O Teatro Nacional D. Maria II recebe, entre 9 e 27 de março (Dia Mundial do Teatro), o espetáculo musical Montanha-Russa, com encenação de Miguel Fragata e Inês Barahona.

O Espalha-Factos esteve à conversa com Miguel Fragata, que levantou um pouco do véu sobre o que vamos poder ver em palco, nesta peça que junta Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves (dos Clã) a um grupo de atores, sob “supervisão” de um grupo de adolescentes.

Os materiais extraídos do rico universo adolescente deram origem a este musical e a um documentário sobre o processo de construção do próprio espetáculo, que vai poder ser visto também no Teatro Nacional D. Maria II nos dias 11, 25 e 27 de março.

Montanha-Russa, como nos diz Miguel Fragata, não é um musical convencional ou apenas um espetáculo de teatro, mas sim um projecto com várias vertentes que tem vindo a ser desenvolvido, já há mais de um ano, em Lisboa e no Porto. Ao longo de quase duas horas vamos poder ouvir doze canções, interpretadas por atores e músicos e, talvez, voltar a esse lugar turbulento por onde já passámos.

Montanha-Russa

Foto: Filipe Ferreira/divulgação

Espalha-Factos (EF): Porquê um espetáculo sobre os adolescentes? É um espetáculo para adolescentes?

Miguel Fragata (MF): É um espetáculo para todo o público, mas que inclui nesse “bolo” os adolescentes. Nós gostamos muito de trabalhar sobre temas estruturantes, (…) com assuntos delicados, de difícil diálogo, espetáculos que possam abrir esse espaço, ou assuntos que tenham a ver com uma fase, com uma forma de estar. No fundo temas que nos permitam pensar sobre a forma como nos situamos e nos relacionamos uns com os outros. Em 2015 tínhamos feito um espetáculo que se chamava The Wall, que era um espetáculo sobre o confronto entre a idade adulta e a infância. Esse espetáculo tinha um dispositivo muito particular, porque havia um muro que dividia o palco ao meio e havia duas bancadas, uma só com adultos e outra só com crianças. E nesse espetáculo nós percebemos que os adolescentes não tinham lugar, porque tínhamos espartilhado a coisa dessa maneira. E aconteceu-nos ter adolescentes que vieram assistir aos espetáculos e nós optámos por deixá-los escolher de que lado queriam ficar. Foi interessante, porque normalmente havia um padrão: quando vinham acompanhados pelos pais ou por adultos preferiam ficar do lado das crianças, embora depois não se revissem completamente no espetáculo desse lado porque estava muito direcionado para crianças; quando vinham com irmãos mais novos, ou num contexto de grupo, queriam sempre ficar do lado dos adultos. Isso fez-nos ter o desejo de, a seguir, pensar a adolescência, essa fatia que tínhamos deixado de fora. E aconteceu uma coincidência feliz, porque eu comecei a imaginar um espetáculo que pudesse partir da música, porque achava que essa tinha um papel muito importante na vida dos adolescentes…

EF: Porquê um musical?

MF: Por isso mesmo, porque a música é o eco de muitas questões para os adolescentes. É o eco da alegria deles, das angústias, das dúvidas… a música torna mais extremas as emoções, a música, quando são canções com letra, tem muitas vezes o poder de nos dar a sensação de estar a dizer exatamente aquilo que nós queremos dizer, o que estamos a pensar ou o que sentimos. E na adolescência, mais do que noutra fase, a música tem realmente esse papel muito importante. Essa era uma premissa, ser um musical. Muito desconstruído… no fundo não corresponde aos cânones dos musicais. Imediatamente, quando surgiu essa ideia, surgiu também a ideia de trabalharmos com os Clã, porque é um estilo de música e um tipo de criações sonoras que achámos que tinham a ironia suficiente e um olhar mais desconstruído, mais cínico, sobre uma série de assuntos, e isso era uma coisa que me interessava bastante. E, por outro lado, também era uma banda que fez parte da minha própria adolescência e achei que isso era um fator interessante. Desafiámos o Hélder Gonçalves (que é o compositor) a trabalhar connosco e tentámos perceber de que forma é que ele poderia entrar no espetáculo e de que forma é que a Manuela Azevedo também poderia juntar-se ao elenco. Eles aceitaram a proposta e convidaram outros dois músicos – o Miguel Ferreira e o Nuno Rafael – e compôs-se assim uma nova banda para o espetáculo.

“(…)trabalhar sobre diários, essa ideia de intimidade que quer ter um palco para existir.”

EF: Onde foram buscar a matéria-prima para o espetáculo?

MF: Ao mesmo tempo que havia este desejo de trabalhar a música, havia o desejo de trabalhar sobre registos íntimos de adolescentes. De trabalhar sobre diários, sobre essa ideia de intimidade que quer ter um palco para existir. E quando começámos a apontar estes caminhos para este espetáculo, surgiu um convite por parte do Tiago Rodrigues, diretor do Teatro Nacional [D. Maria II], que nos disse que gostava muito que pensássemos num espetáculo para a Sala Garrett que pudesse, de alguma maneira, incluir os adolescentes, esse público sempre muito difícil e muito renegado dos teatros. E foi assim que surgiu este projeto. Depois, trabalhámos ao longo de um ano e meio com adolescentes, porque enquanto adultos achámos que só podíamos fazer um espetáculo sobre este tema se realmente nos aproximássemos deles. Se fosse para fazer uma coisa sobre a nossa ideia de adolescência seria uma série de clichés e de ideias feitas… porque já não estamos nesse lugar, já não somos essas pessoas, a adolescência já aconteceu há muito tempo. Por isso, era mesmo importante esse contacto com a realidade, com os verdadeiros especialistas na adolescência.

Montanha-Russa

Foto: Filipe Ferreira/divulgação

EF: Como foi feito esse contacto?

MF: Fizemos um processo muito extenso, que passou inicialmente por uma recolha de diários, através de uma open call a nível nacional. Recebemos uma série de diários de adolescentes de várias gerações, sobretudo de pessoas que já foram adolescentes há algum tempo, recebemos coleções dos anos 70, 80 e 90, diários do início do milénio. E recebemos algumas coisas mais recentes, de pessoas que viveram a adolescência há cinco ou há dez anos, e que já escreveram em formatos muito diferentes, em blogs, num formato mais aberto e de menos secretismo, já numa perspetiva de dar a conhecer a sua história e o seu mundo.

Depois, fizemos uma coisa a que chamámos Confessionários de hora marcada, que eram encontros individuais aqui no teatro, em que convidávamos um adolescente de cada vez para vir a uma sala pequena, e lá dentro havia um espelho e pedíamos para se sentarem em frente ao espelho. Havia uma pessoa com uma câmara de filmar – a realizadora Maria Remédio, que acompanhou este processo todo e fez um documentário – que filmava enquanto nós lançávamos perguntas que tinham a ver com a condição de adolescente. Perguntas como: que palavra usarias para descrever a adolescência? Qual é o filme da tua vida? Se a tua vida fosse uma banda sonora, qual seria o disco? Onde é que imaginas que vais estar daqui a vinte anos? Qual é a pior coisa do teu dia e qual é a melhor? E daí resultou um material muito interessante e muito diverso.

EF: Mas não era exatamente uma conversa, os jovens respondiam em frente ao espelho… como se estivessem a responder a si próprios?

MF: Sim, e era muito impactante porque de repente propunha uma relação com a sua própria imagem, o que não é uma coisa muito evidente quando se tem 13, 14 ou 19 anos. E, ao mesmo tempo, obrigava a um exercício de reflexão interior muito profundo, apesar de serem sessões muito curtas, de cinco minutos. A seguir fizemos uma coisa a que chamámos Mini-provocações portáteis, que foram pequenos espetáculos, de quinze minutos, que levámos às escolas secundárias e que aconteciam precisamente como uma provocação. Os atores entravam pela sala de aula, sem aviso, e começavam um espetáculo. Esses espetáculos tinham a ver com temas específicos. Havia um sobre sexo, sobre relações, e havia outro sobre uma ideia de experimentar algo pela primeira vez, de viver experiências novas, e de se confrontar com o erro, com a possibilidade de falhar – que se chamava Uma oportunidade para errar. E havia ainda um terceiro, que não chegámos a materializar, sobre a ideia de pertença, de grupos, de organização social e familiar. Essas provocações aconteciam nas escolas e a seguir ao espetáculo havia uma conversa longa com o grupo que tinha assistido, e lançávamos uns questionários que eles preenchiam sem se identificarem.

Depois fizemos aqui no teatro cursos centrados na ideia de diário. Desafiámos artistas de áreas diferentes para virem ao longo de dois dias, com um grupo de adolescentes, pensar sobre a ideia dos diários. Tivemos o Afonso Cruz a fazer um trabalho na perspectiva da escrita, a Maria Remédio – que faz o documentário – fez um curso de diários na perspetiva do vídeo, em que os miúdos eram desafiados a fazer registos do seu quotidiano através dos telemóveis e das câmaras portáteis, e um terceiro, orientado pela Catarina Sobral (ilustradora), sobre uma ideia de diário gráfico, onde se trabalhou muito a autoimagem e uma ideia de relação com a família.

Montanha-Russa

Foto: Filipe Ferreira/divulgação

EF: Como foram escolhidos esses adolescentes?

MF: No caso dos Confessionários eram “raptados” aqui no teatro, vinham assistir a espetáculos e nos íamos convocá-los e perguntar se queriam antes do espetáculo participar numa coisa muito rápida. Para as MiniProvocações foram as escolas que se inscreveram. Tínhamos os professores como cúmplices e eram eles que escolhiam qual era o objeto teatral que queriam receber na escola e de que maneira é que iam fazer com que isso acontecesse sem os seus alunos desconfiarem. No caso dos cursos, eram cursos abertos, mediante inscrição. Houve um quarto curso centrado numa ideia já muito diferente, de composição musical e de escrita de letras, orientado pela Capicua e pelo Pedro Geraldes (dos Linda Martini). Foi muito interessante, porque eles trabalharam sobre essa ideia de composição com dois grupos diferentes, em duas sessões extensas, e chegou-se a resultados muito interessantes.

Finalmente, houve uma última atividade que consistiu num conjunto de palestras a que chamámos “Palestras: O que é que se passa comigo?” em que desafiávamos um grupo de adolescentes a vir falar vinte minutos sobre um tema e convidávamos, ao mesmo tempo, um especialista nesse tema a vir fazer uma comunicação também de vinte minutos. E a palestra era o confronto entre estas duas visões: a visão dos especialistas e a visão dos especializados na adolescência.

Foi com base neste material todo, de um ano e meio de pesquisa e de uma relação com mais de seiscentos adolescentes, que começámos a escrever o texto do espetáculo.

EF: Mas há um grupo mais pequeno de adolescentes a assistir agora aos ensaios…

MF: Ao longo do processo de ensaios convidámos um grupo a que chamámos Petit Comité que é um grupo de quinze adolescentes, de Lisboa e Porto, e a maioria deles são adolescentes que fomos repescar às atividades. Juntámo-los e convidámo-los a vir periodicamente assistir aos ensaios. No fundo são críticos, são uma espécie de espelho e dão-nos a entender como é que temos que afinar o espetáculo, e também nos ajudaram muito com a comunicação do espetáculo, foram presenças muito importantes em termos de comunicação. Ajudaram-nos a perceber quais são os canais que utilizam, a quem é que temos que chegar se queremos convidar adolescentes a vir ver o espetáculo, quais são as redes que eles usam, que jornais é que leem (se leem), que rádios ouvem, que revistas compram…

Montanha-Russa

Foto: Filipe Ferreira/divulgação

EF: Qual foi o processo de criação das músicas?

MF: Havia estes dois núcleos: o núcleo dos atores e o núcleo dos músicos. Eu e a Inês escrevemos o texto e as letras das canções e o Hélder compôs. As músicas foram criadas com base em todo o processo e nas descobertas que fizemos. Começámos a trabalhar em dezembro, juntámos a equipa toda e, entretanto, separámo-nos, os músicos estiveram a trabalhar no estúdio sobre o material das canções, estivemos nós (os atores) a trabalhar sobre matéria do espetáculo, de teatro, e depois começámos a cruzar tudo.

EF: Os atores também cantam? E os músicos estão em palco?

MF: Sim, está a banda em palco e há uma interação muito grande, há uma troca muito grande de presenças, há de facto uma integração muito importante da música no teatro, os dois lados que existiram em determinada fase do processo já não existem. Há um elenco que é composto por atores e músicos.

“Não é, de todo, um musical tradicional, mas também é um musical(…)”

EF: E é mesmo um musical? Ou é teatro com música? Embora sejam distinções discutíveis…

MF: Nós estamos sempre a questionar aquilo que são as convenções do teatro musical, ou seja, não é uma coisa à la Broadway, aliás brincamos muito com isso. É uma desconstrução, há uma série de coisas que estão assumidas, que estão à vista do público, há jogos que têm a ver precisamente com o teatro que às vezes impõe que a canção apareça, ou a música que se disputa com o teatro e há uma espécie de confronto… Não é, de todo, um musical tradicional, mas também é um musical porque existe música e a música tem um papel muito importante nas narrativas e na maneira como as várias histórias se vão cruzando. São quatro fios narrativos que têm um eixo comum que é dado pelas canções, como se as canções fossem a forma de tratar de uma forma mais profunda – às vezes mais exagerada, às vezes mais densa, outras vezes mais explosiva – cada um dos temas transversais das quatro histórias. Coisas como as primeiras vezes, coisas como a adolescência no sentido mais concreto, mais físico… há, por exemplo, uma canção sobre as alterações hormonais… a música tem esse papel estrutural no espetáculo.

Montanha-Russa

Foto: Filipe Ferreira/divulgação

EF: Qual tem sido o feedback do Petit Comité?

MF: Tem sido muito importante porque nos tem ajudado a aferir muita coisa. E tem sido muito diverso porque têm acompanhado mesmo o processo de ensaios. Houve uma fase em que eles ouviram uma primeira leitura e em que se confrontaram com as ideias do texto e com as primeiras canções, numa fase em que ainda não tínhamos as canções todas. E foi muito interessante porque nós já tínhamos decidido que as canções que faltavam tinham que ser canções mais agressivas, mais rockeiras, mais extremas, e eles acusaram logo isso, que sentiam falta de guitarras elétricas, portanto foi ótimo sublinharem isso.

EF: Há um tipo de teatro para o público adolescente?

MF: Não sei. Interessa-me fazer um tipo de teatro que vá verdadeiramente àquilo que são as questões profundas e verdadeiras daquele que é o público-alvo. Propusemo-nos trabalhar sobre este tema e, portanto, interessa-nos ir mesmo à verdade deste tema, e ir procurar nos verdadeiros jogadores do tema essa verdade.

EF: Mas numa abordagem mais interventiva, ou educacional, ou social…?

MF: Educacional, não, de todo. Há mesmo uma recusa muito grande em fazer isso, porque não é o papel do teatro. Para isso existe a escola e existem os pais. O papel do teatro é fazer refletir, fazer pensar, é fazer olhar para um tema de uma perspetiva abrindo essa perspetiva. Não é dar receitas, mas permitir pensar sobre isso. Acho que é isso que fazemos neste espetáculo: pensar como e que nós, adultos, nos posicionamos relativamente à adolescência, como é que os adolescentes se posicionam, o que é que representa isso de estar nessa fase da vida, que decisões é preciso tomar, como é que nos definimos… O espetáculo é também sobre isso, sobre essa ideia de definição que na adolescência fica muito premente, parece muito vincada e muito urgente.

Montanha-Russa

Foto: Filipe Ferreira/divulgação

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