Segundo filme da trilogia de Jian Liu – realizador vencedor do prémio de Melhor Longa-Metragem da MONSTRA em 2011 – Tenha um Bom Dia chegou agora à edição de 2018 do festival. Liu volta assim a repetir a nomeação na mesma categoria.

Tenho um Bom Dia acompanha o rescaldo do assalto de Xiao Zhang, um mero motorista. Envolvido num mundo de gangsters hitmans, Zhang rouba um milhão de yangs ao seu patrão para pagar a cirurgia plástica falhada da sua noiva. Quando as notícias do furto se alastram pela cidade, durante uma só noite, um pelicular grupo junta-se para resgatar o dinheiro. O resultado é uma viagem neo-noir entre a chuva torrencial na pequena cidade do sul da China.

A película já deu que falar por ser notoriamente impedida de figurar na edição do ano passado do festival Annecy, em França, pelo governo chinês. Isto porque o retrato da China contemporânea e das condições de vida desagradou ao próprio país de origem.

A narrativa multiplica-se num leque de personagens. Há o casal sonhador, a oportunista, o ladrão, o assassino, o patrão, o assistente e o inventor. O cruzamento de todos só poderá ser fatal. A mistura entre diferentes gerações e raízes proporciona uma oportunidade de retratar a China moderna.

A película é pautada por um ritmo lento, em que vamos conhecendo aos poucos todos os intervenientes da trama. Saltando entre episódios, presenciamos conversas sobre startups, internet, política e até ouvimos Donald Trump a discursar na rádio. Os diálogos são propositadamente absurdos e dramatizados, repletos de metáforas e alegorias.

Jian Liu sublinha na sua história a pertinência da tecnologia: os telemóveis, por exemplo, interrompem muitas vezes as cenas com estridentes toques polifónicos. Os dispositivos móveis percorrem a película como marca dos tempos modernos, dos pequenos vícios, comuns até aos hitman. A conotação política também está presente na narrativa e a China é muitas vezes comparada com a Coreia do Sul.

A história leva-nos a conhecer o submundo chinês. Aqui o guião, nunca de forma declaradamente política, fala da crescente obsessão pelo dinheiro e a sua preciosa contribuição para a liberdade dos indivíduos. A comédia negra aborda o desencanto da vida quotidiana chinesa. Tenha um Bom Dia resguarda o seu visual em tons esverdeados, escuros e pesados. Os cenários têm um aspecto decadente, num apontamento face ao urbanismo obsoleto. A chuva, que preenche a cena final, realça o descarregar da tensão narrativa, pronunciando o final dramático que estamos prestes a assistir.

A película, já comparada aos temas dos primeiros filmes de Quentin Tarantino, é crua na sua descrição da violência. Já os tiques metódicos de A De (o assassino contratado) comparam-se àquele de Vithaya Pansringarm de Only God Forgives (2015). A personagem que mais triunfa é, no entanto, o big boss, que entrega os melhores monólogos do filme.

O estilo empreendido é ora contido ou absurdo. A cena tipo videoclipe, que interrompe a história, é prova disso mesmo. A sua vertente humorística é ainda assim exacerbada o suficiente para se enquadrar no filme. O ritmo lento e a impaciente troca de personagens tornam difícil seguir a narrativa. Os diálogos, ainda que pertinentes e reveladores das intenções das personagens, são por vezes ininteligíveis. As personagens que, na verdade, estão todas ligadas por um objetivo comum parecem às vezes não partilhar o mesmo mundo.

O absurdismo da película consegue muitas vezes engolir a narrativa e qualquer mythos que se possa avistar. O tom humorístico acerta em algumas notas, mas não consegue salvar o filme. Jian Liu toca em pontos sensíveis da sociedade contemporânea chinesa, mas fá-lo num estilo muito próprio e que pode levantar a questão de quem o pode ter realmente entendido.

6/10

Título: Tenha um Bom Dia
Realização: Jian Liu
Argumento: Jian Liu
Elenco (vozes): Changlong Zhu, Kai Cao, Jian Liu e Siming Yang
Género: Animação, Comédia, Crime
Duração: 77 minutos