E se Kelela fosse a protagonista de um simulador de vida real? É expectável que fosse um dos jogos mais irreverentes dos últimos anos. Com o vídeoclipe lançado para a música Frontline, no dia 28, o conceito torna-se parcialmente real, mas nunca menos estimulante.

Há uma visualidade inerente à faixa, retirada do disco Take Me Apart, exemplo sublime do R&B metamórfico em que a cantora se especializou. A batida de elevada precisão, de Jam City, é a ambiência para uma despedida assertiva, de uma interlocutora que insiste em ter a última palavra. É isso que podemos ver no vídeo, com um asterisco: tudo se passa num universo tridimensional.

Daí a semelhança com a série de videojogos The Sims, que permitiu a milhões de utilizadores controlar vidas com um cursor, da nascença até à morte do avatar escolhido. Mas, fora o óbvio aspeto visual, não é uma simples homenagem. Podemos cortar relações nos Sims, mas fazê-lo com tantas pontas soltas é complicado.

O vídeo é um pormenor fascinante na carreira de Kelela. Depois da mixtape Cut 4 Me, de 2013, foram necessários quatro anos para que chegasse o seu álbum de estreia. Mas a prorrogação foi mais que compensada, em Take Me Apart, reintroduzindo-a como erótica, independente e vulnerável. Um diamante lapidado, como os vários que ornamentam o seu cabelo. Foi deste disco, constante em várias listas dos melhores projetos de 2017, que se extraiu Frontline.

Vários mundos em fusão

Não é o primeiro deste tipo: outros intérpretes como Nivea (ou, sim, SP e Wilson) já se tinham transfigurado para um cenário 3D. Mas este exemplifica um nível sumo de animação digital, sem limitar as potencialidades da narrativa. Pelo contrário, expande-as.

Claudia Maté executou um conceito proposto por Mischa Notcutt, diretora criativa de Kelela. O estilo visível—uma mistura de tecnologia 3D, realidade virtual e videojogos—procede de uma carreira alicerçada exatamente nisso. No website da artista, o seu trabalho é apresentado como “uma fusão do familiar com o estranho, do futurístico com elementos retro incomuns“.

É evidente como a capacidade de mesclar realidades dissonantes entra aqui em jogo. Ao longo de cinco minutos, o enredo do vídeo progride em complexidade (e perplexidade). Iniciamos com a separação de amantes e reminiscências da sua relação; vemos o avatar de Kelela fumar e descontrair com amigas. Mas quando as personagens se inexplicavelmente atiram para um abismo, o vídeo segue um rumo mais abstrato.

O Mercedes cor-de-rosa de Kelela é absorvido por um portal inscrito numa estátua clássica. Seguidamente, a condutora, o ex-namorado e companheira atual deste surgem de mão em mão. Há várias questões a fazer? Sim. Mas, antes que haja tempo para tal, arranca com o seu veículo para lugar incerto. Como é publicitado no site de Maté, é um “mundo surreal e pixelado onde tudo é possível e nada é o que parece“. Na verdade, pouco interessa a ambiguidade da história, porque temos em mãos uma autêntica delícia visual.

À Rolling Stone, a cantora faz uma explicação simples:

Com este vídeo, pude contar a minha história de forma ligeira, mas dramática. É sobre deixar o teu ex, enquanto o vento sopra no teu cabelo.

Talvez não precisemos de saber mais. De qualquer maneira: nesta ou noutra realidade, Kelela é sempre a mestre.