Continuando a comemorar este mês de poesia e poetas, o Espalha-Factos dedica hoje este espaço em verso a um artista que dedicou a sua vida à Arte: Almada Negreiros.

José Sobral de Almada Negreiros, nascido a 1893 em São Tomé e Príncipe, foi um artista multidisciplinar português que se dedicou ao desenho, à pintura, à escrita de romances, de poemas, de ensaios, assim como à dramaturgia. Ocupou uma posição central na primeira geração de modernistas portugueses, ao lado de Amadeo de Souza Cardoso e de Fernando Pessoa.

Almada Negreiros

Foto: Fundação Calouste Gulbenkian

Figura ímpar no panorama artístico português do século XX, Almada Negreiros não frequentou qualquer escola de ensino artístico, foi um autodidata. Cedo se dedicou ao desenho de humor, mas foi a escrita, quer interventiva, quer literária, que lhe concedeu, no início da carreira, notoriedade.

Com um papel particularmente ativo na primeira vanguarda modernista do panorama português, o artista teve um papel importante para a dinâmica do grupo da Revista Orpheu, para onde contribuiu não só com poemas.

Vida e algumas das exposições

Depois de passar pelo Liceu de Coimbra, Almada matriculou-se em 1911 na Escola Internacional, na Rua da Emenda, Lisboa, que frequentou até 1913.

Foi em 1911 que publicou os seus primeiros desenhos e caricaturas, na revista humorística A Sátira. No ano seguinte, redigiu e ilustrou de forma integral o jornal manuscrito A Paródia e expôs na I Exposição dos Humoristas Portugueses.

Expôs pela primeira vez individualmente em 1913, na Escola Internacional, onde apresentou 90 desenhos. Conheceu Fernando Pessoa depois deste ter feito uma crítica à exposição que foi publicada n’A Águia.

Colaborou como ilustrador em jornais, preparou projetos de bailado, colaborou como diretor artístico no semanário monárquico Papagaio Real.

Em 1915, colaborou no primeiro número da Revista Orpheu e publicou o Manifesto Anti-Dantas e por extenso, por ocasião da estreia da peça de teatro Soror Mariana Alcoforado de Júlio Dantas, reagindo indiretamente às críticas negativas desse conhecido médico e escritor à Revista Orpheu.

MANIFESTO ANTI-DANTAS E POR EXTENSO

por José de Almada-Negreiros

POETA D’ORPHEU FUTURISTA e TUDO

“BASTA PUM BASTA!

UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D’INDIGENTES, D’INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PODE PARIR ABAIXO DE ZERO!

ABAIXO A GERAÇÃO!

MORRA O DANTAS, MORRA! Mão.jpg (2277 bytes)PIM!

UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS A CAVALO É UM BURRO IMPOTENTE!

UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS À PROA É UMA CANÔA UNI SECO!

O DANTAS É UM CIGANO!

O DANTAS É MEIO CIGANO!

O DANTAS SABERÁ GRAMMÁTICA, SABERÁ SYNTAXE, SABERÁ MEDICINA, SABERÁ FAZER CEIAS P’RA CARDEAIS SABERÁ TUDO MENOS ESCREVER QUE É A ÚNICA COISA QUE ELLLE FAZ!

O DANTAS PESCA TANTO DE POESIA QUE ATÉ FAZ SONETOS COM LIGAS DE DUQUEZAS!

O DANTAS É UM HABILIDOSO!

O DANTAS VESTE-SE MAL!

O DANTAS USA CEROULAS DE MALHA!

O DANTAS ESPECÚLA E INÓCULA OS CONCUBINOS!

O DANTAS É DANTAS!

O DANTAS É JÚLIO!

MORRA O DANTAS, MORRA! Mão.jpg (2277 bytes)PIM!

O DANTAS FEZ UMA SORÔR MARIANNA QUE TANTO O PODIA SER COMO A SORÔR IGNEZ OU A IGNEZ DE CASTRO, OU A LEONOR TELLES, OU O MESTRE D’AVIZ, OU A DONA CONSTANÇA, OU A NAU CATHRINETA, OU A MARIA RAPAZ! (…)”

Almada Negreiros

Foto: Wook

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As Vanguardas e os vanguardistas

Almada, como muitos dos candidatos a artista, esteve em Paris, mas fê-lo desfasado dos companheiros de geração e por um período curto, sem verdadeiramente se entrosar com o meio artístico parisiense. Residiu em Madrid durante vários anos e depois regressou definitiva e exclusivamente em Portugal.

Com relação estreita com vários artistas da altura, como José PachekoSonia e Robert Delaunay, Eduardo Viana, foi para apoiar Amadeo de Souza Cardoso que também escreveu um manifesto de apoio à I Exposição de Amadeo de Souza-Cardoso, em Lisboa, tornando-se num dos primeiros defensores da sua obra em território nacional.

“A exposição de Amadeo de Souza-Cardoso é o documento conciso da Raça Portuguesa no século XX. A Raça Portuguesa não precisa de rehabilitar-se, como pretendem pensar os tradicionalistas desprevenidos; precisa é de nascer pró século em que vive a Terra. A descoberta do Caminho Marítimo para a Índia já não nos pertence porque não participamos d’este feito fisicamente e mais do que a Portugal este feito pertence ao século XV.

Nós, os futuristas, não sabemos História só conhecemos da Vida que passa por Nós. Elles teem a Cultura, Nós temos a Experiência e não trocamos! Mais do que isto ainda Amadeo de Souza-Cardoso pertence à Guarda Avançada nA MAIOR DAS LUCTAS que é o Pensamento Universal. Amadeo de Souza-Cardoso é a primeira Descoberta de Portugal na Europa no século XX. O limite da Descoberta é infinito porque o sentido da Descoberta muda de substância e cresce em interesse – por isso que a Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia é menos importante que a Exposição de Amadeo de Souza-Cardoso na Liga Naval de Lisboa (…)”.

12 de dezembro de 1916

Futurista

Conviveu ativamente com Santa-Rita Pintor (1889-1918), pintor que proclamava ter sido encarregue pessoalmente por Marinetti de difundir em Portugal os manifestos do futurismo.

Desta maneira, deu-se o período áureo do futurismo português. Em 1917 realizou-se, no Teatro da República, por exemplo, a conferência Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX. Nesse ano, colaborou ainda no único número da revista Portugal Futurista e publicou a novela K4 O Quadrado Azul.

Almada Negreiros

Foto: Wook

O único da sua geração que viveu até às últimas décadas do século XX, chegou a fazer um pacto com os amigos Amadeo e Santa-Rita em que todos se comprometem a estudar os Painéis de São Vicente de Fora, de Nuno Gonçalves, e um pacto de “grande frete da Poesia” em frente à tábua quinhentista Ecce Homo.

Almada Negreiros

Foto: Museu Nacional de Arte Antiga

“Amadeo de Souza-Cardoso, Santa-Rita Pintor e eu, diante da tábua quinhentista Ecce Homo do Museu de Arte Antiga, firmámos o pacto do grande frete da Poesia: enquanto a Poesia não é. Assim que saímos do Museu fomos cortar os nossos cabelos e sobrancelhas à navalha de barba, e assim passeávamos pela capital o remotíssimo grito do silêncio. Amadeo e Santa-Rita não sobreviveram um ano ao nosso pacto.”

Abril de 1958

“Fulgurante dispersão” futurista

Depois da vinda dos Ballets Russes de Diaghilev a Lisboa, em 1918, Almada liderou o grupo de bailado de Helena Castelo Melhor. Colaborou em produções onde era coreógrafo, figurinista, diretor de bailado e, por vezes, bailarino.

A sua obra mais conhecida vira-se para a pintura e, até, para os trabalhos que realizou na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, na Avenida de Berna em Lisboa.

A intervenção futurista de Almada Negreiros não marcou apenas o primeiro quartel do século XX. Ao contrário dos companheiros Amadeo e Santa-Rita, ambos mortos em 1918, a sua ação prolongou-se ao longo de várias décadas, sobrepondo-se à da segunda e terceira geração de modernistas.

Com o passar do tempo, as suas intervenções abrandaram, cedendo o lugar a uma atitude mais lírica e construtiva que abriu caminho para a sua obra plástica e literária da maturidade.

Sem se fixar num domínio único e preciso, o que emergiu foi a imagem de um artista total, inclassificável, onde o todo supera a soma das partes.

“Português sem mestre” e “sem discípulos”, como o classificou José Augusto França, o Espalha-Factos destaca hoje alguns dos seus poemas, para não falar daqueles que só em livros se podem admirar.

A Sombra sou eu

“A minha sombra sou eu,

ela não me segue,

eu estou na minha sombra

e não vou em mim.

Sombra de mim que recebo a luz,

sombra atrelada ao que eu nasci,

distância imutável de minha sombra a mim,

toco-me e não me atinjo,

só sei do que seria

se de minha sombra chegasse a mim.

Passa-se tudo em seguir-me

e finjo que sou eu que sigo,

finjo que sou eu que vou

e não que me persigo.

Faço por confundir a minha sombra comigo:

estou smepre às portas da vida,

sempre sempre às portas de mim!”

Poesia (2017)

Almada Negreiros

Foto: Wook

José de Almada Negreiros faleceu em Lisboa em 1970. Decidimos trazer este último poema por acreditarmos que transparece bem as várias facetas, os vários estados de alma, que o artista exprimia. Numa vida completamente ligada às artes, ao teatro, à dança, à pintura, à geometria, à poesia, este poema mostra-nos Almada e a sua sombra, as suas artes.

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