No próximo dia 8, celebra-se o Dia Internacional da Mulher, símbolo de luta de igualdade.

O Dia Internacional da Mulher foi instituído em 1975, após as lutas femininas por melhores condições de trabalho, com uma enorme greve de trabalhadoras em 1857 e outra em 1917.

Muitos são os poetas que encontraram e encontram a sua inspiração no ser feminino, exaltando a sua beleza e a sua personalidade.

A pensar nesta data, o Espalha-Factos faz-te uma sugestão e deixa-te aqui sete poemas de homenagem à Mulher para leres, para declamares, para ofereceres ou para partilhares com a(s) mulher(es) da tua vida: mãe, filha, irmã, prima, tia ou avó.

 

Site - MAS - 2Lágrima de Preta, de António Gedeão

«Lágrima de preta
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar. 

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado. 

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente. 

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

 Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume.

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.»

 

A Mulher que Passa, de Vinicius de Moraes

«Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca! 

Oh! Como és linda, mulher que passas
que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias! 

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania. 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa! 

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias! 

Porque me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias? 

Por que não voltas, mulher que passa?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça? 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa! 

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa! 

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.»

 

Poema à Mãe, de Eugénio de Andrade

«No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe  

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos. 

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais. 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz. 

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura. 

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos. 

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

 Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

  ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

  ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal…

  Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

  Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

 Boa noite. Eu vou com as aves.»

 

Família, de Carlos Drummond de Andrade

«Três meninos e duas meninas,
sendo uma ainda de colo.
A cozinheira preta, a copeira mulata,
o papagaio, o gato, o cachorro,
as galinhas gordas no palmo de horta
e a mulher que trata de tudo. 

A espreguiçadeira, a cama, a gangorra,
o cigarro, o trabalho, a reza,
a goiabada na sobremesa de domingo,
o palito nos dentes contentes,
o gramofone rouco toda a noite
e a mulher que trata de tudo.

 O agiota, o leiteiro, o turco,
o médico uma vez por mês,
o bilhete todas as semanas
branco! Mas a esperança sempre verde.
A mulher que trata de tudo
e a felicidade.»

 

Menina e Moça, de Machado de Assis

«Está naquela idade inquieta e duvidosa,
Que não é dia claro e é já o alvorecer;
Entreaberto botão, entrefechada rosa,
Um pouco de menina e um pouco de mulher.

  Às vezes recatada, outras estouvadinha,
Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor;
Tem coisas de criança e modos de mocinha,
Estuda o catecismo e lê versos de amor.

 Outras vezes valsando, e seio lhe palpita,
De cansaço talvez, talvez de comoção.
Quando a boca vermelha os lábios abre e agita,
Não sei se pede um beijo ou faz uma oração.

 Outras vezes beijando a boneca enfeitada,
Olha furtivamente o primo que sorri;
E se corre parece, à brisa enamorada,
Abrir asas de um anjo e tranças de uma huri.

  Quando a sala atravessa, é raro que não lance
Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar
Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar.

  Tem na alcova em que dorme, e descansa de dia,
A cama da boneca ao pé do toucador;
Quando sonha, repete, em santa companhia,
Os livros do colégio e o nome de um doutor.

  Alegra-se em ouvindo os compassos da orquestra;
E quando entra num baile, é já dama do tom;
Compensa-lhe a modista os enfados da mestra;
Tem respeito a Geslin, mas adora a Dazon.

  Dos cuidados da vida o mais tristonho e acerbo
Para ela é o estudo, exceptuando talvez
A lição de sintaxe em que combina o verbo
To love, mas sorrindo ao professor de inglês.

  Quantas vezes, porém, fitando o olhar no espaço,
Parece acompanhar uma etérea visão;
Quantas cruzando ao seio o delicado braço
Comprime as pulsações do inquieto coração!

  Ah! se nesse momento alucinado, fores
Cair-lhes aos pés, confiar-lhe uma esperança vã,
Hás-de vê-la zombar dos teus tristes amores,
Rir da tua aventura e contá-la à mamã.

  É que esta criatura, adorável, divina,
Nem se pode explicar, nem se pode entender:
Procura-se a mulher e encontra-se a menina,
Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher! »

 

O Homem e a Mulher, de Victor Hugo

«O homem é a mais elevada das criaturas.
A mulher, o mais sublime dos ideais.
Deus fez para o homem um trono; para a mulher fez um altar.
O trono exalta e o altar santifica.
O homem é o cérebro; a mulher, o coração.
O cérebro produz a luz; o coração produz amor.
A luz fecunda; o amor ressuscita.
O homem é o génio; a mulher é o anjo.
O génio é imensurável; o anjo é indefinível;
A aspiração do homem é a suprema glória; a aspiração da mulher é a virtude extrema;
A glória promove a grandeza e a virtude, a divindade.
O homem tem a supremacia; a mulher, a preferência.
A supremacia significa a força; a preferência representa o direito.
O homem é forte pela razão; a mulher, invencível pelas lágrimas.
A razão convence e as lágrimas comovem.
O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios.
O heroísmo enobrece e o martírio purifica.
O homem pensa e a mulher sonha.
Pensar é ter uma larva no cérebro; sonhar é ter na fronte uma auréola.
O homem é a águia que voa; a mulher, o rouxinol que canta.
Voar é dominar o espaço e cantar é conquistar a alma.
Enfim, o homem está colocado onde termina a terra; a mulher, onde começa o céu.»

 

Mulher, de Ary dos Santos

«A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama

  E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração

 Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha

  Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são

  A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade

  Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher»

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