Corpo

corpo

que te seja leve o peso das estrelas

e de tua boca irrompa a inocência nua

dum lírio cujo caule se estende e

ramifica para lá dos alicerces da casa

 

abre a janela debruça-te

deixa que o mar inunde os órgãos do corpo

espalha lume na ponta dos dedos e toca

ao de leve aquilo que deve ser preservado

 

mas olho para as mãos e leio

o que o vento norte escreveu sobre as dunas

 

levanto-me do fundo de ti humilde lama

e num soluço da respiração sei que estou vivo

sou o centro sísmico do mundo

Al Berto. A Noite Progride Puxada à Sirga

Foto: Flickr

Alberto Raposo Pidwell Tavares, conhecido por Al Berto, foi um poeta, pintor e editor português. Nasceu em Coimbra e 1948, mas passado um ano, a família muda-se para Sines, onde o poeta cresceu.

Nascido numa família da alta burguesia portuguesa, o seu comportamento irreverente foi desde cedo a afirmação da sua potência artística.

Estuda em Lisboa, na Escola António Arroio, rumando à Bélgica em 1967, exilado. Lá, estuda pintura, mas aquando do 25 de abril, no regresso a Sines, o poeta dedica-se quase exclusivamente à literatura e à edição.

A sua obra poética pode ser grosseiramente classificada em dois períodos: um primeiro, onde o poeta retoma a herança surrealista numa atenção particular ao quotidiano (em livros como À Procura de um Jardim d’Agosto), seguindo-se de uma fase fragmentária, ambígua, lunar (como é possível deslindar na sua obra magna O Medo).

Morreu em Lisboa, em 1997, vítima de linfoma.

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Foram Breves e Medonha as Noites de Amor

foram breves e medonhas as noites de amor

e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo

habitado ainda por flutuantes mãos

 

estava nu

sem água e sem luz que lhe mostrasse como era

ou como poderia construir a perfeição

 

os dias foram-se sumindo cor de chumbo

na procura incessante doutra amizade

que lhe prolongasse a vida 

 

e uma vez acordou

caminhou lentamente por cima da idade

tão longe quanto pôde

onde era possível inventar outra infância

que não lhe ferisse o coração

Al Berto. O Medo

O Medo publicado em 1987 é talvez a antologia poética mais marcante da obra de Al Berto e uma das que pode resumir todo o seu trajeto artístico.

Novamente com um tema humano na chave das sensações do quotidiano, esta antologia surge como uma reflexão sobre o medo, sobre a dor, sobre a perda. “Escrevo para não me deixar invadir pelo medo”.

Numa espécie de diário das sensações, a lugubridade a que Al Berto é frequentemente associado consolida-se neste O Medo. Valeu ao poeta o Prémio PEN Club de Poesia, tendo sido re-editado inúmeras vezes desde a primeira edição, mesmo até após a sua morte.

Os Amigos

no regresso encontrei aqueles

que haviam estendido o sedento corpo

sobre infindáveis areias

tinham os gestos lentos das feras amansadas

e o mar iluminava-lhes as máscaras

esculpidas pelo dedo errante da noite

 

prendiam sóis nos cabelos entrançados

lentamente

moldavam o rosto lívido como um osso 

mas estavam vivos quando lhes toquei

depois

a solidão transformou-os de novo em dor 

e nenhum quis pernoitar na respiração do lume

 

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar

a flor que murcha no estremecer da luz

levei-os comigo

até onde o perfume insensato de um poema 

os transmudou em remota e resignada ausência

Al Berto. Sete Poemas do Regresso de Lázaro

Al Berto: a adaptação ao cinema de Vicente Alves do Ó

Em outubro de 2017, estreou nos cinemas o filme sobre o poema Al Berto. Em conversa com o realizador, Vicente Alves do Ó, Espalha-Factos desvendou alguns dos aspetos da conceção do filme.

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Mas no fundo, e tendo sido o realizador intímo do próprio Al Berto, a intenção resume-se no deslindar do trajeto de vida do poeta, das controvérsias e extravagâncias em Sines, e surge quase como uma explicação biográfica da sua obra.

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