Entre expectativas, baladas e polémicas, chegou ao fim mais um Festival da Canção. O primeiro neste século com final fora de Lisboa, mas com olho na capital – é também o primeiro que vai escolher o representante do nosso país… no nosso país.

A 52.ª edição veio, sem grande surpresa, tentar repetir o feito da sua antecessora. De lá saiu o primeiro vencedor português da Eurovisão, um título que andamos para conseguir há 60 anos e que nos chegou às mãos sem se anunciar previamente.

Os preparativos

O Festival da Canção surgiu em 2017 relativamente renovado. Os “anos negros” de Portugal na Eurovisão fizeram a estação pública repensar o formato do certame português, do qual nos últimos anos saíram temas que pouco se destacaram no palco da Eurovisão.

A mudança chegou e foi eficaz. O convite a compositores de destaque na música nacional foi a alavanca para chegar longe lá fora e chegar ao topo da tabela de pontos do maior evento musical do mundo, com a maior pontuação de sempre.

Festival da Canção

Salvador Sobral foi o vencedor do Festival da Canção em 2017

Em 2018, o cenário repete-se em parte. O modelo a seguir foi o mesmo e, finalmente, há um esforço para trazer à antena um festival que honra o título de ícone televisivo que carrega às costas (mas que, mesmo assim, ainda tem bastante que aprender).

Os compositores convidados, o leque de jurados, os vários apresentadores. Tudo parece estar a compor-se para os lados da RTP, que prova que consegue fazer mais que um pequeno palco no Convento do Beato, grafismos duvidosos e temas vencedores que fazem os portugueses desligar a televisão na hora do good evening, Europe. Mas, como manda a tradição, não pode correr tudo bem.

Lê também: A música dos anos negros do Festival da Canção

A (tentativa de atingir a) fórmula Salvador

A expectativa era alta, mas desilusão foi a palavra que ecoou pelas redes sociais com a revelação dos excertos dos temas em competição.

De 26 temas a concurso, muitos tentaram seguir a fórmula Amar Pelos Dois. Uns mais outros menos; uns a conseguir replicar a magia (independentemente do género musical), outros a falhar redondamente. Mas a palavra que talvez melhor defina o alinhamento de ambas as semi-finais é uniformidade – talvez, também, não no melhor sentido da palavra.

No entanto, os momentos de destaque surgiram desses mesmos que conseguiram replicar a magia de 2017. Criaram-se favoritos, algo que, numa primeira audição dos temas, não se adivinhava acontecer. Para muitos, eram 26 desilusões a concurso, que acabaram por crescer em quem os ouviu (até aqui a replicar os acontecimentos da passada edição).

Uma linha a (não) seguir

É o caso da vencedora da edição. Cláudia Pascoal, que passou despercebida no meio da curiosidade em relação a outros artistas aquando da revelação dos excertos, acabou por ganhar o seu lugar e regou o seu próprio Jardim.

Numa edição em que estamos diretamente na final, sendo o país organizador, o alinhamento do Festival Eurovisão da Canção terá mais um momento de magia bem à portuguesa, que mostra que, quando queremos, conseguimos fazê-lo bem.

Mas é preciso ter cuidado. Esperemos que não se entre numa espiral de temas iguais, ano após ano. Há muito que explorar, e música de qualidade não aparece só na forma de uma balada. Já para não dizer que poucos conseguem Amar Pelos Dois da mesma forma que Salvador amou; mas essa é outra história.

Duas semifinais e os favoritos inesperados

Na primeira semifinal, a vitória de Peu Madureira surgiu como uma surpresa para muitos, que pouco davam Só Por Ela. Já o segundo lugar de Janeiro não foi assim tão inesperado; convidado de Salvador Sobral – que apareceu na green-room para apoiar o amigo -, a curiosidade era aguçada. O sorriso fácil de Catarina Miranda foi ganhando as suas namoradas pelo país fora nos dias que se seguiram, tornando-se uma das favoritas.

Já a segunda teve como destaque Diogo Piçarra, que todos queriam ver (quer queiram, ou não, admitir). O cantor ganhou a semifinal sem grande dificuldade, a receber os 12 pontos de ambos os votos. O Jardim de Cláudia Pascoal floresceu inesperadamente, ficando em segundo lugar. E ainda houve direito a um toque mais upbeat, que levou Peter Serrado a meio da tabela, mesmo no limite de se classificar para a final.

Uma final vestida a rigor

A final, por sua vez, foi renhida. Pela primeira vez em vários anos, muitos dos fãs do certame tinham mais que um favorito para a vitória.

Durante quatro horas de emissão, conduzidas por Pedro Fernandes e a recém-favorita dos festivaleiros, Filomena Cautela, os 14 temas finalistas desfilaram num palco que sai de Lisboa para descentralizar a festa da música portuguesa (que nem sempre a celebra como devia ser).

Talvez a final do Festival da Canção mais agradável de se assistir de sempre. Pelo menos, dizem-no os que já o veem há anos a fio. Finalmente, um espetáculo digno do seu nome, com um palco ao nível das finais mais badaladas lá fora, uma realização e som como sempre deviam ter estado e uma dupla de apresentadores que não deixou ninguém indiferente.

A vitória também chegou sem grandes surpresas depois do espetáculo desta noite. Nos últimos dias a liderar as votações dos fãs, Cláudia Pascoal, após ficar em segundo lugar na votação do júri regional, recebeu o maior número de votos do público.

Ao seu lado, com o mesmo número de votos finais, ficou Catarina Miranda. O seu sorriso não foi o suficiente para receber os expectáveis 12 por parte de quem via o festival. Talvez não houvesse necessidade, mas para sorrir não é preciso mesmo mais nada. Se ela o diz…

Festival da Canção

Catarina Miranda ficou em segundo lugar no Festival da Canção

O palco do Pavilhão Multiusos de Guimarães vestiu-se de LEDs, de uma gigantesca estrutura e de luzes que enchem a arena, numa clara mensagem para a Europa de que estamos prontos para maio, com um sonho cor de rosa a bordo com 42 outros tripulantes num mar que adivinha turbulento.

Porque não há Festival sem polémica

A polémica é o Festival,” dizia Júlio Isidro no início da segunda semifinal. E, pelos vistos, é mesmo.

Festival da Canção não o é sem algo que faça tinta correr; ou, pelo menos, que não encha as caixas de comentários de jornais e plataformas digitais. De votos comprados a revelações de favoritos, tudo parece motivo para o acender da chama por parte dos que gostam de ver o barco a arder. Este ano, mais umas quantas juntam-se à lista interminável.

Em primeiro, surge o problema na votação da primeira semifinal. Um erro de contagem acabou por retirar da corrida a canção Eu te Amo, interpretada por Beatriz Pessoa e composta por Mallu Magalhães. No seu lugar, subiu ao palco na final Rui David com Sem Medo, composto por Jorge Palma.

Os fãs do festival também não gostaram das declarações de dois dos principais membros do júri, que afirmaram o seu favoritismo por Peu Madureira. Adelaide Ferreira juntou-se à festa, afirmando que já teria escolhido o seu voto (mesmo antes de ouvir os temas da segunda semifinal). Declarações que acabaram por se tornar irrelevantes em pouco tempo.

A Divina Comédia – ou nem tanto

Mas Isidro não sabia o que estava por vir quando fez a declaração acima. Favorito do público, Diogo Piçarra e a sua Canção do Fim foram acusados de plágio, apontando o público uma cópia de um tema da Igreja Universal do Reino de Deus.

Inspiração divina ou não, fica ao critério de quem lê este texto, mas a verdade é que Piçarra desistiu do festival mesmo negando todas as associações entre as duas músicas. A RTP diz que “não duvidou em momento nenhum da integridade do artista.”

Diogo Piçarra desistiu do Festival da Canção

Comer bananas na TV, parecenças de um outro tema com um sucesso internacional, o som do estúdio. A lista é realmente interminável, mas português que é português nunca vai deixar de lhe acrescentar pontos a cada ano que passa.

Ao menos, já não há Meas Culpas para vingar.

E agora?

Agora, esperamos por maio. Se a curiosidade matasse, os portugueses já o estariam há muito, tal a expectativa para a primeira Eurovisão em terras nacionais.

Uns confiam que vamos dar um espetáculo de qualidade, outros têm as suas dúvidas. Porém, parece estar tudo sobre rodas para os lados da RTP, que afirma já ter tudo pronto para fazer “a melhor Eurovisão de sempre.” A ver vamos. Mas há uma certeza: estamos a bordovamos bem representados para um certame que decorre na nossa capital.

Já o Festival da Canção, esse, voltamos a ver daqui a um ano. Até lá, festival. A mais 26 Amar Pelos Dois e muitas polémicas para juntar a um bolo que já tem o seu sabor bem definido.