Dez anos depois, Rodrigo Guedes de Carvalho, jornalista e escritor, volta às livrarias com o seu quinto livro. A maioria das opiniões diz que a espera valeu a pena. O Espalha-Factos esteve no apresentação d’O Pianista de Hotel, na passada segunda-feira, na Covilhã, leu a obra e conta-te agora quais as suas conclusões.

… o piano que parecia um móvel gasto numa sala em silêncio era afinal, quem diria, uma entrada escondida” – uma entrada escondida para o mundo da música, que é como quem diz o mundo da arte de sentir.

Com a música e a sua complexidade, presente desde uma harmónica a uma melódica e de um violoncelo a um piano, a servirem de guia, e em que cada nota entoada é uma imprevisibilidade, esta é uma viagem ao mais inesperado, e talvez inexplorado, da mente humana. Rodrigo Guedes de Carvalho transporta-nos a um mundo de puras emoções, sem pudores e tão realista como poucos autores se propõem a escrever.

Afinal de contas, o próprio autor assume-se como um leitor de pessoas, e isso é mais que evidente ao longo do livro.

Virando costas ao politicamente correto, o escritor narra as histórias “cruzadas” de diversas personagens, ao mesmo tempo tão diferentes e tão iguais entre si, expondo a nudez emocional de cada um, que nos leva numa meditação profunda sobre os nossos próprios valores e os dos outros. Desde o desgaste profissional e pessoal ao tema da homossexualidade, da raiva da violência doméstica à angústia da morte dos familiares mais próximos, Rodrigo Guedes de Carvalho estabelece uma ponte entre diversos planos, enfeitando-a com imprevisibilidade e melancolia.

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Foto: Wook

Mesmo relatando as histórias de diversas personagens, a obra centra-se, essencialmente, em quatro: Maria Luísa e o seu medo da noite, Luís Gustavo, o enfermeiro que poderia ter sido médico, Pedro Gouveia, o médico que é primeiramente humano e que defende a tese de que “os médicos não percebem um c****** de medicina”, e Saúl Samuel, bailarino de discoteca, que se vê preso numa desesperada necessidade de ser amado por alguém (do mesmo sexo). Estas personagens, tão distintas e igualmente tão parecidas, vêm-se presos em si mesmos, e nas circunstâncias das suas vidas.

O passado desempenha um papel crucial na vida de todas as personagens, quase que estabelecendo o caminho que estas irão traçar. Afinal de contas, já dizia Mário Quintana “o passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente…”. Mas é melhor não abusar de citações, Pedro Gouveia, o tal médico que é primeiramente humano, não gosta disso: considera que as citações são ferramentas usadas pelas pessoas com a pretensão de parecerem inteligentes, que “os presunçosos andam sempre com citações no bolso, para delas puxarem à primeira oportunidade num jantar”.

É uma obra essencialmente melancólica, para se ler devagar mas que se acaba por ler num ápice. É uma peregrinação ao mais fundo do mundo depressivo em que vivemos atualmente e em que a maioria das personagens acaba por recorrer à música em busca de redenção.

É na música que encontram subterfúgio, seja o avó a tocar a harmónica que encontrou num acidente de autocarro de uma banda, seja o neto a aprender afincadamente a tocar uma melódica que encontrou no quarto de hospital de um menino em coma.

Mas afinal, e o pianista?

A escrita…

É original. Rodrigo Guedes de Carvalho serve-se de uma escrita um pouco diferente, lembrando um pouco Saramago, através do desafio (embora significativamente menor) que faz à gramática comummente considerada correta. Mas tal como escreveu Fernando Pessoa, outro “monumento” da literatura portuguesa, “a gramática é um instrumento e não uma lei. (…) Obedeça à gramática quem não sabe pensar o que sente. Sirva-se dela quem sabe mandar nas suas expressões.

Não obstante ser diferente, esta é uma forma de expressão bonita e ao mesmo tempo fácil, que estabelece uma conversa com o leitor através da “transferência” da oralidade para a escrita, tendo em conta a forma como pronunciamos as mais diversas palavras e expressões, levando, por vezes, o leitor a sorrir e a questionar-se interiormente.

Se fores dos leitores que gosta de uma história puramente vertical, simples, narrada unicamente com um objetivo e caminho previamente traçados desde o início, basicamente, se fores um fervoroso adepto do convencional, talvez não aprecies este livro.

Se, contudo, não te revês nesta descrição, ou, pelo menos, tencionas ler algo um pouco diferente, com certeza que irás ficar fascinado com O Pianista de Hotel.

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