Começou ontem a exibição da competição de longas-metragens da MONSTRA 2018, sendo A Ganha-Pão o primeiro filme a ser exibido. Com um auditório preenchido, o filme nomeado aos Oscars e aos Golden Globes era um dos mais antecipados.

A Ganha-Pão conta a história de Parvana, uma menina de 11 anos que vive com a sua família em Kabul, capital de um Afeganistão devastado pela guerra. Quando o seu pai é preso, a vida de Parvana muda para sempre. Numa época em que as mulheres não estão autorizadas a sair de casa sem um homem, a sua família fica sem alguém que a sustente. Parvana então decide disfarçar-se de rapaz, tornando-se no ganha-pão da família.

A realizadora Nora Twomey, estreante na realização a solo, já tinha colaborado no direção artística de Song of the Sea (2014). Na sua estreia, Twomey edifica uma poderosa história, que se faz acompanhar por uma belíssima animação. O argumento de Anita Doron é cuidadosamente elaborado, balançando o tom político, social e a vertente educativa que procura oferecer.

Fonte: GKIDS

O ritmo da película é inicialmente lento, com as estruturas narrativas a desempenharem primeiramente uma função contextual/explicativa. Após o aprisionamento do pai de Parvana, existe um sentimento de desespero palpável. A carga dramática é sublinhada pelo momento em que a mãe da família é espancada, ainda que em off-screen. O tom é elevado a um diálogo cru, mas nunca exaustivo. A estrutura episódica em que a película se instala não é de todo novidade, o que contribui para um excessivo sentimento de verosimilhança entre cenas.

A Ganha-Pão desenvolve-se narrativamente entre duas histórias em paralelo. Num primeiro plano temos a história de Parvana, contada ao desnudo, mundana. Situada dentro desta narrativa temos um conto mágico sobre uma personagem que deve enfrentar um Elefante gigante. Ambos servem um propósito distinto, sendo a sua animação radicalmente distinta.

Este será um das grandes mais-valias da película. A composição artística oferece a oportunidade de desenvolver dois planos estéticos animados de formas diferentes, com personagens e tons diversos. A Kabul enevoada de pó e revestida de figuras altivas é substituída por um conto colorido, humorístico em períodos, que marca o ponto alto da animação. A estética inspirada pela cultura afegã, equipara-se aquela de Coco (2017) no processo de adaptar a cultura imagética (e não só) do seu país cenário.

“Raise your words, not your voice. It is rain that makes the flowers grow, not thunder”

A Ganha-Pão lembrará inevitavelmente Persépolis (2007), ainda que sejam vastamente distintos. São ambos bons exemplos do resgatar de questões históricas e sociais. A película vive para lá da sua óbvia mensagem política, destacando-se pelo maturidade do seu diálogo e das suas imagens.

A Ganha-Pão é um exercício visual rico, apesar do seu guião nem sempre se equiparar às imagens. A sua história é sempre coerente e Twomey consegue encontrar os momentos certos para avançar na sua história. A visita de Parvana e a sua amiga Shauzia ao cemitério de tanques, a entrada na caverna “mágica” ou os passeios pelo mercado são acompanhados por uma idílica cinematografia, mas também por um dramatismo pertinente.

O grande feito de Doron é precisamente esta capacidade de não dramatizar excessivamente as suas personagens ou diálogos. Esta é a história de um conjunto indivíduos que escolhem ser corajosos: não há heróis, há um conjunto de personagens que se ajudam mutuamente, que tomam as decisões acertadas contra todas as circunstâncias.

Fonte: GKIDS

7/10

Título: A Ganha-Pão
Realização: Nora Twomey
Argumento: Anita Doron
Elenco (vozes): Saara Chaudry, Soma Chhaya, Noorin Gulamgaus e Laara Sadiq
Género: Animação, Drama, Família
Duração: 94 minutos