Juntar personagens de Dostoievski e da Bíblia no mesmo filme – porque não? Quando falamos da obra cinematográfica de Manoel de Oliveira, um dos mais curiosos filmes do seu extenso leque é, sem dúvida alguma, A Divina Comédia.

Com um ritmo bastante mais acelerado quando comparado com a sua restante cinematografia – e com diálogos a piscar o olho a João Cesar Monteiro -, este filme coloca personagens como os Irmãos Karamazov, o Anti Cristo da obra de Friedrich Nietzsche e personagens bíblicas como Jesus Cristo, Adão e Eva (interpretados por Carlos Gomes e Leonor Silveira) ou Lazaro (Miguel Yaco) a conviver dentro de um hospício.

Ivan Karamazov, Adão e o Anti-Cristo entram num bar

Homens de fé e homens da razão debatem ideias. Filósofos e religiosos discutem nihilismo e concessões da ideia de Deus. Diálogos interessantes é algo que não falta a este filme que tem muito “pano para mangas” para conversas intermináveis e sem uma conclusão objetiva.

A base de A Divina Comédia assenta nas raízes tradicionais e ocidentais da ideologia cristã. Este filme é uma reflexão sobre o ser humano enquanto personagem cómica e ridícula, o bem e o mal num mundo recheado de tentações. As personagens ligadas à Bíblia, por exemplo, representam o quanto a religião pode cegar o homem e deixá-lo alienado de ideias e conceitos diferentes. É neste contexto que o realizador questiona a origem da doença mental e da consequente alienação que esta trás.

Os caminhos, os discursos e as obsessões das personagens cruzam-se ao longo do filme, pondo em causa as suas crenças, cujo extremismo leva a que estas percam a sua razão. Este extremismo é acompanhado por excelentes interpretações de alguns dos mais talentosos atores do cinema e do teatro português (inclusive Maria de Medeiros, que viria a entrar  no filme de culto Pulp Fiction) num trabalho em que a semelhança com a realidade é (intencionalmente) substituída por um atuações dramáticas exageradas e teatralizadas na representação das personagens.

Conhecimentos literários prévios

Uma das maiores criticas feitas ao filme, tanto na sua estreia como atualmente, quer em caixas de comentários de sites nacionais ou internacionais, está relacionada com a contextualização de algumas personagens ou excertos de diálogos serem influenciados por textos bíblicos ou peças de literatura de escritores como José Régio, Dostoievsky e Nietzsche. Sem este conhecimento adquirido a priori, a interpretação e compreensão do filme podem tornar-se um desafio sério, como é o caso do comportamento da personagem de Lázaro que arrasta atrás de si para todo o lado o seu caixão.

Miguel Yeco (no centro), no papel de Lázaro, foi um dos destaques do filme

Contudo, mesmo sem a compreensão destas metáforas e referências ao longo do filme, a visualização deste acaba por ser uma experiência recompensadora, em grande parte devido à sua comédia discreta e seca. Os diálogos debatem sobre do bem e o mal, o pecado e a santidade, e deixam a audiência não com respostas, mas com ainda mais perguntas. Mais do que uma simples peça ingénua de entretenimento, a Divina Comédia pretende que o espectador assuma um papel ativo e que procure a origem das referências do filme, continuando assim a discutir os temas abordados após o final do filme.

Apesar de ser uma das mais acessíveis obras do icónico realizador português, este não deixa de ser um desafio, especialmente tendo em conta aquilo a que a maioria do público contemporâneo está habituado – filmes que entregam respostas de bandeja. E isto é algo que Hollywood podia aprender com o nosso Manoel de Oliveira.

Ficha Técnica:

Realizador: Manoel de Oliveira
Argumento: Manoel de Oliveira
Elenco: Maria de Medeiros, Miguel Guilherme e Luís Miguel Cintra
Género: Drama   
Duração: 140 minutos
7.0/10