Nos últimos anos, semiocultos pela irrelevância a que foi votado o Festival da Canção, multiplicaram-se os escândalos e polémicas na final nacional portuguesa para escolher os nossos representantes lá fora. Este ano, foi Diogo Piçarra quem foi apanhado nessa teia.

No domingo à noite, perante uma semifinal que mostrou, em traços gerais, como o Festival continua a ser uma aglomeração de músicas sensaboronas, que não teriam lugar, sequer, no alinhamento dos álbuns de quem as compõe, Piçarra destacou-se. A votação do júri e do televoto são de uma unanimidade rara no certame.

Depois da aclamação incomum, o enlamear enfim chegou. Como tem sido, ano após ano. Na vitória polémica de Suzy em 2014, na derrota contestada de Catarina Pereira em 2010, ou mesmo o ano passado, quando Nuno Markl, jurado do evento, assumiu Salvador Sobral como favorito depois da primeira semifinal.

Os hooligans do Festival

Há umas pessoas em Portugal, que seguem o Festival de forma religiosa, que são mais fanáticas que hooligans. E, em geral só têm contribuído para uma coisa: não têm parado de fazer com que o Festival RTP da Canção seja uma relíquia ultrapassada, um produto televisivo inundado de kitsch e de mofo, para um nicho de pessoas que olham para a arte como uma competição entre fórmulas musicais relativamente gastas.

Diogo Piçarra teve a coragem de compôr a sua música e cantá-la, não deixando a tarefa entregue a outros, incautos e inexperientes. Muitos compositores consagrados entregaram as canções a outros porque não conseguiriam lidar com o facto de terem de dar a cara por uma falhanço ou, pior ainda, por não reconhecerem ao palco do mais antigo evento televisivo português, a qualidade suficiente para os ter como intérpretes. Além disso, Piçarra foi dos poucos que se apresentou no palco do Festival com profissionalismo e com uma atuação pensada para um espetáculo televisivo – que é o que é o Festival da Canção.

Era também o único cantor a participar este ano sendo detentor uma carreira com muita notoriedade, viva, com dezenas de concertos em todo o país. Na sua desistência sublinha isso mesmo, que não precisa do evento para nada, o que é inteiramente verdade. Mantendo, no entanto, que teria muito orgulho em representar Portugal na Eurovisão. Haja humildade e resiliência.

A música a que a sua Canção do Fim é comparada, é parecida a muitas outras. Lembro-me, dos últimos dias, de outras duas com progressões melódicas semelhantes: a também festivaleira Flor de Verde Pinho, cantada por Carlos do Carmo, ou ainda The Blower’s Daughter, de Damien Rice.

Em mais uma gigante polémica de redes sociais, como muitas que tanto têm condicionado o dia-a-dia em Portugal, da política à economia, da cultura à justiça, Diogo Piçarra sai. E quem perde é mesmo o Festival da Canção.

O único artista que poderia contribuir para demonstrar a outros, de equivalente ou superior craveira, que ainda vale a pena utilizá-lo para cimentar carreiras, até para tentar a sorte no mercado internacional, sai.

Sai e demonstra o que tem sido habitual nestes últimos anos, com a exceção honrosa de 2017: Ninguém que tenha trabalho e esteja bem na sua vida artística precisa do Festival da Canção. Pelo contrário… se está bem, deve manter-se longe dele. A não ser que queira ser apanhado em situações tão diversas como um mar de apupos a meio de um Coliseu cheio, em conspirações infundadas sobre televotos comprados ou ainda nas apuradas perícias técnicas dos milhares de especialistas em composição musical que pululam nas caixas de comentários dos jornais portugueses.

Desculpa, Diogo. Na verdade, ainda hoje estou para perceber como é que a Luísa e o Salvador Sobral conseguiram escapar impunes à maldição.