Tríptico

«Não sei como dizer-te que minha voz te procura

e a atenção começa a florir, quando sucede a noite

esplêndida e vasta.

Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos

se enchem de um brilho precioso

e estremeces como um pensamento chegado. Quando,

iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado

pelo pressentir de um tempo distante,

e na terra crescida os homens entoam a vindima

— eu não sei como dizer-te que cem ideias,

dentro de mim, te procuram. (…)»

Poesia Toda (1990)

Herberto Helder de Oliveira foi um poeta português, considerado o mais influente da segunda metade do século XX.

Herberto

Foto: Wook

Sobre um Poema

«Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.»

Nasceu em 1930, no Funchal, onde concluiu o 5.º ano. Em 1948, matriculou-se em Direito na Universidade de Coimbra, acabando por trocar para Filologia Românica, que frequentou durante três anos, sem terminar. Teve inúmeros trabalhos e colaborou em vários periódicos como A BriosaRe-nhau-nhauBúzioFolhas de PoesiaGraalCadernos do Meio-diaPirâmideTávola RedondaJornal de Letras e Artes.

Publicou o seu primeiro poema em Coimbra, em 1954. Quatro anos mais tarde publica O Amor Em Visita.

O Amor em Visita

«(…) Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
– Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua. (…)»

Casou duas vezes. A primeira com Maria Ludovina Dourado Pimentel, de quem tem uma filha, e com Olga da Conceição Ferreira Lima.

É pai do jornalista Daniel Oliveira, nascido da relação que teve com Isabel Figueiredo.

No Sorriso Louco das Mães

«(…) O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães. (…)»

A Colher na Boca (1961)

Em 1969, trabalhou como diretor literário da editorial Estampa e em 1994, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa, que o autor recusou. Faleceu em Cascais, a 23 de março de 2015, com 84 anos.

Com uma vida instável e quase anónima, ficam apenas os versos que nos mostram um escritor audaz, que chegou a publicar, para além de poesia, ficção, crónicas e reportagens.

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