Decorrendo o mês em que o Espalha-Factos celebra a poesia e os poetas, e no dia em que se assinala o Dia Internacional da Mulher, Natália Correia é um nome que surge incontornavelmente.

A açoriana, além de escritora-poetisa, foi uma deputada que interveio politicamente ao nível da cultura e do património e na defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres.

Ficou conhecida após defender o matricismo, uma forma especial de feminismo que identifica a mulher como arquétipo da liberdade erótica e passional, além de fonte matricial da humanidade.

“Mocinhas fúteis que sois
Da vida as espumas altas
Leves de não vos pesar
O peso de terdes almas;
Que essa força de encantar,
Ó belas! Cria, não pensa.
Ser perdidamente corpo
É a vossa transparência.”

Natália Correia, excerto de Mocinhas gráceis

Natália Correia foi, em 1992, uma das fundadoras da Frente Nacional para a Defesa da Cultura (FNDC). Tem uma biblioteca com o seu nome em Carnide, Lisboa.

Escultura de Natália Correia em Oeiras | Foto: pedrosimoes7 on Visualhunt

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Queixa das Almas Jovens Censuradas: o passado bastante atual

“Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte”

Natália Correia, “Poesia Completa”(1999)

 

O poema Queixa das Almas Jovens Censuradas é um eterno pesar pelos jovens que foram (e são) privados da liberdade.

A juventude é por si própria tida como revolucionária, idealista. A alma é sinónimo de liberdade, de descomprometimento. Só pela conjugação destes termos é possível serem retiradas diversas ilações.

Escrito em 1957, o poema tem a clara intenção de crítica à ditadura e à censura que estavam em voga na altura, constituindo um marco na nossa história e na luta contra a ditadura salazarista que tomou conta do país.

Estes versos de Natália Correia foram adaptados na íntegra, em 1971, numa música da autoria de José Mário Branco, que lhes conferiu um novo relevo.

Contudo, abstendo-nos do tema da ditadura, o poema continua a fazer sentido nos dias de hoje, embora que de uma maneira ligeiramente diferente.

O poema retrata uma espécie de condicionamento da alma. Antes era um condicionamento mais real, visível, imposto brutalmente, enquanto que atualmente é mais dissimulado. Quantos dos jovens de hoje em dia vivem censurados, numa vivência que lhes foi imposta? Quantos se regem por ideais em que não acreditam e se deixam ir com a corrente? Quantos se encontram numa dimensão que “não é a vida, nem é a morte”? Quantos se resignaram à vida que lhes foi coagida? O poema em questão é, assim, exatamente a Queixa d(ess)as Almas Jovens Censuradas.

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