“o poeta é um guardador
guarda a diferença
guarda da indiferença
no incerto
guarda a certeza da voz”

Ana HatherlyUm Calculador de Improbabilidades. (2001)

Ana Hatherly  foi uma professora, escritora-poetisa e artista plástica. Nascida no Porto, faleceu em 2015, de causas naturais, com 86 anos.

Foi um dos principais elementos do grupo de Poesia Experimental nos anos 60 e 70, tendo produzido uma extensa obra poética, incluída em numerosas antologias internacionais.

Fonte: Círculo de Artes Plásticas de Coimbra ©Maria-José-Palla-2003

Especialista da cultura portuguesa do período barroco, dedicou-se à investigação, tendo publicado inúmeros ensaios sobre a matéria, fundando também a revista Claro-Escuro.

Foi professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde fundou e dirigiu o Instituto de Estudos Portugueses. Anteriormente havia leccionado na Escola de Cinema do Conservatório Nacional e no AR.CO, em Lisboa.

Associada não só às letras como às artes visuais, pintura, desenho e até cinema, é uma das grandes referências da Poesia Visual em Portugal.

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Quando as palavras se fundem na imagem

Dando-se conta que a escrita é uma representação (e no caso imagética), Ana Hatherly não se coibiu de as misturar, numa reflexão sobre o signo e a miscibilidade das artes.

Na associação do desenho da escrita e do desenho, Ana Hatherly reinventa a poesia clássica e liberta-a da significação literal.

“Na escrita
torna-se imagem
a imagem que a tinta reproduz
no assalto do ver-ler”

Ana Hatherly, O Pavão Negro (2003)

Na procura da subjetividade, a poetisa, também influenciada pelas restantes artes que acompanharam o seu processo criativo, quer seja pela composição da mancha gráfica ou pela transitividade das palavras, constrói espaços pictóricos, transpondo à tela o que seria apenas próprio do papel.

“O poeta é uma sombra
um perfil
um desaparecimento”

Ana Hatherly. O Cisne Intacto. 1983

Fonte: Página Oficial Fundação de Serralves

A temática do escritor e do escrito é uma das mais debatidas na obra de Hatherly. A criação surge como objeto na sua obra, vista como um ato de dor, de sofrimento, ao mesmo tempo que se configura como uma necessidade.

Sobre Ana Hatherly

Foi membro da direção da Associação Portuguesa de Escritores, tendo ajudado a fundar o P.E.N. Clube Português.

A sua obra, apreciada além fronteiras valeu-lhe em 1978 a Medalha Oskar Nobiling, pela Academia Brasileira de Filologia do Rio de Janeiro; em 2003, o Prémio de Poesia Evelyne Encelot, em França e ainda, na Croácia, o Prémio Hannibal Lucic.

Por Portugal, o sucesso e consideração pelos pares não passou despercebido, sendo que em 1998 obteve o Grande Prémio de Ensaio Literário da Associação Portuguesa de Escritores e em 1999, o Prémio de Poesia do P.E.N. Clube Português.

Em 2009 foi feita Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Em 2015, recebeu o prémio Fémina por mérito na Literatura.

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