No ano de 2016, apenas quatro dos maiores festivais de verão nacionais tiveram artistas femininas na posição de cabeça de cartaz. Em 2017, a quota desceu. Só em dois festivais é que isso aconteceu.

Quando falamos dos maiores festivais de verão portugueses, estamos a ter em conta os que têm maior afluência, mas também os mais mediatizados e que reúnem uma maior diversidade de géneros musicais. Por isso, para este artigo, tivemos em conta o NOS Alive, o MEO Sudoeste, o Vodafone Paredes de Coura, o NOS Primavera Sound, o Super Bock Super Rock e o Vodafone Mexefest.

Subrepresentação do género feminino nos cartazes dos últimos dois anos

Basta uma rápida revisão pelos cartazes dos últimos dois anos para percebermos a forma como o género feminino está subrepresentado nos festivais de verão. De 2016 para 2017, pode dizer-se que não houve nenhuma melhoria significativa. De facto, em muitos casos observou-se uma drástica redução das artistas femininas nos cartazes.

Na maior parte das vezes, só encontrámos duas artistas femininas ou bandas que incluíssem mulheres a atuar nos palcos principais, em 2017. Ainda que em 2016 se tenha visto uma maior representatividade nalguns eventos, outros destacam-se pela total invisibilidade dada às artistas femininas. Nos palcos secundários, a tendência é a mesma.

Este contexto de desigualdade não se observa apenas em Portugal. No estrangeiro, em festivais de renome, como o Coachella ou o Glastonbury, esta situação também está muito presente, com headliners masculinos e atuações de bandas masculinas em predominância.

Este ano, o cartaz do festival norte-americano Firefly Music Festival foi o que mais incendiou as redes sociais. A evidente subrepresentação do género feminino no festival chamou à atenção da cantora norte-americana Halsey, que demonstrou no Twitter o seu desagrado.

No entanto, em 2018, a questão não é se existe uma representatividade proporcional entre os géneros nos festivais. Em 2018, perguntamos se isso já é uma preocupação dos festivais de verão? Perguntamos se o facto de a indústria musical ser dominada pelo género masculino continua a ser ignorado? Em 2018, é crucial averiguar se há trabalho sobre a causa, se há uma preocupação em estabelecer uma equidade de representação dos géneros nos eventos que dão mais cor ao verão.

Keychange, a iniciativa pioneira que vai contrariar esta tendência

A PRS Foundation – uma fundação britânica que apoia novos artistas, contribuindo para o seu reconhecimento a nível internacional – criou uma iniciativa que pretende contrariar esta tendência discriminatória. A Keychange é um projeto pioneiro na Europa e tem um único objetivo:

“Empoderar as mulheres para transformar a indústria musical e encorajar conferências de música e festivais a alcançar ou manter uma proporção 50/50 até 2022. (…) pretendemos acelerar a transformação e criar uma indústria melhor e mais inclusiva para agora e para as gerações futuras.”

Esta iniciativa está associada a uma série de embaixadores marcantes de uma nova geração da música, incluindo as Hinds. Numa conferência organizada pela fundação, quarenta e cinco festivais e eventos musicais comprometeram-se com este projeto. Entre muitos festivais internacionais, não só europeus como norte-americanos e canadianos, encontra-se o português Westway LAB.

O Westway LAB Festival acolhe artistas portugueses e internacionais das mais variadas áreas da arte. Entre debates, concertos e showcases o objetivo é aproximar o público e os profissionais, durante um processo de criação artística. Questionado pelo Espalha-Factos, Rui Torrinha, diretor artístico do evento, considera que a iniciativa da Keychange promove a união sociocultural a nível global.

“A arte deve preservar essa defesa da igualdade e, como tal, o Westway LAB defende a causa lançada pela Keychange.”

Para além da Keychange, em 2017 foi lançada a  ReBalance, uma iniciativa criada pela empresa britânica Festival Republic. Este projeto tem o intuito de promover a produção musical de artistas femininas e gerar um maior leque de escolhas para os festivais, na altura da composição dos cartazes. Deste modo, pretende-se garantir um balanceamento da representatividade dos géneros nos festivais de verão.

Em Portugal, “durante muito tempo foi mesmo um boys club

Nas palavras de Ricardo Bramão, fundador da Aporfest – Associação Portuguesa de Festivais de Verão, “a questão do género é algo falado no exterior” em cenários como os Iberian Festival Awards. Para além disso, considera que nos últimos anos tem sido mais fácil a inserção de oradoras e moradoras nos painéis do Talkfest, por exemplo.

“Existiram anos muito difíceis, mas agora esse equilíbrio é fácil e existe nas novas gerações ou nas pessoas que agora iniciam as suas carreiras profissionais nestas áreas.”

Jwana Godinho, que falou com o EF em nome das Capazes, concorda com as palavras da Aporfest. “Apesar de sentir alguma mudança nos últimos tempos,” – afirma – “durante muito tempo foi mesmo um boys club.”. Falando do seu trabalho em programação de festivais, Jwana diz que “a realidade do panorama musical” torna as tentativas de inclusividade mais árduas. Afirma, ainda, que muitas vezes são as próprias artistas ou bandas que prescindem de apresentações em festivais, citando o caso de Adele.

No que toca à sua experiência no terreno, a Capaz considera que “sempre houve uma awareness, mas poucos movimentos concretos”. No entanto,  destaca o número considerável de mulheres presentes na organização de festivais, equipas de comunicação, marketing e nos quadros superiores dos patrocinadores principais.

O que esperar em 2018?

Em declarações ao Espalha-Factos, Ricardo Bramão afirma que “a igualdade deverá ser criada por mérito (e nunca como uma obrigação, uma cláusula) e com o tempo”. Este ano, é merecedora de destaque a ação do RiR, que reuniu num dia apenas artistas femininas, com Katy Perry na posição de cabeça de cartaz.

Entretanto, o NOS Alive fez uma parceria com o Centro de Informação das Nações Unidas. Tornou-se, assim, o primeiro festival a assumir o compromisso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável patentes na Agenda 2030, entre os quais se encontram a promoção da igualdade de género e a redução das desigualdades. Isto deixa perspetivar maiores tentativas de inclusividade por parte do festival lisboeta, no futuro.

O Vodafone Paredes de Coura e o NOS Primavera Sound também devem ser elogiados. Ainda que a sua presença tenha sido cancelada, a islandesa Björk seria cabeça de cartaz do festival minhoto. Já no Porto, Lorde está confirmada como a principal atração do primeiro dia do festival patrocinado pela empresa de telecomunicações.

Vivemos no momento D

Estamos numa era em que não são só as desigualdades de género que estão em causa. A própria conceção de género é posta em causa. Mais do que nunca, é necessário trazer esta discussão para a ordem do dia.

A proeminência dos movimentos Time’s Up, MeToo ou Never Again, o destaque internacional das marchas das mulheres, dos discursos feministas, interseccionais, políticos e culturais demonstram a revolução em prática.

Se a validação e reconhecimento são necessários? Sem dúvida. Se caminhamos no sentido certo? Absolutamente. Se são necessários mais esforços? Serão necessários, até ser algo que surja naturalmente. Se esta é a melhor altura para uma revolução na indústria? Segundo Rui Torrinha do Westway LAB, o “contexto social corrente só pode fomentar a mudança!”