O último poema do último príncipe

Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta só para te ver dançar.

E isso

diz muito da minha caixa torácica.

Matilde Campilho. Jóquei (2012)

Matilde Campilho é uma das poetisas da nova geração em Portugal. Nascida em 1982, em Lisboa, navegando por entre Lisboa e o Rio de Janeiro, consolidou-se com o seu Jóquei (seu primeiro e único livro até à data, publicado pela Tinta da China) como uma promissora voz poética em língua portuguesa.

Poeta nómada

Estudou literatura, mas em Florença prendeu-se pela pintura, onde passou um ano a pintar, chegando a publicar algumas ilustrações em Portugal.

Trabalhou em Madrid e viveu em Moçambique, onde fez voluntariado no hospital, lendo histórias aos doentes.

Chegou depois ao Rio de Janeiro, em 2010, onde inicialmente ficaria por quinze dias. Eis que a poesia lhe trocou os planos, num encontro inusitado pela terra carioca, onde ficou por três anos. Lá, trabalhou como jornalista, e ao fim de algum tempo, escreve Jóquei.

O percurso das viagens tornaram Matilde Campilho numa poeta supra-linguística e a sua poesia parece ser a confluência perfeita dos lugares por onde viveu, misturando acima de tudo, o sotaque luso com o carioca.

RIO DE JANEIRO — LISBOA

um dia você
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego.

(…)

um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralizacão
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem 
a João e à fruta espessa 
que brilha vermelha 
em cada copo de minha cidade

(…)”

Rio de Janeiro-Lisboa. Matilde Campilho

Em entrevista, Matilde diz que se identificou com o Brasil e por isso ficou tanto tempo, tempo criativo e de verão. Jóquei é resultado disso mesmo, sendo que Pedro Mexia, na contracapa afirma que este é “Um Verão de todas as estações, transatlântico, luso-brasileiro na topografia Rio-Lisboa, com um português em dupla nacionalidade e dupla grafia, coloquial e feliz, saudoso e complicado”.

Poetisa do digital

Matilde Campilho começou a criar o seu nome como poetisa no mundo digital. De voz firme, andrógena ou quase que sem género, empresta-a aos seus poemas.

No seu canal de Youtube, macmakuu explora o conceito do vídeo-poema. Ainda nesta plataforma é possível encontrar outros excertos da poetisa lendo os seus poemas e o de outros.

Por fim, no site Lyrikline- Listen to the poet, podes ouvir e ler alguns dos poemas  da sua atuoria recitados pela própria.

Filha do digital, Matilde Campilho ensaia-o como casa das suas palavras.

A experiência no Rio

Viver no Rio de Janeiro fez com que Matilde Campilho tivesse a oportunidade de se integrar na cena poética brasileira. Conheceu poetas e começou a circular em eventos de poesia. Daí à inspiração, o salto foi inevitável.

Numa poética marcadamente congregante das suas influências, as narrativas do quotidiano e do secundário tornam-se corpo na escrita.

Coqueiral

A saudade é um batimento que rebenta assim
vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado
de desastre até à rosa pendurada em sua boca

E o amor, neste caso específico, é um mergulho
destemido que deriva quase sempre de uma nota
climática apenas para convergir no osso frontal
do crânio do rei da ilusão – terno é o seu rosto

Senhor, os ossinhos do mundo são de mel e ouro.

Matilde Campilho

Fugindo à linguagem tradicional, Matilde Campilho reinventou a poesia escrita em português e a receção da crítica foi abismal. Do inesperado da sua escrita, ao quente calor que por vezes falta ao poeta português, a originalidade da poetisa, o tom alegre e descomprometido da escrita, não escapou ao olhar dos mais atentos e a primeira edição de Jóquei esgotou rapidamente.  

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