Não Posso Adiar o Amor

Não posso adiar o amor para outro século

não posso

ainda que o grito sufoque na garganta

ainda que o ódio estale e crepite e arda

sob montanhas cinzentas

e montanhas cinzentas 

Não posso adiar este abraço

que é uma arma de dois gumes

amor e ódio

Não posso adiar

ainda que a noite pese séculos sobre as costas 

e a aurora indecisa demore

não posso adiar para outro século a minha vida

nem o meu amor

nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa, ‘Viagem Através de uma Nebulosa’ 

António Vítor Ramos Rosa foi um poeta, crítico e tradutor português. Nasceu a 17 de outubro de 1924 e frequentou o ensino secundário em Faro, acabando por se fixar em Lisboa.

Foi militante do Movimento de União Democrática e, devido à posição crítica em relação ao regime ditatorial, conheceu a prisão política.

Esteve ligado a diversas publicações culturais, entre as quais as revistas literárias ‘Árvore’ (1951-52), ‘Cassiopeia’ (1951-53) e ‘Cadernos do Meio-Dia’ (1958-60).

O seu primeiro livro, O Grito Claro, foi publicado em 1958 e marcou o início de uma obra poética multifacetada, com mais de 50 títulos.

Ao longo da vida dedicada às palavras, o autor recebeu o Prémio Pessoa, em 1988, o Prémio da Bienal de Poesia de Liége, em 1991, e foi eleito, no mesmo ano, Poeta Europeu da Década pelo Collège de L’Europe. Em 2003, foi agraciado com o grau de Doutor Honoris Causa pela universidade da sua terra natal.

Considerado um dos grandes poetas portugueses do século XX, António Ramos Rosa faleceu a 23 de setembro de 2013, com 88 anos.

Foto: Biblioteca Nacional de Portugal

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António Ramos Rosa, o poeta inominável

Desde a sua estreia em 1958, no jornal ‘A Voz de Loulé’, com o poema Os dias, sem matéria, António Ramos Rosa ganhou rapidamente o reconhecimento dos seus pares no mundo literário.

A novidade da sua obra fez com que muitos começassem a apelidar o poeta como “anti-Pessoa”, pois contrariamente ao criador dos heterónimos, a obra poética de António Ramos Rosa trespassa uma visão da realidade em toda a sua autenticidade, isenta de conceptualismos.

«Quem escreve/ quer juntar-se/ à pedra/ à árvore// e ser através delas/ o tranquilo sopro/ do inominável», realçou o autor num dos seus poemas publicados na antologia Poesia Presente (2014).

‘O Grito Claro’, de António Ramos Rosa, foi o primeiro volume da coleção de poesia ‘A Palavra’, dirigida pelo poeta Casimiro de Brito. Foto: Biblioteca Nacional de Portugal

Poema do Funcionário Cansado

Da vasta obra António Ramos Rosa, sobressai o poema O Funcionário Cansado, escrito em 1949 e integrado no seu primeiro livro de poesia.

O percurso do poeta algarvio foi marcado pelo desempenho de variadas funções, entre as quais empregado de um escritório de contabilidade onde trabalhou entre 1945 e 1947.

A experiência acabaria por inspirar o poema sobre a solidão, no qual é visível a dor pungente de quem desiste de perseguir os seus sonhos. Atento às exigências sociais, o poema novecentista não só surpreendeu pela novidade, mas também se mantém atual nos dias de hoje.

A noite trocou-me os sonhos e as mãos

dispersou-me os amigos

tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo

as casas engolem-nos

sumimo-nos,

estou num quarto só num quarto só

com os sonhos trocados

com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado

um funcionário triste

a minha alma não acompanha a minha mão

Débito e Crédito Débito e Crédito

a minha alma não dança com os números tento escondê-la envergonhado

o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente

e debitou-me na minha conta de empregado

Sou um funcionário cansado dum dia exemplar

Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?

Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas

Flor rapariga amigo menino

irmão beijo namorada

mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho

palavras soterradas na prisão da minha vida

isto todas as noites do mundo uma noite só comprida

num quarto só

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