Este ano, a primavera chega dia 20 de março. O Dia Mundial da Poesia chega no dia seguinte, dia 21. Até lá, o Espalha-Factos selecionou alguns poetas portugueses, numa mostra variada, que ocupará os teus dias até à chegada dos dias de sol.

“(…) de onde os meus dedos o colhem,
como a primeira flor deste dia; e entrego-a a ti,
a amada adormecida, para que a guardes
no secreto jardim do teu jardim.”

Nuno Júdice. Geometria Variável (2005)

 

Poeta, ensaísta e académico, Nuno Júdice nasceu dia 29 de Abril de 1949, no Algarve.

É licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa e doutorou-se em Literatura Românica Comparada, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, onde foi já professor.

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Foto: Secretaría de Cultura CDMX | VisualHunt

Dedicou-se a estudos anterianos e sobre o Modernismo português e participou em edições fac-similadas das revistas Portugal Futurista, Centauro e Sudoeste, editadas pela Contexto Editora.

Foi o responsável pela Língua e Cultura Portuguesa, na organização do Pavilhão Português, na Exposição de Sevilha, em 1992. Em 1997, ficou responsável pela área de Literatura, na Sociedade Portugal-Frankfurt. Exerceu, desde 1997, funções de Conselheiro Cultural em Paris.

Além disso, desenvolve trabalho como crítico, tendo sido diretor do Instituto Camões, também em Paris.

Atualmente, Nuno Júdice é, desde 2009, diretor da Revista Colóquio Letras, uma revista literária com textos de poesia, de ficção e maioritariamente ensaios. A revista nasceu em 1971, pelas mãos de Hernâni Cidade e Jacinto do Prado Coelho.

O seu primeiro livro de poesia  A Noção do Poema, foi publicado em 1972, quando era ainda estudante de licenciatura. Publicou ainda obras como Enumeração de Sombras (1989), Um Canto na Espessura do Tempo (1992) e Meditação Sobre Ruínas (1994). Escreveu os romances e é também autor de diversos ensaios, entre os quais se destaca uma tese de doutoramento sobre literatura medieval.

Títulos e/ou versos?

Mostrando-se desde logo um poeta sem igual, os seus livros, de poesia ou não, revelam-se um deleite: Crítica Doméstica dos Paralelepípedos (1973), As Inumeráveis Águas (1974), O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1975), Nos Braços da Exígua Luz (1976), Enumeração de Sombras (1988), As Regras da Perspectiva (1990), Um Canto na Espessura do Tempo (1992), Meditação sobre Ruínas (1995), Teoria Geral do Sentimento (1999), Cartografia de Emoções (2002), Geometria Variável (2005), entre outros.

Alguns dos versos de Nuno Júdice integram sonetos, como são os poemas de Breve Sentimento do Eterno (2008). Outros são longos e permitem que nos percamos, sem tropeçar em rimas. Os seus poemas confundem-se mesmo, por vezes, com prosa, tal é a discursividade. Ainda assim, apesar desta modernidade, a que se acrescentam descrições e metáforas do real, os seus versos não perdem nunca o equilíbrio, o tamanho exacto.

Meditação sobre Ruínas

De um dos livros de poemas mais premiados de Nuno Júdice, que conta com o Prémio Literário Eça de Queiroz da Cidade de Lisboa (1995), o Espalha-Factos escolhe para iniciar esta série de poetas, e de dias até à primavera, um poema de bosques, de recolhimento e de reflexão.

Um poema que, tal como esta altura do ano, nos convida àquilo que de mais íntimo temos, a nossa casa, nós próprios. Esta voz pede-nos que ousemos respirar brevemente o cheiro das coisas pequenas dos nossos dias.

A Voz que Nos Rasgou por Dentro

De onde vem – a voz que
nos rasgou por dentro, que
trouxe consigo a chuva negra
do outono, que fugiu por
entre névoas e campos
devorados pela erva?
Esteve aqui — aqui dentro
de nós, como se sempre aqui
tivesse estado; e não a
ouvimos, como se não nos
falasse desde sempre,
aqui, dentro de nós.
E agora que a queremos ouvir,
como se a tivéssemos re-
conhecido outrora, onde está? A voz
que dança de noite, no inverno,
sem luz nem eco, enquanto
segura pela mão o fio
obscuro do horizonte.
Diz: “Não chores o que te espera,
nem desças já pela margem
do rio derradeiro. Respira,
numa breve inspiração, o cheiro
da resina, nos bosques, e
o sopro húmido dos versos.”
Como se a ouvíssemos.
Nuno Júdice. Meditação sobre Ruínas (1995)

Prémios

Não bastassem os versos, são já muitos os prémios atribuídos a este autor.

Em 1987, ganhou o Prémio P.E.N. Clube Português de Poesia e em 2000 ganhou o mesmo prémio, mas na categoria de novelística.

Em 1990, recebeu o Prémio D. Dinis da Casa de Mateus e em 1994, a Associação Portuguesa de Escritores distinguiu-o pela publicação de Meditação sobre Ruínas, atribuindo-lhe o Grande Prémio de Poesia.

Recebeu já o Prémio Bordalo de Literatura da Casa da Imprensa (1999), o Prémio de Poesia Cesário Verde (2005), o Prémio Fernando Namora (2005) e o Prémio Literário António Gedeão (2016).

É também detentor do Prémio da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários (2000), do Grande Prémio de Literatura dst (2007) e do Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana (2013).

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