Selfie
Foto: Sérgio Baia/divulgação

‘Selfie’: um auto-retrato da sociedade em cena

Chegou aos palcos portugueses a peça Selfie, que já está há mais de dois anos a ser apresentada no Brasil e nos Estados Unidos. O elenco é composto apenas por dois atores, Mateus Solano e Miguel Thiré, mas o leque de personagens é muito maior.

Selfie conta a história de um homem, Cláudio, que vive completamente ligado ao mundo digital e às redes sociais. Tem a ambição de criar uma cloud única onde consiga armazenar toda a sua informação, mas um acidente com uma chávena de café faz com que perca tudo.

Segue então numa jornada para descobrir os seus dados e recuperar a memória. E também recuperar a sua pessoa, porque quem não tem um perfil online não existe, claro. Cláudio é interpretado por Mateus Solano, que vai procurar a ajuda de diferentes pessoas, sempre interpretadas por Miguel Thiré.

Os atores nunca saem do palco, cujo cenário contém apenas dois bancos redondos. O trabalho de luzes ajuda a criar o ambiente, mas o espetáculo vive das capacidades interpretativas da dupla brasileira, que consegue transportar a audiência para as situações que se desenrolam. Claro que as selfies também são abundantes, por isso o disparar da câmara e as notificações são os sons presentes ao longo da história.

Um ator, onze personagens

Miguel Thiré, brasileiro que se mudou para Portugal há dois anos, mostra a sua versatilidade ao desempenhar onze papéis. De todas as faixas etárias, estilos e género, entra com facilidade na nova pele.

São de destacar a interpretação de mãe do Cláudio, do velhinho senhor Inocêncio, e de namorada de Cláudio. Foram as que arrancaram mais gargalhadas ao público e também as mais incomuns. Nenhuma destas personagens corresponde à sua imagem, um homem de 35 anos considerado galã das novelas e, por isso, um desafio para o ator.

Solano, cara já conhecida dos portugueses pelas novelas da Globo, entrega um homem em constante conflito interno, que espelha os sentimentos dos espetadores. As reações à trama são maioritariamente de reconhecimento das próprias ações e da realidade que se vive hoje.

É também essencial a química entre a dupla de atores, cujas interações variam de estilo e também de proximidade. O timing das punchlines está oleado entre os dois.

Algo que funciona bem é a mistura de referências portuguesas e brasileiras. A plateia era composta por pessoas de ambas as nacionalidades, que se conseguiram rir com as diferentes alusões à cultura pop de cada país, quer com locais, personalidades ou até memes.

Viver na era da informação

O tema continua intemporal, sendo que os avanços tecnológicos não param e o texto da peça também vai sendo atualizado. Até numa história sobre os perigos da tecnologia é possível ver o ocasional brilho dos ecrãs na plateia, o que demonstra a sua pertinência. No fim da peça, os atores convidaram quem quisesse a ficar para um “bate-papo”, que dizem que os tem ajudado a dar uns retoques ao espetáculo.

Com direção de Marcos Caruso e texto de Daniela Ocampo, Selfie é uma reflexão sobre a tecnologia e como esta afeta a maneira de pensar e as relações entre as pessoas. Com muito humor à mistura, tem também momentos sérios e essencialmente de sátira da realidade atual.

Ainda podes assistir…

A peça estreou a 7 de março no Teatro Tivoli BBVA, onde fica em cena até 18 de março. Depois segue para norte, onde assenta nos palcos do Teatro Sá da Bandeira, no Porto, de 22 a 25 de março. Os espetáculos são de quarta a sábado, às 21h30, e domingo, às 17h. Os preços vão de 12,50 euros a 25 euros.

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