Esta semana, a banda The Gift inicia uma série de concertos de consagração do seu último álbum, Altar. O Espalha-Factos esteve à conversa com a vocalista Sónia Tavares e com o baixista e teclista John Gonçalves.

Manter a essência numa nova fase

Espalha-Factos – Relativamente ao vosso último projecto, Altar, é claramente uma transformação. Tanto em relação aos últimos projetos como em termos sonoros e líricos. Como é que definem este álbum por oposição aos álbuns anteriores?

Sónia – Posso começar por discordar? (risos) Porque, na realidade, não acho que este disco seja assim tão diferente dos outros. É lógico que é diferente, porque a ideia é sempre fazer as coisas diferentes, não nos estarmos sempre a repetir. Mas a realidade é que eu acho que as pessoas só conhecem aquelas canções que passam nas rádios, sobretudo as canções em português. Nós, na realidade, temos sete discos e só cinco canções em português. E os nossos discos são bastantes ecléticos. Quero dizer com isto que acho que as pessoas não conhecem os discos inteiros e quando me perguntam e afirmam que há uma grande mudança, o que eu acho que existe mesmo é: apurámos o som, mas a personalidade musical é precisamente a mesma.

Sempre fizemos canções para dançar, canções festivas, canções íntimas, de amor, de coisas mais “sentimentalonas”, que estão presentes também neste Altar. Agora a sonoridade, tecnicamente e esteticamente, é provável que esteja um bocadinho mais apurada, até porque tem o dedo do grande mestre Brian Eno. Portanto, é natural que as coisas tenham evoluído. Mas não acho que haja uma diferença na personalidade musical dos The Gift.

EF – A essência está lá na mesma?

Sónia – Acho que a nossa personalidade musical está muito bem definida neste disco, foi isso que o Brian Eno tentou fazer connosco, apurar essa personalidade, mas não mudá-la.

Levar o Altar ao mundo

EF – Acreditando que os The Gift estão algo “fartos” de falar sobre o Brian Eno, falando mais especificamente da tour. Assisti ao primeiro concerto de apresentação do Altar e acompanhei a fase de promoção do álbum. Como é que vêm os The Gift desta tour?

Sónia – Começámos exatamente com uma digressão de auditórios e teatros, porque achávamos que era o melhor sítio para apresentar este Altar. Tem um lado sonoro bastante complexo e que nós queríamos que fosse apreciado da melhor forma possível com as melhores condições de som possíveis e que as pessoas relaxassem, enquanto ouviam o disco na integra. É lógico que depois tivemos que estender um bocadinho essa digressão e passou pelas grandes festas das cidades, por festivais em Portugal e fora também fizemos a mesma coisas. Estivemos no Texas, no South by Southwest. e lógico que esse público teve de ser alargado e as condições não são sempre as melhores. Por isso é que queremos fazer estes concertos no Coliseu, porque é uma sala que tem precisamente os dois lados que são perfeitos para este Altar, tem aquela parte mais íntima, o lado mais intimista de um teatro, mas depois tem aquele peso dos grandes concertos ao vivo que por lá já passaram e que tanto apreciamos. Portanto é uma sala emblemática.

Mas passámos por imensos sítios. Estivemos em Espanha Numa tournée extensa. Num ótimo festival em Brighton, Inglaterra, no ano passado, o Great Escape, que provavelmente vamos repetir este ano. Estivemos uma sala fantástica o ano passado em Londres, que se chama Bush Hall, onde tive o prazer de ter o Brian Eno comigo a cantar ao vivo o single, Love Without Violins. E a turné continua e vai continuar até ao final de 2018. Passámos agora pelo Union Chapel, também em Londres, um concerto fantástico. Depois destes Coliseus vamos para o Luxemburgo, para Amesterdão, ainda vamos à Rússia. Portanto ainda temos um monte de sítios para apresentar este disco.

“Sabíamos que esta participação com o Brian Eno nos iria servir de alguma forma, mas também sabíamos que não era por causa disso que íamos ser os U2.”

EF – Tinha pensado perguntar se a tour tinha sido tudo aquilo que tinham esperado, mas ainda falta muito para percorrer…

Sónia – Na realidade foi a tour de apresentação, esta será a tour de…

John – … consagração! (risos)

Sónia – Consagração! (risos) Não é consagração, mas as pessoas já sabem ao que vão, quem são os The Gift, que têm um disco produzido com o Brian Eno…

John – … e já o ouviram, na altura não ouviram, na altura foi mesmo em cima!

Sónia – Já vão celebrar connosco estas canções mais do que ir descobrir!

O mesmo folêgo

EF – Quando saiu a crítica ao álbum (Altar), falou-se muito nesta ideia de que “há um novo folêgo para os The Gift”. Alguma vez viram o Altar como se fosse esse “novo folêgo”, uma nova vida como muitas vezes aparece na imprensa?

Sónia – Não, não. Acima de tudo somos pessoas com os pés bem assentes na terra. Sabíamos que esta participação com Brian Eno nos iria servir de alguma forma como um bom cartão de visita para esta ou aquela rádio ou revista, e felizmente serviu. Mas também sabíamos que não era por causa disso que íamos ser os U2. (risos) O folêgo que aconteceu foi esta experiência maravilhosa com o Brian Eno, que nos fez redescobrir e nos abriu novos caminhos para uma série de coisas que nós não sabíamos, e falo isto tecnicamente, a nível do estúdio. Ensinou-nos muita música, muitas estratégias e é mais por isso que se calhar se fala neste folêgo. Agora um ciclo de vida nova para os The Gift? A nossa vida somos nós que a vamos fazendo, passo a passo.

John – Também acho que houve aqui uma certa culpa nossa, porque nós dissemos que se fechou um ciclo com os 20 anos. Então acho que as pessoas falaram um bocado disso, “como os 20 anos fecharam um ciclo este aqui é um novo fôlego”. Acho tem um bocado a ver com isso, talvez.

EF – Este álbum só tem canções em inglês, isso foi uma decisão que vocês tomaram à priori? Foi uma decisão que surgiu naturalmente? Foi influência do Brian Eno?

Sónia – Nunca tomamos decisões à priori, tomamos todas à posteriori. Como tudo na vida dos The Gift em termos estéticos, falo das canções, da criatividade, da inspiração, nós deixamos que ela venha como ela quiser. Desta vez apareceu só em inglês. Tínhamos dez canções, achávamos que o disco estava completo e que não fazia falta mais nada. Não foi por nenhum motivo especial. Às vezes sai em português às vezes sai em inglês, desta vez saíram todas em inglês. O Brian Eno ainda perguntou se nós não queríamos fazer nada em português, mas no fim estávamos a forçar e tinha as dez canções que queríamos e estava absolutamente completo. Para o próximo disco logo se vê, talvez uma em russo (risos). Estou a brincar! A língua para nós é já um “não-assunto”, é uma questão que faz parte da estética dos The Gift e não tem nada de grande peso por trás dessa estética.

“A portugalidade está sempre connosco por mais que digam que não

EF – Lemos numa entrevista no The Independent que o facto de o álbum ser todo em inglês podia ser uma rampa de lançamento para a vossa “estreia” para as audiências britânicas. Acham que podem ganhar mais apoio internacional desta forma?

Sónia – Não, não é por aí. Temos alguns discos que não têm canções nenhumas em português e isso nunca foi um fator. Sempre soubemos que o facto de cantar em português era um caminho já percorrido lá fora e que, se calhar, por aí até conseguíamos ter mais visibilidade. Podíamos entrar mais pelo lado da world music, do fado. O inglês, creio que, hoje em dia, até nos atrapalha um bocadinho, porque somos mais uns no meio de tantos. Só fazemos canções assim, porque crescemos em Alcobaça a olhar para um mosteiro de 80 metros e se tivéssemos nascido noutro sítio qualquer as coisas não seriam assim. A portugalidade está sempre connosco, por mais que digam que não, e o facto de cantarmos em inglês não significa que a nossa música não seja portuguesíssima. Toda esta melancolia, toda esta profundidade das canções, no fundo acho que é um característica bem portuguesa. Portanto, é mais por aí!

Um Big Fish independente

EF – Relativamente à música Big Fish, li algures na Internet que o tema podia trazer a ideia de que é uma despedida, por causa do verso “and we stopped at something you will not forget”, um rumor muito improvável…

Sónia – Ah, nunca tinha pensado por esse lado! Fantástico! A net is a fucking dark place, é impressionante!

John – É uma despedida, é uma despedida como se vê! (risos)

EF – Noutra aceção da música podemos olhar de forma diferente. Os The Gift já se sentem este big fish no meio musical?

Sónia – É curioso que a música surgiu precisamente quando falávamos de big fish e small fish no mundo artístico e foi uma conversa, numa das nossas enormes conversas que tínhamos com o Brian durante as gravações, que essa letra surgiu. Precisamente por isso “Sometimes you gotta be a big fish”. É verdade, mas, na realidade, não tem nada a ver com os The Gift, porque acho que os The Gift continuam sempre… como é que eu te hei-de explicar isto?

John – Vou-te explicar. Antes ensaiávamos no Zé dos Bois, há muitos anos atrás, ’97, ’98, quando fomos para o nosso espetáculo do Aula Magna em ’99. E acho sempre que os The Gift estão mais perto do Zé dos Bois do que do Altice Arena. Sempre achei, e as pessoas não. E as pessoas não acham porque não ouvem os discos. Ouvem as rádios e os singles. Temos que admitir que desde 2006, esquecem-se um pouco daquilo que são as dez canções do disco e só podem realmente perceber isso indo aos concertos. Não há outra maneira. Podem ouvir os discos, mas as pessoas, a maior parte das vezes, têm preguiça de os ouvir. Até ir ao concerto acaba por se perceber um bocado isso.

Não acho que que os The Gift sejam um big fish em termos artísticos, acho que estamos mais perto dos independentes. Continuamos com a nossa editora, não assinámos com nenhuma editora grande, mesmo neste disco. Podíamos ter assinado com uma Sony internacionalmente. Portanto continuamos a ser a nossa la folie independente? Acho que não somos. No entanto, somos um big fish porque andamos aqui há 23 anos e conhecemos muito mais do que os miúdos novos que têm 18. Em termos artísticos estamos muito mais perto dos independentes do que do mainstream.

Sónia – Da tainha do Tejo do que do tubarão do Índico.

” (a capa do álbum) É um bocado ambígua e acho que também são isso os The Gift, sempre o foram toda uma vida, ambíguos”

A estética aliada à música

EF –  A título de curiosidade, o que é nos podem dizer sobre a capa do álbum, o que nos podem dizer sobre como surgiu a ideia?

Sónia – Muito sinceramente, surgiu porque não fiquei contente com a primeira opção. Surgiu como plano B. Normalmente, tenho sempre o meu parecer em termos estéticos, mas na realidade as decisões são sempre tomadas em conjunto. Desta vez, fiz “finca-pé” que a primeira opção não servia o disco. Portanto tive de partir para uma segunda opção e foi uma busca minha. Não se pode dizer “não estou contente” e depois ficarmos em terra de ninguém.

Felizmente, como passeio muito pela Internet e os telemóveis, hoje em dia, deixam-nos que o tempo livre seja feito destas coisas, conheci através do Instagram um artista australiano que, na realidade, nem é fotógrafo, é um artista, e um artista implica muita coisa. É fotografo, está relacionado com artes plasticas, é realizador, mas tudo um pouco amador. Portanto, não profissional de nenhuma dessas artes. Mas tinha uma sessão de fotografias tão bonita que eu pensei “o Altar é isto”. Contactei-o e ele disse que tinha todo o gosto em trabalhar connosco e comprámos estas fotografias, porque achei que estas fotografias eram o Altar e a sessão era bastante emblemática. Parece que tinha ouvido o disco e feito a sessão. É um bocado ambígua e acho que também são isso os The Gift. Sempre o foram toda uma vida, ambíguos. Não conseguimos perceber se é um homem se é uma mulher. Percebíamos que havia ali um fator religioso, não conseguíamos perceber qual, porque existem cruzes, existem burcas. Foi por aí que eu achei que o Altar era isso tudo.

John – Quando nos mandaste a fotografia para o Whatsapp acho que todos dissemos “é capa”! Escolhemos logo a capa, era aquilo.

Sónia – De facto, artisticamente impressionante e tinha que ser aquilo. Contactámo-lo e o Joel Bernie, como ele se chama, gentilmente colaborou connosco. Para ele também foi ótimo, porque ter a sua obra num disco com o Brian Eno, não tanto com os The Gift, para ele foi importante…

John – A capa esteve nomeada para as melhores do ano.

EF – Como a do Explode.

Sónia – Fui eu outra vez (risos). É ótimo por essa nossa busca também por outras pessoas que possam completar a nossa arte com a delas. E agora o caso do Niv Novac, que também fez o videoclip do último single, You Will Be Queen, que desde logo aceitou trabalhar connosco e se identificou com os The Gift e com a canção. Nós achávamos que aquelas imagens eram o tema da música. E pronto, vamos assim graças à internet, arranjando colaborações maravilhosas que prolongaram a estética da nossa música.

EF – Desde o Explode, que foi muito mais temático e com um look muito específico, há sempre uma revolução em todos os álbuns. Este não é excepção. As imagens promocionais terem todas como cenário Alcobaça e o mosteiro é um sinal de maturidade, de um regresso às origens?

John – As fotografias em Alcobaça surgem por sugestão do nosso fotógrafo, Hans Peter, holandês, que trabalha connosco já há muito tempo. Achou que desta vez fazia sentido ser ali e dissemos “ok”. Já não fotografávamos em Alcobaça desde ’96, foram mais de 20 anos depois, então não teve uma razão específica. Foi um conceito do fotografo que achámos ok e o facto de se chamar “altar” talvez tenha a ver com isso.

Sónia – Claro, e de termos aquele Mosteiro fantástico.

John – Apesar de não termos um plano religioso. Aliás, a capa até dispara nesse aspeto, não apenas uma religião. É uma coisa muito aberta. Mas acho que a razão foi essa, foi fazer jus ao nome e tentarmos perceber que tínhamos ali um sítio incrível e acho que foi especialmente uma fotografia, em que nós estamos lá dentro naquela parte dourada.

Sónia– Na realidade, Alcobaça assenta-nos bastante bem. É uma estética que combina bastante bem com a nossa música.

“Quem for ao Coliseu pode realmente estar perante um dos grandes momentos da vida dos The Gift”

A nova tour e o futuro dos The Gift

EF – A Sónia já deu uns “toques” nesta questão, mas o que é que se pode esperar dos concertos que vêm aí?

John – Não ouvi a Sónia falar sobre isso, mas acho realmente e sem promoção, porque não precisamos de estar a dizer coisas que não vão acontecer. Tivemos um espetáculo no Union Chapel, no sábado, tecnicamente ótimo, porque às vezes não há. Temos uma série de dificuldades técnicas para esses espetáculos e correu muito bem. Acho que estes espetáculos no Coliseu juntam a beleza incrível da sala, a banda num grande momento, o Altar, que é um dos nossos grandes discos, a recuperação de temas antigos, à imagem de 2018. Portanto houve algumas remodelações a algumas canções.

Temos a hipótese de no Coliseu fazer a parte íntima que temos no Centro Cultural de Belém, ou num teatro, ou na Union Chapel, porque a sala proporciona isso. Depois temos a parte da festa que queremos trazer para o público desta vez, em que a Sónia, na parte mais camaleónica, pode fazer isso bem. Acho que, quem for ao Coliseu, pode realmente, e digo isto sinceramente, estar perante um dos grandes momentos da vida dos The Gift. Porque temos Aulas Magnas no passado, tivemos Coliseus, mas não com a experiência e maturidade que temos, para a parte cenográfica, para a parte vídeo, para a parte luz. Temos aqui o espetáculo completo que eu acho que pode ficar na história dos The Gift.

EF – 23 anos, o que é que se segue agora?

John – A Sónia, há bocado, estava a falar de uma coisa muito interessante. A tournée dos The Gift não acaba aqui. Antigamente fazia-se isso, nós não. O Coliseu agora aparece no momento que achamos certo para apresentar as canções. Portanto, como é no meio da tournée, temos muito para apresentar em Portugal ainda. Temos Espanha, em que temos um festival marcado, não falámos muito dele, mas foi anunciado com grandes nomes no fim-de-semana do Rock in Rio. Temos Rússia. Temos mais coisas eventualmente noutros países. Repetimos agora Londres, tínhamos feito com o Bush Hall e repetimos o Union Chapel. Repetimos Amesterdão, tocámos no inicio do ano 2017 e vamos agora repetir. Acho que há muito ainda para fazer neste disco, está muito vivo ainda. Depois, eventualmente, em 2019, logo haverá novas coisas ou para apresentar depois. Mas isto está ainda para durar.

EF – Acham que esta é a melhor versão dos The Gift até agora?

Sónia – Versão, não sei, mas fase, absolutamente.

John – Fase, até agora, sim. Costumo dizer isto de todos os discos e também acho, eventualmente, que o próximo disco pode ser muito, muito, muito bom. Mas a envolvente emocional que este teve por ter o Brian, o Flood e vir depois de 2012, o último que nós fizemos, o Primavera (o 20 não era um disco novo, era apenas uma compilação). Este tinha em certa parte uma carga emocional diferente. Mas é a melhor fase dos The Gift sem dúvida.

EF – Juntaram-se tão novos os quatro. Há bandas que passados 20 anos já não conseguem estar ao pé uns dos outros. Vocês dão-se assim tão bem de natureza ou conseguem ultrapassar os vossos conflitos?

Sónia – É lógico que temos os nossos conflitos, até porque somos quatro cabeças que pensam, não digo de forma diferente, porque se não nos entendêssemos esteticamente não estávamos juntos. Mas não andamos em rebanho e às vezes há conflitos, esteticamente, entre mim e o Nuno regularmente, mas nunca pensando que esse tipo de conflitos possa dar aso a uma rutura. É um “não-assunto” como costumo dizer, nem fazemos muito caso disso, porque sabemos que estamos a discutir a apertar o pescoço uns aos outros e em dois minutos já estamos todos a tomar café.

Realmente, há uma coisa que nos une para além da música que é não é um casamento, porque isto é mais que um casamento, é uma família. É sangue e a família, por mais que queiramos ou por mais que possamos insistir, não há hipótese nenhuma de divórcio. Só quando não houver público para os The Gift, quando não houver gente que queira a nossa música e não faça sentido a gente andar aqui a arrastar as nossas tristes carcaças, aí separamo-nos. Por agora estamos numa fase fantástica, cada vez com mais público. Não faz sentido nenhum até porque não temos problemas de ego, felizmente, que é o que normalmente acaba com as bandas.