O Teatro das Beiras, na Covilhã, teve em cena Um Mundo Mágico, uma peça adaptada a partir de uma obra do escritor Alves Redol. O Espalha-Factos esteve presente e conta-te de que forma se tentou consciencializar os mais jovens para a preservação do planeta.

O espetáculo, destinado a crianças a partir dos seis anos, retirou a sua inspiração da metamorfose das sementes do trigo (ciclo do pão), a qual representa uma metáfora que abrange uma forma plena de conhecimento e sabedoria, estimulando os jovens espectadores para a defesa do planeta.

Margarida Gomes, professora primária na Escola Básica São Domingos, também na Covilhã, considera que esta peça de teatro “vem de encontro aos conteúdos que lecionamos, o que nos permite uma exploração muito mais interessante e que complementa o que já fazemos nas aulas“.

A peça de teatro, baseada na obra literária A Vida Mágica da Sementinha, de Alves Redol, é uma fábula retratada numa linguagem inteligível e clara, mas que em nada lhe retira todo o cariz poético.

Através da história de vida da Sementinha, é construída toda uma apologia ao ciclo do trigo, à vida. Tiago Moreira, natural de Ovar e ator na companhia do Teatro das Beiras, concorda, afirmando que “cada vez mais estamos habituados a ver as coisas nas prateleiras, como algo garantido, e não nos perguntamos como é que chegaram lá e qual o processo de fabrico. É importante fazer as crianças questionarem-se sobre isso“.

Repleta de personagens emblemáticas e idealizadas, desde a feiticeira Terra até ao Sol, defensor de tempestades, a aventura de Sementinha vai levá-la da arca onde se encontrava de início, junto com as outras sementes, até ao campo onde se vai transformar em espiga e onde vai acabar por ser colhida, porém não com o propósito que se supunha.

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A aventura de Sementinha

A Sementinha, guardada junto com outras sementes numa arca, foi roubada por um rouxinol, que cantava e ensinava a cantar, e por quem se acabou por apaixonar. Mais tarde, é de novo roubada, desta vez por um pardal que a queria comer, mas que, ao assustar-se com um espantalho, a deixou cair durante o voo.

Sementinha vê-se a ser enterrada e ficar “sob o poder” da feiticeira Terra, a qual lhe diz que tem de trabalhar muito, caso queira sair dali, pois sem trabalho, nada se consegue. Ainda enterrada, Sementinha conhece um bicho da conta, que mesmo sendo feio tem também o seu propósito e lugar no ciclo da vida. Como é evidente, e tendo em conta que é uma peça de teatro infantil, o caráter “moralista” é bastante recorrente na peça.

É então que começam a surgir raízes, sobre as quais Sementinha ainda não sabe o que são ou para que servem, mas que posteriormente lhe é explicado. Sementinha começa a “nascer”.

Assolada por uma tempestade, Sementinha encontra no guerreiro Sol o seu salvador. Mais tarde, aparece um pássaro (chapim azul) que lhe conta que o rouxinol morreu, possivelmente de desgosto, pois não emigrou junto com os da sua espécie, tal como devia.

Junto com a triste notícia, chega também a primavera, o que se traduz no crescimento de Sementinha para uma espiga forte e saudável. É então dito a Sementinha que há-de vir uma ceifeira que a irá “matar” para fazer farinha e pão. Mas não é isso que acontece. À passagem de um engenheiro, este vê na saudável Sementinha um belo exemplar da sua espécie, escolhendo-a como objeto de estudo e experiências, representando um elogio à ciência.

Teatro para os mais novos

Tiago Moreira considera que é importante fazer teatro para infância pois “contribui para a formação de novos públicos“.

O ator afirma ainda que gosta de representar tanto para um público mais velho como para um público jovem. No entanto, uma das coisas que encontra no público mais jovem é que esse “é mais genuíno. As crianças não usam máscaras: quando gostam, gostam, quando não gostam, não gostam”. O público adulto, por sua vez, é mais “educado”, mas não tão sincero. Os mais novos não “têm nenhum código”.

teatro das beiras covilhã

O teatro centralizado

Tudo se encontra centralizado e isso é ainda mais evidente no que toca à cultura, como é o caso do teatro. Esse encontra-se, sem dúvida, bastante centralizado. Ou, pelo menos, é esta a opinião de Tiago Moreira, embora não concorde com essa centralização, especialmente em relação ao teatro.

Nas palavras do ator, “o teatro sobrevive sobretudo de apoios estatais, o dinheiro de todos os cidadãos. Mas o teatro não chega a toda a gente”. Mesmo assim, Tiago confessa-se surpreendido pela positiva, pois antes de se ter deslocado para o interior pensava que existiam ainda menos companhias nestas regiões.

Não obstante o público menor, o ator consegue descortinar, pelo menos, um ponto positivo nas companhias do interior: estas conseguem realizar uma “grande” itinerância, algo que as companhias nos grandes centros (também devido ao público mais vasto) não se dispõem a fazer. O que, na sua opinião, “é uma pena” pois, muitas vezes, “não levam os seus trabalhos a outros sítios“.

Mas sinto que devia haver mais teatro no interior, mais oferta“, refere ainda, embora confesse que já é “um feito heróico para as companhias do interior conseguirem manter-se em atividade“.

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