longamente o tempo. O tempo que passou, o tempo que vem. Este é um poema sobre a vida. Sento-me, escrevo e paro de novo. Tenho uma máscara colada à cara, mas é a do medo. Quem tem sonhos só tem de voar. As máscaras caem com a altitude.

«Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama». Repetir: «Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama». Quem sonha alcança assim, antes de se levantar. Como somos seres humanos, tão complexos já por natureza, temos de nos permitir levantar da cama sem medos, com o mundo já conquistado, para que sejam os sonhos a comandar as horas, para não precisarmos de ser, porque os sonhos são por nós.

Maria Beatriz Viana

Este poema é não só, na minha opinião, um dos mais importantes da literatura portuguesa, mas também o que provavelmente tem a maior consciência do seu poder de atualização.

Na deriva entre o metafísico e o quotidiano, o leitor não deixa de se envolver nos versos e de indagar sobre a sua própria condição existencial- o que ficou por cumprir, os falhanços por vir. E talvez esse seja o nosso pecado original, contermos em nós um tanto de Campos e outro tanto de Esteves sem metafísica.

Sofia Santos

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