Argumentista bem reputado de filmes como 28 Dias Depois (2002) e Nunca Me Deixes (2010), Alex Garland parecia destinado a feitos maiores. Passando adiante os rumores de que basicamente terá realizado Dredd (2012), o autor britânico deu o seu primeiro passo oficial atrás das câmaras com Ex Machina em 2014. O sci-fi complexo e desafiador foi aclamado pela crítica e venceu, com surpresa, o Óscar para Melhores Efeitos Visuais, juntando-se a uma nomeação a Melhor Argumento Original para o próprio Garland.

Um segundo projeto na realização surgiu com a adaptação ao grande ecrã de Aniquilação, primeiro livro da aclamada trilogia Área X de Jeff VanderMeer. Outrora um projeto aguardado – algo que mudou depois de uma sucessão de fracassos comerciais com cunho de autor, como mãe! e Suburbicon – a Paramount optou por vender os direitos de exibição internacionais de Aniquilação à Netflix. A venda de uma obra tida por demasiado complexa a um serviço de streaming caiu com desagrado aos cinéfilos e até ao próprio Garland, mas não havia nada mais a fazer. E eis que, 17 dias depois de afundar na bilheteira americana, o filme chega finalmente às salas de estar de todo o mundo; seria assim tão difícil de fazer lucrar?

Lena (Natalie Portman) é uma bióloga e antiga militar que há um ano que não tem notícias do marido, Kane (Oscar Isaac), que partiu numa missão confidencial do exército. Quando este aparece misteriosamente em casa, não parece ser o mesmo homem de antigamente, e depressa revela sinais de um padecimento desconhecido. Após serem capturados pelo Governo, Lena é informada daquela que foi a missão do seu marido: a exploração de lugar vedado, “The Shimmer”, um fenómeno sinistro e obscuro que se expande continuamente ao largo da costa Americana, lugar do qual Kane foi a primeira e única pessoa a sair em três anos.  Quatro cientistas (Jennifer Jason Leigh, Tessa Thompson, Gina Rodriguez e Tuva Novotny) estão prestes a embarcar numa nova expedição e Lena junta-se a elas, a fim de alcançarem o epicentro do evento – um farol. Uma vez dentro do “Shimmer”, as cinco mulheres encontram um mundo de paisagens em mutação e criaturas tanto perigosas como belas, um cenário que põe em risco as suas vidas e sanidade.

aniquilação

Fonte: Divulgação/Paramount Pictures

Garland não brinca nesta segunda entrada oficial na cadeira de realizador. Uma caminhada por uma floresta quase saída de um conto de fadas, vibrante em todos os seus mistérios, à medida que vira absoluto pesadelo. É a conjugação perfeita de cinematografia, mistura de som e CGI. Por muito que este último por vezes pareça estranhamente datado, chamar-lhe-íamos o toque de midas, no obnóxio que tão arrojadamente cria.

De vistas belas e de fazer cair o queixo, a acabar em cenas de body horror a afastar os mais sensíveis, Aniquilação é ficção científica pura e dura, com um detour emocional encaixado e pleno de propósito. A demanda é praticamente suicida e as protagonistas sabem-no, e é aqui o argumento de Garland dá o salto dramático. Uma divagação quase silenciosa, mas sentida, sobre o que significa a sanidade e onde acaba um casamento, que eleva uma obra que já se afigurava tão grandiosa a um patamar superior.

E falemos de quem tanto se ressente: podemos dizer que Portman está esplêndida, como sempre. Lena agarra-nos com as questões que dão o mote ao esquema narrativo e, a partir daí, cada olhar triste da israelo-americana conduz-nos em falsa frieza, rumo ao desarmante destino final. De relevo, também Thompson, como a mais inocente das cinco corajosas, a desvanecer-se na mais solitária desolação. Mencionar ainda Jason Leigh, que entrega um monólogo, à beira do clímax da fita, com tanto de desconexo quanto de perturbador.

aniquilação

Fonte: Divulgação/Paramount Pictures

E quanto a esse clímax saem-se parcas as palavras para o descrever. Um sonho febril, qual experiência fora-de-corpo. Testemunhá-lo é o culminar de uma expedição que até a quem está a ver parece proibida. Em dez minutos Garland consegue o feito supremo que tantos tentam e poucos conseguem – a criação do inesquecível, a definição do inimaginável, um momento do qual ninguém sai incólume e muito menos indiferente. Uma amostra de cinema poderoso, que eleva mais alto a arte de contar histórias, de permitir o maravilhamento e de atordoar com o terror; não sabemos o que lhe deu, mas boa sorte a esquecermos.

Em boa verdade, Aniquilação acaba por ser uma fita aniquiladora. Quase como se propusesse um antes e um depois aos corajosos que desbravem a provação que retrata. Um lugar qual pintura surrealista, na qual o belo está na cor, mas onde estarrecimento se alheia nos contornos. É uma mão cheia de tanto para todos, cinéfilos, meros amantes da possibilidade mais pura de sermos manipulados; um jogo esotérico que quebra convenções e que, até findar, nunca desiste de nos abrir os olhos e de violentamente nos expandir a mente.

Comercialmente, uma proposição difícil. Mas isto pedia, isto clamava.

Por cinema.

9/10

Título original: Annihilation
Realização: Alex Garland
Argumento: Alex Garland
Elenco: Natalie Portman, Jennifer Jason Leigh, Oscar Isaac, Tessa Thompson, Gina Rodriguez, Tuva Novotny, David Gyasi
Género: Aventura, Drama, Fantasia
Duração: 115 minutos