Com a fundação da Netflix em 1997 e posterior expansão para um serviço de streaming, o monopólio de audiências de inúmeros canais televisivos parecia ter encontrado um novo oponente. Com mais de 100 milhões de assinantes a nível global, não é novidade de que a empresa norte-americana se tornou, não só na maior concorrente de outras plataformas de streaming, mas também da televisões em sinal aberto e dos serviços por cabo.

Com a expansão e vantagens associadas ao uso da Netflix, seria de esperar que o público da televisão convencional migrasse para o serviço online do “gigante do streaming”. O resultado? A queda previsível do número de telespectadores. No entanto, esta tendência não se generaliza a todos os casos. E confirmamos isso com os exemplos de Breaking Bad, Shameless e Riverdale – três séries que registaram recordes de audiência televisiva… depois de a Netflix as ter começado a transmitir.

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O paradigma de perda de audiência que era esperado, inverte-se. Assim, quando as temporadas iniciais de uma série são disponibilizadas na Netflix, dando a conhecê-la a milhares de novos espectadores, que desfrutam de todos os antigos episódios disponíveis, estes acabam depois por migrar para a TV, de modo a acompanhar os novos capítulos, ainda indisponíveis nos serviços da Netflix. Foi exatamente este o caso de Breaking Bad: vimos o drama norte-americano alcançar um recorde de audiências na AMC, durante o capítulo final da série, depois de todas as temporadas anteriores terem sido disponibilizadas na Netflix.

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Atualmente, a tendência repete-se com Riverdale e Shameless. Segundo os canais televisivos The CW e Showtime, as séries registaram recordes de audiência nas temporadas atuais, graças ao aumento de novos espetadores que descobriram a série no ano passado, quando a Netflix estreou a sua transmissão online.

David Nevins, diretor-executivo da Showtime, mostra-se confiante quanto ao progresso do enredo de Shameless durante os próximos anos. Com a oitava temporada como a melhor classificada de todas, Nevins prevê o desenvolvimento do enredo em torno dos Gallagher com a contribuição da Netflix como um dos fatores de sucesso da série.

A estreia da temporada mais recente de Shameless foi a melhor em quatro anos. Por episódio, uma média de 7,7 milhões de espectadores acompanharam a história, um aumento de 25% face ao ano passado.

Numa conferência de imprensa recente da TCA (Associação dos Críticos de Televisão dos EUA), o CEO do Showtime confirma: “Definitivamente, a Netflix introduziu a série a outro tipo de audiência, mas isso gerou pontos positivos e negativos”. 

Nevins começa por revelar que a temporada mais recente da série não estará disponível no serviço de streaming até outubro de 2018: “O período da nossa exclusividade será mais longo, o que considero ser positivo”, explica. Quanto ao outro lado da moeda, o diretor norte-americano demonstra-se receoso quanto à possibilidade de os espectadores pensarem que Shameless se trate de um original Netflix.

Curiosamente, o ponto negativo destacado por David Nevins é partilhado pela The CW: “Provavelmente, a maioria das pessoas que assistiu à série na Netflix pensou que era um produto original deles”, supõe Rick Haskins, vice-presidente de marketing e digital da rede televisiva transmissora de Riverdale. Neste caso, a estratégia adotada pelos promotores da série foi provocar a migração da audiência do serviço de streaming para a transmissão televisiva.

Verão quente de audiências

Os resultados foram visíveis com o aumento de telespectadores da segunda temporada. A Vulture escreveu, em outubro, “depois de um verão inteiro de exposição na Netflix, Riverdale voltou com audiências recorde“. Após a primeira temporada ter arrancado, em janeiro de 2017, com 2,38 milhões de espectadores, a segunda temporada chegou em outubro do mesmo ano com 3,74 milhões a assistir.

Os números da Nielsen, citados pela AdWeek, apontam para um crescimento de 60% na audiência da série quando contabilizados os visionamentos nos primeiros sete dias a seguir à emissão e, quando avaliado o target comercial dos 18 aos 34 anos, a subida é ainda mais acentuada: 83%, quase o dobro do que registava na primeira temporada.

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A distribuição internacional da série também tem estado, em vários mercados, a cargo da plataforma de streaming. Em Portugal, por exemplo, Riverdale só pode ser vista pelos subscritores Netflix, dado que nenhum canal tem os direitos de transmissão.

Recorde-se que em 2016, a Netflix e a The CW negociaram a transmissão online de todas as séries do canal de televisão, oito dias após o final de cada temporada. Mark Pedowitz, presidente do canal de televisão, diz que no verão as produções da estação, principalmente os dramas juvenis, alcançaram números “astronómicos” no streaming. Uma aposta que, garante, é para continuar, ao classificar o sucesso da parceria como “o primeiro sucesso na era da Geração Z“.