Mário Cesariny nasceu a 9 de agosto de 1923, em Lisboa.

Poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta e tradutor, Mário Cesariny é considerado um dos expoentes máximos do surrealismo português, tendo influenciado diferentes artistas portugueses.

Paralelamente, dedicou-se também às artes plásticas, tendo frequentado o curso de Belas Artes em Lisboa e Paris.

Interessou-se, ainda, pela música, tendo estudado com o compositor Francisco Lopes Graça.

Colaborou em diversas publicações periódicas, como a Pirâmide, o Jornal de Letras e Artes e Cadernos do Meio-Dia, entre outras.

 

mário cesariny

Foto: site oficial da Fundação Cupertino de Miranda

Aliança entre poesia e pintura em Mário Cesariny

As primeiras pinturas, poemas e desenhos de Cesariny encontram-se datadas no início da década de quarenta.

A poesia e a pintura são marcadas por uma espontaneidade e um carácter subversivo.

Está, ainda, presente, uma dimensão onírica e mágica, com predomínio da desordem e da cor associadas ao próprio surrealismo.

A sua poesia caracteriza-se pelo vivo e lúcido sarcasmo, pelo impetuoso e angustiante lirismo, assente numa linguagem rica de expressões antagónicas, de imagens, e de sugestões peculiares.

A sua extensa obra literária de antologista, compilador e historiador das atividades surrealistas em Portugal é notável, sendo considerada um dos melhores contributos para a história da poesia portuguesa contemporânea.

 

You are welcome to Elsinore

«Entre nós e as palavras há metal fundente

entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos a morte      violar-nos     tirar

do mais fundo de nós o mais útil segredo

entre nós e as palavras há perfis ardentes

espaços cheios de gente de costas

altas flores venenosas      portas por abrir

e escadas e ponteiros e crianças sentadas

à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos

há palavras de vida há palavras de morte

há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar

há palavras acesas como barcos

e há palavras homens, palavras que guardam

o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,

as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras nocturnas palavras gemidos

palavras que nos sobem ilegíveis à boca

palavras diamantes palavras nunca escritas

palavras impossíveis de escrever

por não termos connosco cordas de violinos

nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar

e os braços dos amantes escrevem muito alto

muito além do azul onde oxidados morrem

palavras maternais só sombra só soluço

só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados

e entre nós e as palavras, o nosso dever falar»

Pena Capital, Assírio & Alvim

 

O Surrealismo: um modo de sublevação na arte e na vida

 

«Eu acho que se se é surrealista, não é porque se

pinta uma ave, ou um porco de pernas para o ar.

É-se surrealista porque se é surrealista!»

 Autografia, Assírio e Alvim

 

Em 1947, após um encontro com o poeta e ensaísta francês André Breton, Mário Cesariny cria, em parceria com Alexandre O’Neill, Cândido Costa Pinto, João Moniz Pereira, entre outros, o Grupo Surrealista de Lisboa, que se reunia na Pastelaria Mexicana.

Por divergências ideológicas com este grupo, acaba, mais tarde, por se afastar, criando o grupo Surrealista Dissidente.

António Maria Lisboa, Artur do Cruzeiro Seixas, Fernando José Francisco, Mário-Henrique Leiria, Pedro Oom e Risques Pereira são alguns dos autores que integram este novo grupo surrealista.

Em 1949, redigiu, com estes elementos, o manifesto coletivo A Afixação Proibida e promoveu as sessões O Surrealismo e o seu Público, em 1949.

O surrealismo caracteriza-se, por excelência, como a corrente artística moderna da representação do irracional e do subconsciente.

O seu propósito era a restauração dos sentimentos humanos e do instinto como ponto de partida para uma nova linguagem artística.

Nesse sentido, tornava-se fundamental que o homem tivesse uma visão totalmente introspetiva de si mesmo e encontrasse esse ponto do espírito, no qual a realidade interna e externa fossem percebidas isentas de contradições.

A fantasia, os estados de tristeza e de melancolia exerceram um grande fascínio sobre os surrealistas.

Poeta e artista premiado

A contribuição para a arte portuguesa do século XX foi reconhecida, tendo-lhe sido atribuído o Grande Prémio EDP 2002.

Em 2005, recebeu o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (APE) e foi condecorado pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.

Mário Cesariny faleceu no dia 26 de novembro de 2006, vítima de cancro da próstata. Em 2016, os seus restos mortais foram trasladados do Talhão dos Artistas do Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, para um jazigo individual, numa cerimónia presidida pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

A sua obra ficou perpetuada no documentário Autografia, de Miguel Gonçalves Mendes, realizado em 2004, e na atribuição do seu nome a uma rua em Entrecampos, em Lisboa.

Por via testamentária, deixou um milhão de euros à Casa Pia e doou, ainda em vida, o seu espólio à Fundação Cupertino de Miranda.

LÊ TAMBÉM: MARÇO É O MÊS DOS POETAS: #7 HERBERTO HELDER