No segundo dia de competição de longas-metragens da MONSTRA 2018 foi exibido o segundo candidato ao prémio de Melhor Longa-MetragemEthel & ErnestO filme segue a vida da criada Ethel e do leiteiro Ernest. Desde a sociedade estratificada dos anos 20 até à alunagem em 1969, vemos através dos olhos do casal os momentos mais desafiantes do século XX. Uma história de amor, um tributo apaixonado a um casal comum e uma geração extraordinária.

Com a realização e o guião a cargo de Roger Mainwood, a história é baseada no livro de 1998 com o mesmo nome. O enredo é extraído da realidade por Raymond Briggs, autor do romance ilustrado e filho do casal que representa. A produção conta ainda com as vozes de Jim Broadbent e Brenda Blethyn nos papéis principais.

Ethel & Ernest é uma divertida e familiar adaptação, que percorre alguns dos mais marcantes acontecimentos do século passado. A organização da narrativa é feita de forma clássica, ainda que a sua estrutura se assemelhe mais a uma série de episódios. Inicialmente conhecemos o jovem casal, pertencente a classes baixas, mas que sonham ter uma vida juntos. Quando se casam, Ethel Ernest são as estrelas de cenas do quotidiano. O filme é quase todo centrado na sua casa. Entre o quarto com janelas francesas e o jardim, que um dia chega a ter um refúgio para as bombas nazis, pouco muda em 40 anos.

Ao longo das quatro décadas o espectador é situado historicamente por Ernest. O pai de família senta-se repetidamente na mesa da sala a ler o jornal do dia em voz alta. Juntos o casal comenta, muitas vezes com opiniões contrárias, o que se passa lá fora e em que medida isso os pode afectar. O tom das conversas alterna entre as preocupações com a guerra, a diminuição dos salários e a recorrente disputa entre trabalhistas e conservadores.

Também a rádio nos fazer saber dos últimos progressos de Hitler, dos comunicados de Churchill e do decorrer da segunda guerra mundial. As intervenções nestes momentos são frequentemente humorísticas e o casal tenta adaptar-se aos tempos.

Há também espaço para o drama da guerra, que mostra sem medos os danos do blitz londrino. Mainwood não se poupa quando chega o momento de dar a más notícias. A película nunca se esconde no seu tom aparentemente singelo. Ethel chora diversas vezes, mas é possível perceber quais aquelas que são verdadeiramente sentidas. Os grandes temas da morte, guerra e da perda são retratados com naturalidade e existe até a ousadia de mostrar o corpo de Ethel sobre uma maca na morgue.

Homenagem num estilo clássico

A animação, fiel aos desenhos de Briggs, é um regresso à formula clássica de lápis e esboço. A palete de cores pastel dão vida a um ambiente particularmente britânico. A banda-sonora reforça este aspecto, com Paul McCartney a contribuir com o tema “In the Blink of an Eye”.

Os visuais clássicos são competentes para entregar, juntamente com o guião, um filme divertido, trágico e amoroso. O estilo episódico talvez se aplicaria melhor a uma série, dando a ideia de que existia terreno para dissecar mais extensamente certos acontecimentos. A visão que nos é dada tenta cobrir muitos eventos sem se concentrar em nenhum em particular. O efeito de fade para a tela negra, de forma a marcar a mudanças temporais, atrapalha constantemente o filme. A dinâmica da narrativa tropeça cada vez em que existe uma cena de apenas alguns minutos e é logo interrompida por uma visão do nada.

Raymond Briggs oferece um homenagem que é certamente mais que elogiosa. O casal que o viu nascer é feito grande pelas suas pequenas particularidades do dia-a-dia.

6/10

Título: Ethel & Ernest
Realização: Roger Mainwood
Argumento: Roger Mainwood
Elenco (vozes):  Jim Broadbent, Brenda Blethyn, Pam Ferris Roger Allam
Género: Animação, Drama, História
Duração: 94 minutos