Banda Sonora, uma composição musical de Filipe Raposo, com texto e encenação de Ricardo Neves-Neves, estreou-se esta sexta-feira, no São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa. Pode ser vista até dia 18 de março.

O espetáculo teve como ponto de partida a composição e orquestração do pianista Filipe Raposo. É, precisamente, a banda sonora e também as experiências quer com os 33 músicos (da Orquestra Metropolitana de Lisboa) quer com as seis vozes femininas em palco, que despertam uma determinada atmosfera e, por conseguinte, um texto. 

Texto esse onde Ricardo Neves-Neves fala de fragilidade humana, do teatro absurdo, do lado trágico e efémero da vida e do universo dos filmes de terror. Um texto construído para três personagens, «ainda que estas sejam interpretadas por seis atrizes, pois cada uma é composta por si e pelo sem desmembramento», explicou o encenador num comunicado enviado ao Diário de Notícias.

O elenco e a ligação entre as personagens

A interpretar Banda sonora estão seis atrizes com formação de canto: Ana Valentim, Joana Campelo, Márcia Cardoso, Rita Cruz, Sílvia Figueiredo e Tânia Alves.

A peça, no entanto, centra-se apenas em três personagens  uma de oito anos, outra de 12 e outra de 15. A mais nova é a mais cerebral e a mais ligada à ciência, enquanto a do meio é a que está inserida num contexto social muito ligado às regras. Já a mais velha representa uma dona de casa dos subúrbios dos Estados Unidos, na década de 50.

Divididas em três naipes distintos e partindo da ideia de que as raparigas são íntimas (o que é acentuado pelas suas semelhanças vocais e físicas), Ricardo Neves-Neves construiu uma trama sem qualquer ligação entre as personagens.

A peça foi construída em dois meses, num processo criativo inverso, já que o texto foi elaborado depois da música ter sido composta.

A natureza e a fragilidade humana

A ação passa-se numa floresta, numa zona sobrenatural, onde as personagens mais jovens, «uma espécie de princesas da Mesopotâmia» do ano 4000 a.C., dançam com as árvores. Mais tarde, essas as mesmas árvores surgem a planar.

Um cenário que, nas palavras de Neves-Neves no mesmo comunicado, demonstra o «poder que a natureza exerce sobre o ser humano», símbolo da nossa própria fragilidade.

O encenador quer, com isto, chamar a atenção para um facto que o ser humano tende a esquecer-se: «o respeito pela natureza, no sentido de que habitamos um planeta, e há aqui uma coisa qualquer que já não faz parte da nossa vida».

A peça pretende ainda alertar para o facto de todos termos uma existência curta, e em alguns casos até trágica, mas que, nem por isso, deixamos de ser belos e de dar (ou pelo menos tentar) sentido à vida. Esse sentido trágico está mesmo muito presente em Banda sonora, ainda que «com uma certa leveza e algum sentido de humor».

Para ver…

Desde 2015, com A Batalha de Não Sei Quê, que Ricardo Neves-Neves não encenava um texto seu.

Banda Sonora tem cenografia de Henrique Ralheta, figurinos de Rafaela Mapril e sonoplastia de Sérgio Delgado. A música é interpretada ao vivo pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, sob direção do maestro Cesário Costa. O trabalho vocal é dirigido por João Henriques, sofrendo ainda um tratamento vocal digital em tempo real.

O espetáculo tem coprodução do São Luiz Teatro Municipal, Teatro do Elétrico e Cine-Teatro Louletano.

Estas e outras questões sobre a fragilidade humana vão estar em cena na sala Luís Miguel Cintra, do São Luiz Teatro Municipal (Lisboa), até dia 18 de março. Há sessões de quarta-feira a sábado, às 21h00, e, aos domingos, às 17h30.

Os bilhetes estão disponíveis nos locais habituais e o seu valor varia entre os 12 e os 15 euros.

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