King Gizzard & the Lizard Wizard foram confirmados para o Vodafone Paredes de Coura 2018. O septeto australiano regressa ao palco onde atuou em 2016, onde abriu as portas do infinito com a sua obra-chave Nonagon Infinty (2016). Não foi, no entanto, ainda anunciado o dia da atuação da banda.

Desde 2016 até agora, muito se passou. O ano de 2017 foi de produção a um nível industrial no que toca à música criada por Stu Mackenzie e a sua companhia infinita: cinco álbuns foram a promessa. E a promessa foi cumprida. A propósito do regresso desta banda, o Espalha Factos sugere uma retrospetiva do último ano, que nos trouxe tanta e boa música.

Flying Microtonal Banana

Foi o primeiro trabalho a ser lançado, em fevereiro. É o primeiro álbum após o estrondoso Nonagon Infinity, do ano anterior. O som é novo. A experimentação atinge aqui um novo patamar: a microtonalidade é a base de todo o disco. Como explicar a microtonalidade de maneira simples? Peguemos num Piano. Imaginemos que existem teclas entre as teclas já existentes.

Embora seja um conceito ainda estranho à civilização ocidental, que está habituada a uma escala de 12 tons de temperamento (distâncias entre as notas) igual desde sensivelmente o séc. XVIII (os dois volumes do Cravo Bem Temperado (1720-1722; 1739-1742) de Johann Sebastian Bach (1685-1750) são, por excelência, a Bíblia da linguagem musical tonal), a música oriental, de uma maneira geral, aborda a questão da escala e das afinações de maneira muito diferente. Por exemplo, o Sitar, instrumento de cordas dedilhadas da família do Alaúde de origem indiana, apresenta trastes móveis, que permitem precisamente esta fluência de afinações, resultando em intervalos diferentes de nota para nota.

A proposta dos King Gizzard & the Lizard Wizard é a de precisamente distanciarmo-nos um pouco deste sistema de afinação igual. A ideia é a de unir o Rock Psicadélico à música tradicional de terras orientais, nomeadamente da Turquia, de onde o vocalista e líder, Stu Mackenzie, confessou retirar a inspiração para a obra.

Murder of the Universe

É o segundo álbum do ano, de junho. De volta ao sistema de afinação tipicamente ocidental, a sonoridade pesada leva-nos de volta para o imaginário de Nonagon Infinity. Esta obra tem uma arquitetura própria: divide-se em três capítulos, que contam diferentes histórias. O primeiro, The Tale of the Altered Beast, de nove músicas, é inspirado num videojogo da SEGA de 1988, intitulado Altered Beast. Depois, The Lord of Lightning vs Balrog conta a história da batalha entre estes dois adversários épicos. Por fim, Han-Tyumi and the Murder of the Universe, o último capítulo, relata a existência de um ciborgue na primeira pessoa. Han-Tyumi (anagrama para “Humanity”), deseja recuperar a sua humanidade e sentir duas coisas que a sua condição impede: morrer e vomitar.

Sketches of Brunswick East

Lançado em agosto, é o terceiro álbum do ano. Feito em colaboração com os Mild High Club, o disco é uma referência ao subúrbio de Brunswick East, em Melbourne, e ao álbum de Miles Davis, Sketches of Spain (1960). O Jazz foi a inspiração central neste trabalho de colaboração entre as duas bandas.

Polygondwanaland

O quarto disco foi lançado para o domínio público em novembro. A banda não vendeu qualquer cópia do trabalho. Antes, sugeriu aos fãs que vendessem eles próprios as cópias do álbum, com as suas próprias versões em disco e vinil, dando largas à criatividade no que toca ao formato físico da obra.

Tematicamente, Polygondwanaland assenta sobre o número quatro, não fosse ele o quarto álbum do ano. A mensagem é claramente de cariz ambiental e coloca a Humanidade no centro da sua própria catástrofe. Crumbling Castle, a primeira canção, é um ótimo exemplo para ilustrar este pensamento: “I see through the bricks, to the sea, crumbling castle / Waters rising up, thick and green, crumbling castle / Inching closer each century, crumbling castle / Are we safe in our citadel?”.

Gumboot Soup

Por fim, Gumboot Soup é a síntese de um ano em cheio para os King Gizzard and the Lizard Wizard. O quinto e último disco, lançado no último dia de 2017, é uma sopa repleta de ingredientes dos quatro álbuns anteriores. A obra apresenta apenas músicas que, por diversos motivos, não se enquadraram nesses álbuns. A sonoridade tanto percorre a descontração de Beginners’ Luckcomo a fúria da destruição de The Great Chain of Being.

Em jeito de conclusão, o que esperar de 2018? Não se sabe ainda. Também merecem um descanso, apesar de não mostrarem sinais de quererem abrandar. Em agosto, apresentam-se no Vodafone Paredes de Coura. Que músicas novas nos vão presentear até lá? Uma coisa é certa: com a rapidez com que criam, a fome por um novo disco já se começa a sentir.