A 90.ª cerimónia dos Óscares foi ontem à noite e o mundo não fala de outra coisa. Mas de que se falou durante a cerimónia? Quais os temas mais badalados e a quem agradeceram os vencedores?

Jimmy Kimmel foi o escolhido para apresentar mais uma edição dos Óscares, após se ter estreado o ano passado numa cerimónia que ficou marcada pela troca de envelopes a anunciar o Melhor Filme. Fizeram-se piadas inevitáveis sobre o assunto, mas havia muito mais por onde se pegar: quer fosse a igualdade de oportunidades, o assédio sexual ou a política de armamento de Trump.

Pois bem. Kimmel não falou sobre Trump, mas “brincou” com a expulsão de Harvey Weinstein da Academia e com o sucesso de Black Panther. “Eu lembro-me de um tempo em que os grandes estúdios não acreditavam que uma mulher ou uma minoria podiam protagonizar um filme de super-heróis. E eu lembro-me disso porque foi em março do ano passado.”

Mas a sua apresentação ficou marcada por uma decisão inédita: o comediante prometeu um jet ski e uma viagem até ao Lago Havasu, no Arizona, ao discurso mais curto da noite. E o discurso premiado foi o de Mark Bridges, vencedor do Óscar de Melhor Guarda-Roupa em Phantom Thread.

Mas, lançado o desafio de encurtar os discursos, será que ainda houve dos bons e inspiracionais? Sim. Eis alguns deles:

Frances McDormand

Desta vez, ela não precisou de três cartazes para se fazer ouvir. “Tenho algumas coisas para dizer” avisou Frances McDormand, vencedora do Óscar de Melhor Atriz Principal. E revelou três palavras mágicas que resumem o seu discurso de vitória: cláusula de inclusão – algo que os atores podem incluir nos seus contratos para exigir uma equipa e elenco diversificados, que revelem igualdade de género e raça.

A protagonista de Três Cartazes à Beira da Estrada colocou as coisas em perspectiva e pousou o Óscar (figura masculina) no chão. Em seguida, pediu a todas as mulheres nomeadas, nas diferentes categorias, que se levantassem. “Todas temos histórias para contar e projetos que precisam de financiamento“, frisou.

Um discurso sobre a igualdade de oportunidades em Hollywood que não deixou ninguém indiferente e que foi considerado o momento alto da cerimónia de ontem.

Sam Rockwell

O intérprete do polícia racista de Três Cartazes à Beira da Estrada, por sua vez, agradeceu aos colegas Frances McDormand e Woody Harrelson (nomeado na mesma categoria) e “a todos os que já olharam para um cartaz“, dedicando o Óscar de Melhor Ator Secundário ao seu colega e amigo Philip Seymour Hoffman, que morreu em 2014.

Ao ganhar o primeiro Óscar da sua carreira, Rockwell relatou um episódio que mostra como a sua família lhe fomentou a paixão pelo cinema: “Quando eu tinha 8 anos, fui chamado ao gabinete do diretor e o meu pai disse ‘Temos de ir. É a avó’. Eu perguntei ‘O que há de errado com a avó?’ e ele disse ‘Nada, vamos ao cinema’ “.

Rachel Shenton

As mãos tremiam-lhe, mas o prometido é devido e Rachel Shenton fez o seu discurso de agradecimento com recurso à língua gestual, não fosse o seu trabalho sobre uma criança surda. The Silent Child ganhou o Óscar de Melhor Curta-Metragem e a argumentista teve assim de cumprir a promessa – de comunicar através da língua gestual – que fez à protagonista de 6 anos.

“O filme é sobre uma criança que nasceu num mundo de silêncio, não é um filme exagerado ou sensacionalista, isto acontece. Milhões de crianças em todo o mundo vivem em silêncio e enfrentam barreiras de comunicação e dificuldades no acesso à educação. A surdez é uma deficiência silenciosa, não coloca em perigo a vida e não conseguimos vê-la” garantiu emocionada.

Lee Unkrich

Sem surpresas, foi Coco quem ganhou o Óscar de Melhor Filme de Animação e o maior agradecimento do realizador Lee Unkrich foi para os mexicanos, a quem se dirigiu ao garantir que “Coco não existiria sem a vossa infinita e bonita cultura e tradições”. 

Unkrich garantiu que Coco tenta dar um passo em frente até “um mundo onde todas as crianças podem crescer a ver personagens nos filmes que se parecem, falam e vivem como elas. As pessoas marginalizadas merecem sentir que pertencem. A representação importa“.

Guillermo del Toro

The Shape of Water foi o grande vencedor da noite, arrecadando o Óscar de Melhor Filme e Guillermo del Toro o de Melhor Realizador.

O cineasta mexicano subiu assim duas vezes ao palco, afirmando-se orgulhoso e fazendo uma alusão ao muro que Trump quer construir na fronteira com o México. O realizador conta que a sua infância passada no México o tornou um “grande fã de filmes estrangeiros” e que  “o melhor que a arte faz, e que a nossa indústria faz, é apagar as linhas na areia”.

Guillermo del Toro vincou ainda o papel da fantasia no mundo do cinema. “Quero dizer às pessoas que sonham em usar a fantasia para contar as histórias de mundo de hoje que vocês conseguem. Esta é uma porta. Mantenham-na aberta e entrem“, afirmou.