Na terceira projeção da competição de longas-metragens da MONSTRA 2018, Uma Voz Silenciosa representou o cinema japonês.

Shoko Nishimiya, uma menina surda, muda-se para uma nova na escola básica. Na sua
turma conhece um rapaz , chamado Shoya Ishida. Shoya persuade a turma a gozar com Shoko, mas, à medida que o abuso continua, a turma começa a repreendê-lo pelas suas atitudes. Mais tarde, atormentado pelo seu passado, Shoya decide que tem de ver Shoko mais uma vez.

Realizado por Naoko Yamada a película é baseada na manga de Yoshitoki Oima, tendo o seu texto adaptado ao grande ecrã por Reiko Yoshida. 

Uma Voz Silenciosa é um retrato sobre as relações humanas. O tema da conversa varia subtilmente entre a depressão, solidão e trauma, numa dinâmica em que cada personagem foge do seu próprio passado. O filme oferece uma poderosa reflexão, não sobre a capacidade de perdoar, mas sobre a capacidade de seguir em frente.

A animação é meticulosa logo pela imitação de desfoques de câmara através do desenho e pela utilização de um excesso de luz, que tinta as imagens com a ideia de memória. A montagem é rápida, utilizando recorrentemente sequências de imagens que funcionam como sinopses nervosas de associação a momentos passados. A película nunca se esconde no seu estilo: as cruzes que Ishida vê nas caras dos seus colegas são simbólicas, mas não determinantes. Nunca se tenta apontar para o estilo para realçar a sua presença ou importância e deste modo a película evita o auto-elogio.

Shoko e Shoya iluminam o ecrã cada vez que se juntam. Os momentos de silêncio entre ambos transbordam de intensidade. A forma como a sua presença se comunica e se relaciona é esteticamente poderosa, como se se completassem mutuamente. Inteligentemente edificada, a película manipula a sua audiência a acreditar num falso romance. As relações possuem todas este carácter ilusório, o que deixa a audiência em desvantagem.

A estas particularidades acresce-se a narrativa, fugaz, que não se problematiza em suspense ou se restringe pelas normas clássicas. Somos por vezes desamparados por atitudes conflituosas, que nos fazem questionar as relações entre as personagens. Não existe o heroísmo “hollywoodiano”, a personalidade “perfeita” ou não moralmente condenável – estas normas são subvertidas. Yamada interessa-se apenas pelos assuntos difíceis, pelas falhas num mundo feito para parecer perfeito.

Ishida e Nishimiya, uma história de amizade

O personagem principal funciona como antagonista. Odiado desde logo pelos seus comportamentos maldosos, Ishida poderia ser um simples vilão tornado em herói. No entanto, esta é a sua história e, mais que submeter o ex-agressor a uma máquina de validação, acompanhamos a sua própria luta interna, que nada tem que ver com as expectativas do público.

Nishimiya funciona como o catalisador, o ponto de ignição para as alterações na vida do jovem rapaz. O truque de suspensão que melhor funciona é o principio de fazer a audiência acreditar que tudo passa por Nishimiya. A história diz-nos repetidamente que não, que esta é a história de Ishida, mas a provocação mantem-nos caprichosamente entretidos.

Uma Voz Silenciosa é um exuberante produto visual que correlaciona em proximidade os traços característicos da animação japonesa com uma abordagem narrativa pouco ortodoxa. A excentricidade visual e da respectiva montagem são apostas arriscadas, que provam a ousadia da realização de Yamada. Ainda que a realizadora nunca consiga afastar o tom adolescente da sua história, as personagens são suficientemente complexas para o ocultar.

O humor combina com o drama de formas particulares. Na verdade, todo o ritmo da história, bem como as personagens, são particulares. Somos levados a crer em facilitismos, em fugas românticas, humorísticas, fatalísticas ou até apaziguadoras. No entanto, tal como as cruzes de Shoya negam a identidade aos estranhos, também o filme nos negas as saídas fáceis. Shoya quer saber como se relacionar novamente com os outros, quer saber o que é a amizade. Yamada mostra-nos como lá chegar, através da sua estranha e conflituosa forma, pela sua voz que no silêncio aprende a gritar.

7/10

Título: Uma Voz Silenciosa
Realização:  Naoko Yamada
Argumento: Reiko Yoshida
Elenco (vozes): Miyu Irino, Saori Hayami, Aoi Yûki Yui Ishikawa
Género: Animação, Drama, Romance
Duração: 130 minutos