Pela primeira vez a ousar produzir uma obra de William Shakespeare, Nuno Carinhas não poderia ter escolhido uma peça mais “maligna”. Macbeth, a mais trágica e enigmática obra do dramaturgo inglês, está em cena no Teatro Nacional São João (TNSJ), no Porto. O Espalha-Factos esteve na primeira fila.

No palco, não faltam caras conhecidas das produções do TNSJ. A João Reis, no papel de protagonista, juntam-se Diana Sá, Emília Silvestre, Joana Carvalho, João Cardoso, João Castro, Jorge Mota, Paulo Calatré, Paulo FreixinhoSara Barros Leitão. A tradução é de Daniel Jonas.

O relógio está quase a marcar as 19h. Três mulheres, deitadas no chão, surpreendem o público. Não lhes vemos a cara, mas parecem mortas. A peça começa antes mesmo de ocuparmos os lugares.

Chega a hora! Queremos o mistério resolvido o mais rápido possível. Ouvem-se relâmpagos e trovões, que parecem afastar-se à medida que o tempo avança. As mulheres movimentam-se lentamente, primeiro os pés, depois o resto do corpo. Há algo de sinistro. A música transporta-nos para um lugar onde não queremos estar.

Três bruxas, vestidas de negro, cabelo frisado e caras apavoradas. Vestem blazers masculinos e envolvem-se como se estivessem presas numa moldura. “Marcamos encontro para quando? Quereis chuva ou trovões estalando?”, começa a primeira. “Quando barafunda se for, quando ganhar o perdedor”, declara a segunda. “Será antes do sol se pôr”, termina a terceira. As mulheres desaparecem num rodopio forte de vento. Fica decidido o encontro com Macbeth, general do exército do rei Duncan, na charneca.

A cena muda. Surge Macbeth e Banquo, vitoriosos. Regressam da guerra e discutem o tempo. “Tão feio e belo dia” nunca viram. Avistam três bruxas, com roupas tão selvagens que “nem parecem terrenas“. Aproximam-se a medo e o público fica arrepiado.

Ouvem-se as primeiras profecias. “Salve Macbeth! Salve senhor de Glamis!”, começa a primeira. “Salve Macbeth! Salve senhor de Cawdor!”, proclama a segunda. “Salve Macbeth, pois rei sereis em breve”, desvenda a terceira. Macbeth fica admirado, mas é Banquo quem as desafia. As três bruxas dirigem-se agora a ele: “Rei tereis, mas rei não sereis“.

Uma vez mais, partem com o vento. Macbeth, thane de Glamis, poderá vir a ser thane de Cawdor e ainda rei da Escócia?

O público não tem tempo para pensar. Um mensageiro do rei chega de seguida e anuncia a novidade. Cumpre-se a primeira profecia: Macbeth recebe o título de thane de Cawdor, pela astúcia e destreza demostrada na guerra.

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Ambição e poder de mãos dadas

Se ao início está apreensivo e reticente, ao falar com a mulher o general promete não descansar até completar a última profecia. No dia em que o rei Duncan decide ficar no seu castelo, rapidamente o casal desenha um plano maléfico para o assassinar. É Macbeth quem, nessa mesma noite, espeta o punhal.

A plateia não assiste ao momento que fica para lá das cortinas. Presencia apenas a dor e apatia do general, ainda com o punhal entre as mãos. É Lady Macbeth que acaba o plano que juntos traçaram e ficam ambos “besuntados das marcas de homicídio”.

Ao longo da peça, vemos Macbeth tornar-se faminto pelo poder. E a personagem que pensámos sensível torna-se implacável e cruel. João Reis, já habituado a interpretar peças de Shakespeare, fá-lo de forma fenomenal. Não admira que Nuno Carinhas tenha dito que não faria a peça sem o artista.

Com apenas dez atores, o elenco desdobra-se para assumir as várias personagens e mostra que não tem nada a provar. Não é qualquer um que interpreta a tragédia “amaldiçoada” do mais famoso dramaturgo inglês.

Mais atual do que julgámos à primeira vista, percebemos que Macbeth se adequa de forma surpreendente aos tempos de hoje. O público chega mesmo a ponderar se Macbeth não será apenas um nobre vulnerável traído pelo excesso de ambição. É aqui que reside a moral da peça: nas consequências que advém da ganância e violência.

No prefácio à sua tradução do texto, Daniel Jonas comenta que Macbeth é uma peça “de uma velocidade vertiginosa, em que praticamente não há fronteira entre verbalizar e fazer”. Não podíamos estar mais de acordo. Ainda que seja a peça mais breve de William Shakespeare, é também a mais impiedosa. A ambição desmedida, a brutalidade, a loucura e a morte não dão descanso à plateia.

O primeiro momento é o único que se arrasta e faz o público parar. Nuno Carinhas estende-o por longos sete minutos. Demorado, mas silencioso. Pesado, mas rico. As três mulheres vagueiam pelo palco como se de uma dança se tratasse. Ouvem-se suspiros e corridas em fúria. A imaginação do encenador voou muito para além do texto de Shakespeare.

Depois disso, não há nada que trave o ritmo da peça. Nem pode haver. Se o público se distrai por um segundo, perde o enredo.

A excelência da escrita de Shakespeare, a tradução notável de Daniel Jonas e a representação sublime de todo o elenco fazem de Macbeth uma tragédia penosa, mas excecional.

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Onde podes ver

A peça escocesa de William Shakespeare vai estar em cena no Teatro Nacional São João até ao dia 11 de março. Esta quinta e sexta as sessões começam às 21h e domingo às 16h. O preço dos bilhetes varia entre os 7,50 e os 16 euros.

A récita de 11 março, a última no Porto, conta com audiodescrição e tradução em Língua Gestual Portuguesa.

Macbeth segue depois para o Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, apenas durante o fim de semana de 17 e 18 de março. As sessões estão agendadas para as 21h de sábado e para as 16h de domingo. Os bilhetes custam 13 euros.

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