Poeta castrado, não!

Serei tudo o que disserem

por inveja ou negação:

cabeçudo dromedário

fogueira de exibição

teorema corolário

poema de mão em mão

lãzudo publicitário

malabarista cabrão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado não!

(…)

Os que entendem como eu

a força que tem um verso

reconhecem o que é seu

quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala

– é tão vulgar que nos cansa

mas que dizer de uma bala

num esqueleto de criança?

(…)

Serei tudo o que disserem

por temor ou negação:

Demagogo mau profeta

falso médico ladrão

prostituta proxeneta

espoleta televisão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado não!

Ary dos Santos

Ary dos Santos

Foto: Ary dos Santos | Abril

José Carlos Ary dos Santos (7 de Dezembro de 1937 – 18 de Janeiro de 1984) é um dos maiores poetas portugueses do século XX. É também autor de alguns dos mais belos poemas para canções, como Desfolhada, Cavalo à Solta, Tourada, Estrela da Tarde, Menina, Os Putos ou Lisboa, menina e moça.

Ainda muito jovem, viu alguns dos seus poemas serem selecionados para integrar a Antologia do Prémio Almeida Garrett, mas é em 1963 que se estreia em nome próprio com o livro de poemas A Liturgia do Sangue.

Além da música, a poesia de Ary está intimamente ligada ao seu comprometimento político, versando frequentemente sobre questões de cariz social, histórico ou económico. Nascido numa família da burguesia lisboeta, Ary dos Santos acaba por se ligar ao PCP a partir de 1969.

A cidade é um chão de palavras pisadas

A cidade é um chão de palavras pisadas

a palavra criança  a palavra segredo.

A cidade é um céu de palavras paradas

a palavra distância  e a palavra medo.

A cidade é um saco  um pulmão que respira

pela palavra água  pela palavra brisa

A cidade é um poro  um corpo que transpira

pela palavra sangue  pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas

como estátuas mandadas apear.

A cidade tem ruas de palavras desertas

como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.

A palavra silêncio é uma rosa chá.

Não há céu de palavras que a cidade não cubra

não há rua de sons que a palavra não corra

à procura da sombra de uma luz que não há.

Ary dos Santos

O poeta das canções

Autor de mais de 600 poemas para canções, a sua poesia não se esgotou nas vozes de Carlos do Carmo, Amália Rodrigues ou Simone de Oliveira e continua ainda hoje a ser cantada e declamada em novas interpretações com diferentes roupagens.

Em 2009, o grupo Rua da Saudade, composto por  Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e Luanda Cozetti editou um álbum composto integralmente por temas escritos por Ary dos Santos.

Ary dos Santos é com frequência invocado em espetáculos teatrais sobre a sua vida ou a de alguns dos seus amigos artistas. Recentemente, pudemos vê-lo no musical Simone, mas antes disso foi também um dos personagens do espetáculo Uma Noite em Casa de Amália, de Filipe La Féria.

O poeta e a sua obra

Publicou as obras Adereços, endereços (1965), Insofrimento in sofrimento (1969), Fotos-grafias (apreendido pela PIDE em 1971), Resumo (1973), As portas que abril abriu (1975), O sangue das palavras (1979) e 20 anos de poesia (1983). A obra As palavras das cantigas foi publicada em 1989, já depois da sua morte, com coordenação de Ruben de Carvalho.

A sua voz está imortalizada nas edições discográficas Ary por si próprio (1970), Cantigas de amigos (1971), com Natália Correia e Amália Rodrigues, Poesia política (1974), Llanto para Afonso Sastre y todo (1975), Bandeira comunista (1977), Ary por Ary (1979) e Ary 80 (1980).

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