No seguimento do Dia Internacional da Mulher, o Espalha-Factos destaca hoje nesta rubrica, uma grande mulher da poesia e da literatura portuguesa: Sophia.

“Quando eu morrer voltarei para buscar

Os instantes que não vivi junto do mar”

Livro Sexto (1962)

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto, dia 6 de novembro de 1919. Das mais conhecidas e importantes poetisas portuguesas do século XX, foi a primeira mulher a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999.

Sophia

Foto: Wook

Estudou Filologia Clássica na Universidade de Lisboa, mas nunca chegou a concluir o curso. Publicou os primeiros versos em 1940, nos Cadernos de Poesia, revista através da qual travou amizade com Ruy Cinatti e Jorge de Sena.

Casou, em 1946, com o jornalista, político e advogado Francisco Sousa Tavares. Foi mãe de cinco filhos, para quem começou a escrever contos infantis: A Menina do Mar (1958), O Cavaleiro da Dinamarca (1964), O Rapaz de Bronze (1966), entre outros.

Além da literatura infantil, Sophia escreveu também contos, artigos, ensaios e teatro. Traduziu Eurípedes, Shakespeare, Claudel, Dante.

Sophia

Foto: Wook

Dias de liberdade

Com uma atitude marcadamente interventiva, Sophia sempre denunciou ativamente o regime salazarista e os seus seguidores. Chegou mesmo a apoiar a candidatura do general Humberto Delgado e a fazer parte dos movimentos católicos contra o antigo regime, tendo sido um dos subscritores da “Carta dos 101 Católicos” contra a guerra colonial e o apoio da Igreja Católica à política de Salazar. Foi ainda fundadora e membro da Comissão Nacional de Apoio aos Presos Políticos.

25 de Abril

“Esta é a madrugada que eu esperava 
O dia inicial inteiro e limpo 
Onde emergimos da noite e do silêncio 
E livres habitamos a substância do tempo”

O Nome das Coisas (2015)

Sophia

Foto: Wook

Após o 25 de Abril, foi eleita para a Assembleia Constituinte, em 1975, pelo círculo do Porto, numa lista do Partido Socialista. Foi também público o seu apoio à independência de Timor-Leste, consagrada em 2002.

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Distinções

Com textos traduzidos em várias línguas, Sophia viu várias vezes os seus títulos premiados. Recebeu o Prémio Camões em 1999, o Prémio Poesia Max Jacob em 2001 e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana, em 2003, tendo sido a primeira vez que um autor português venceu este galardão.

Sophia

Escultura de Sophia em Oeiras | Fonte: Flickr

Versos

Com uma linguagem poética quase transparente e íntima, ao mesmo tempo ancorada nos antigos mitos clássicos, Sophia evoca nos seus versos os objetos, as coisas, os seres, os tempos, os mares, os dias.

“Eis-me 
Tendo-me despido de todos os meus mantos 
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses 
Para ficar sozinha ante o silêncio 
Ante o silêncio e o esplendor da tua face
Mas tu és de todos os ausentes o ausente 
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca 
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras 
E o teu encontro 
São planícies e planícies de silêncio Escura é a noite 
Escura e transparente 
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco 
E eu não habito os jardins do teu silêncio 
Porque tu és de todos os ausentes o ausente”
Livro Sexto (1962)

 

“A poesia de Sophia é uma das vozes mais nobres da poesia portuguesa do nosso tempo. Entendamos, por sob a música dos seus versos, um apelo generoso, uma comunhão humana, um calor de vida, uma franqueza rude no amor, um clamor irredutível de liberdade – aos quais, como o poeta ensina, devemos erguer-nos sem compromissos nem vacilações.” Jorge de Sena, “Alguns Poetas de 1938”, Colóquio : Revista de Artes e Letras, nº1, Janeiro de 1959

Faleceu a 2 de julho de 2004, em Lisboa. Dez anos depois, foram-lhe concedidas honras de Estado e o seu corpo foi transladado para o Panteão Nacional.

“Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta 
Continuará o jardim, o céu e o mar, 
E como hoje igualmente hão-de bailar 
As quatro estações à minha porta. Outros em Abril passarão no pomar 
Em que eu tantas vezes passei, 
Haverá longos poentes sobre o mar, 
Outros amarão as coisas que eu amei. Será o mesmo brilho, a mesma festa, 
Será o mesmo jardim à minha porta, 
E os cabelos doirados da floresta, 
Como se eu não estivesse morta.”
Dia do Mar (1947)
Desde 2005, o Oceanário de Lisboa colocou os seus poemas com ligações ao mar nas zonas de descanso da exposição para leitura permanente permitindo aos visitantes absorverem a força da sua escrita enquanto estão imersos numa visão de fundo do mar.

“Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.”

Dia do Mar (1947)